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Jesus nunca construiu templos

Por Mauricio Zágari


por Mauricio Zágari

A frase está na moda: “Jesus nunca construiu templos“. Geralmente, esse mantra é repetido por pessoas bem intencionadas, cristãos que se revoltam contra modelos de igrejas abusadoras, legalistas, cheias de normas humanas e onde as pessoas se reúnem em geral para assistir a cultos e não para viver uma vida diária de fé. Na cabeça desses irmãos, o famigerado templo se tornou o símbolo de um modelo falido, anticristão, injusto e meramente formalista. Seriam paredes vazias, sem espiritualidade.

Naturalmente, esses irmãos acabam, mais dia, menos dia, abandonando suas igrejas. “Afinal, o templo do Espírito somos nós”, argumentam, “e não precisamos de templos de pedras”. “Nós somos a Igreja e não precisamos de igrejas”, bradam. Assim, mediante o desprezo que nutrem pelos templos feitos pelas mãos de homens e por todo o significado que trazem consigo a respeito das instituições que abrigam, alguns desses cristãos se tornam “desviados”. Outros ficam em casa e acham que podem viver um cristianismo fora da coletividade (o que não é bíblico). E há ainda aqueles que buscam comunidades alternativas (que são tão institucionalizadas como qualquer igreja, como já discuti no post “Jesus X Igreja: tornei-me cristão quando saí da igreja“). Esses preferem se reunir em casas, jardins, quintais, salas de estar ou coisa parecida. Há nessa expressão uma certa ilusão de que assim estão vivenciando o cristianismo como se fazia na Igreja primitiva.

Desse modo, o templo tornou-se personificação do mal, do cristianismo de fachada, falido, desumano. O templo passou a ser associado a estruturas onde o indivíduo é apenas um número e não uma alma, onde o pastor é um senhor feudal no comando de um grupo de campesinos que lhe seguem por medo de desobedecer o “ungido intocável do Senhor”. E assim, na mente desses irmãos, clama-se constantemente: vade retro, templo.

É comum lermos no twitter, em blogs e outras redes sociais essa afirmação: “Jesus nunca construiu templos“. O que o indivíduo quer dizer com isso é que Jesus nunca teria se preocupado em criar esse tipo de estrutura, como as que existem hoje, que o Mestre só investiu nos relacionamentos e não em paredes. Em parte, é um argumento bonitinho, tem seu charme. Mas, por outro lado, é um argumento perigoso, pois desqualifica algo que Jesus não desqualificou. Como assim? Vamos por partes.

Primeiro (e isso seria só uma mera curiosidade), nós não podemos afirmar que Jesus jamais participou da construção de um templo religioso. Lembremo-nos que ele trabalhava em carpintaria. Quem sabe se em seu ofício de carpinteiro Jesus não teve de fazer bancos para sinagogas, mesas para rabinos ou mesmo vigas e telhados para templos judaicos? Nós não sabemos isso. Como profissional de carpintaria Jesus pode muito bem ter se envolvido na construção de templos ou de elementos usados em templos, é algo que faz até bastante sentido. Então, só essa margem de dúvida já nos deixa no mínimo com uma pulga atrás da orelha com relação a esse argumento. Afirmar o inafirmável é muito perigoso.

Mas tudo bem, como trata-se de um argumento especulativo, o deixemos em segundo plano e nos concentremos naqueles que são factuais. Pergunto então o seguinte: só porque Jesus não fez pessoalmente alguma coisa isso a desqualifica? Por exemplo: Jesus nunca jogou futebol, até onde a Bíblia relate. Não deveríamos então eliminar os esportes da nossa rotina? Jesus nunca orou pedindo uma esposa, não deveríamos nós parar de fazê-lo então? Vamos além: o hábito dos judeus da época de Jesus era orar com os olhos abertos, fixos no céu. Então, por conseguinte, orar de olhos fechados como fazemos hoje seria errado? Prossigamos: Jesus pregou e ensinou muitas vezes sentado. Então púlpitos e tablados de salas de aula em seminários teológicos deveriam ser abolidos? E mais: Jesus nunca usou terno e gravata, então deveríamos ir às reuniões de túnica? As viagens de Jesus eram feitas a pé, logo todos os que criticam as estruturas eclesiásticas formais deveriam abolir carros e ônibus? E mais: Jesus nunca cozinhou macarrão. Não posso comer então um espagueti? A Bíblia não mostra Jesus cantando em corais, que fazemos então com os nossos? E repare: Jesus nunca escreveu um único livro sobre espiritualidade, teologia ou outros aspectos da fé cristã. Então devemos fazer uma grande fogueira com o que as editoras cristãs publicam? Só para terminar: Jesus nunca usou internet. Então o que você está fazendo aí lendo este blog, seu pecador?!?! E Jesus nunca tuitou. Então por que você tuita, seu legalista?!?!

