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Por gentileza, não leia este post!

Por Mauricio Zágari


por Mauricio Zágari

Não adiantou nada pedir, não é? Repare: eu fiz um pedido (não impus um mandamento), solicitei com educação (e não ameaçando com o fogo do inferno), não foi uma imposição feita dentro de uma igreja institucional maquiavélica por pastores tirânicos e ainda assim… cá está você, lendo este post. E por quê? Ninguém te obrigou, você certamente poderia estar fazendo muitas outras coisas neste momento, não vai render dinheiro ou conceder prestígio a você ler este artigo… enfim, não havia absolutamente nenhuma razão para você descumprir um pedido que fiz com tanta objetividade e educação: “Por gentileza, não leia este post!”. Então por que cargas d’água você o está lendo? Simples: pois ocorre dentro de você, de mim e de todas as pessoas uma guerra, cujo estopim é algo chamado “pecado”. É esse tal “pecado” que faz com que nós sempre queiramos fazer o que nos dá na telha e assumir as rédeas da nossa vida.

A resposta nua e crua é: você está lendo este post simplesmente porque você quis. E fim de papo.

Pecar é exatamente isso: uma tentativa de tomar das mãos de Deus a autoridade de decidir o que fazer. É dizer para Deus: “Quem manda aqui sou eu!”. Deus diz “não” e eu digo “sim”: pronto, pecado. Deus diz “azul” e eu digo