E para aqueles que acham mais espiritual se reunir em casas do que em templos perguntaríamos: quantas casas a Bíblia diz que Jesus ergueu mesmo? Quantos jardins? Quantas salas de estar? Resposta: nenhuma. Zero. Então, pelo mesmo raciocínio lógico, se templos são instituições ruins para a prática cristã por Jesus nunca ter erguido um templo, logo casas, apartamentos, sítios e quaisquer outros ambientes também o são, visto que Jesus nunca construiu nada disso. O que é simplesmente um raciocínio absurdo.

Já é hora de, em vez de ficarmos repetindo sem pensar chavões, clichês e mantras que ouvimos por aí, ouvirmos o que a Bíblia tem a dizer sobre o assunto: “Onde se reunirem dois ou três em meu nome, ali eu estou no meio deles” (Mt 18.20). E, meu amigo, minha amiga, se esses dois ou três estiverem dentro de um templo de uma igreja institucional pode ter certeza absoluta de que ali o Senhor Jesus estará presente. Queiram os críticos, quer não.

Poderíamos seguir por horas pensando em exemplos de coisas que Jesus não fez e que nós fazemos e… sabe aonde isso nos levaria? A lugar algum. Simplesmente porque o argumento de que algo é desqualificado espiritualmente porque “Jesus nunca fez” é de uma infantilidade sem par. É muito limitado. Pois o que importa são os princípios.

Afinal, deveríamos ter templos ou não?

Mas a questão de se deveríamos ou não ter templos é interessante, então falemos um pouco sobre o uso de templos dentro da fé e da prática cristãs. E aqui é importante ter conhecimento histórico. No início do cristianismo, da época de Jesus até o ano 313, quando Constantino emitiu o Édito de Milão, a fé cristã era proscrita. Era necessário fazer reuniões e cultos de maneira disfarçada, pois as celebrações cristãs eram passíveis de morte devido à legislação do Império Romano. Logo, as pessoas iam às casas umas das outras fingindo uma visita social para ocultar as intenções de culto – exatamente como acontece hoje em países como a China, onde participar de cerimônias cristãs pode lhe condenar à morte. Isso não tinha absolutamente nada a ver com uma suposta reprovação de templos. Não se podia erguer templos simplesmente porque a coisa tinha de acontecer na surdina e não porque cultuar em casas fosse “mais espiritual” ou “mais dentro do espírito de Cristo”. Simplesmente era proibido.

Pelo contrário, escavações arqueológicas já revelaram o mais antigo local de culto cristão do mundo (foto ao lado), em Rihab, a 40 Km de Amã, na Jordânia, construído entre os anos 33 e 70 da nossa era. O templo (atenção, eu disse templo) subterrâneo, de estrutura circular, possui vários escalões e assentos de pedra para os sacerdotes. A tese dos arqueólogos sustenta que o local acolheu os primeiros cristãos até à data em que os romanos abraçaram oficialmente a fé, no século IV. Pelo que se encontrou ali, tudo mostra que esse local cristão encontrado seja o mais antigo onde se celebrou Cristo com orações e liturgia.

Além disso, quem teve a oportunidade de visitar as catacumbas dos primeiros séculos, como a de San Calixto, em Roma, ou as de Nápoles (como eu tive) vê claramente que, em meio a todas as sepulturas, havia câmaras que serviam para a celebração religiosa e a realização de cultos. Ou seja, poderíamos chamar de mini-templos, uma vez que o fato de serem escavados sob a terra limitava seu tamanho. Tudo isso são provas de que a Igreja primitiva nunca teve nada contra a reunião e a celebração litúrgica de cerimônias cristãs em ambientes especificamente preparados para esse fim (templos, veja você), ao contrário do que o grupo de irmãos anti-templo vive repetindo. Isso é um fato histórico.

Mas esses templos que havia nos três primeiros séculos eram minoria, devido ao caráter proscrito da fé cristã naquele tempo. O padrão era celebrar os cultos em residências, para que as autoridades não descobrissem. Era mais fácil e mais discreto. Não tinha nada a ver com espiritualidade ou simplicidade. Chega então o Concílio de Niceia, em 313 a. D. e o imperador Constantino ordena o fim da perseguição aos cristãos e a liberdade de culto. Agora os cristãos não tinham mais que se esconder e podiam prestar adoração à luz do dia. Começou-se então a construir templos no formato de grandes edificações, que seguiam o modelo do que já existia e era bastante comum naquela época: as basílicas romanas.

As basílicas eram prédios dedicados à administração da cidade, fóruns civis e coisas parecidas. O formato era ótimo, pois eram espaços amplos e com boas acústicas. E agora, com os cristãos que antes se escondiam podendo assumir publicamente sua fé, junto aos muitos indivíduos que começaram a se converter (uns de fato e outros por puro interesse, ressalte-se), o número de cristãos visíveis tornou-se enorme. E, naturalmente, desejaram expressar-se em coletividade. Como eram muitas pessoas afluindo aos templos, tornou-se necessário erguer santuários grandes, com capacidade de abrigar muita gente.

E assim foi, ao longo dos séculos. Os homens ergueram as grandes catedrais, numa manifestação da grandeza de Deus (o pé direito alto, por exemplo, tem o objetivo de elevar os olhos do fiel para cima, para a transcendência, nada é à toa na simbologia de um templo cristão). Hoje, temos joias arquitetônicas espalhadas pelo mundo que são marcos da caminhada cristã ao longo dos séculos. Como muitos odeiam o passado, talvez isso lhes soe como uma ofensa. Mas quem sabe valorizar a trajetória da Igreja ao longo de seus 2 mil anos sabe que tem muito a aprender com o que aqueles que vieram antes de nós fizeram, seja errando ou acertando.

E, assim, os templos chegaram aos nossos dias. Depois da Reforma Protestante, um pouco mais destituídos de grandiosidade, mas igualmente eficientes. Quantos e quantos não foram os pecadores que receberam a mensagem da salvação por terem ido a cultos realizados em templos tradicionais ou mesmo, em nossos dias, em antigas salas de cinema ou em auditórios como o da Asociação Brasileira de Imprensa. Ou mesmo em igrejinhas de beira de estrada. Ou ainda – e temos de reconhecer isso, apesar de todas as restrições – em projetos megalômanos como a Catedral Mundial da Fé. Fato é que os templos continuam servindo de referência religiosa, de local de convergência, onde o pecador, o desesperado, o desiludido, o suicida vão em busca de alento e de transformação. Só por isso já valeria a pena termos essas referências, esses locais caraterísticos, que aqueles que os veem subentendem imediatamente que ali se reúne o povo de Deus.

Quando Jesus me converteu, eu estava numa situação de profunda tristeza. Senti-me tocado pela necessidade de buscar Deus. Era ignorante, não sabia onde. Não conhecia nenhum grupo alternativo que se reunisse em casas nem comunidades de fé menores ou células domésticas. Se eu olhasse em volta, só veria casas e prédios. Mas eu sabia muito bem onde ficava o templo da Assembleia de Deus na Ilha do Governador, bairro do Rio de Janeiro onde eu morava. E foi por ter esse referencial que me arrastei até lá, deprimido e em lágrimas, em busca do colo de Deus. E o encontrei, na forma de irmãos que me ouviram, oraram por mim, pregaram a Palavra, me aconselharam e me acolheram. Lembro-me, por exemplo, do querido irmão Tinoco, que me recebeu naquela manhã. E tudo isso porque ali havia um templo. Que Jesus não construiu. Sim, é verdade, Jesus não construiu o templo da Assembleia de Deus na Ilha do Governador. Mas ali e em outros milhares de templos cristãos espalhados pelo mundo milhares de pessoas sabem que podem se encontrar para buscar palavras de esperança, de renovação, de justificação. Palavras de vida eterna. E exercer plenamente a sua espiritualidade.

Quer saber? Pensando nisso percebo que quem construiu o templo daquela igrejinha onde fui resgatado da dor, do sofrimento, do pecado e da morte eterna foi Jesus sim. Pode não ter sido com as próprias mãos, mas acredito que Ele estava segurando na mão de cada pedreiro que a construiu. E mais: se Jesus nunca erigiu pesoalmente nenhum templo, não creio que os desaprove. Até porque, convenhamos, seria muito ruim nos reunirmos na chuva.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

* As opiniões expressas nos textos publicados são de exclusiva responsabilidade dos respectivos autores
e não refletem, necessariamente, a opinião do Gospel Prime.


Autor(a)

Mauricio Zágari

Mauricio Zágari

Membro da Igreja Cristã Nova Vida de Copacabana, RJ. Formado em Teologia pelo IBRMEC e pelo IBADIG. Diretor Editorial da editora Anno Domini. Vencedor do Prêmio Areté 2011 nas categorias “Autor Revelação” e “Melhor Livro de Ficção”

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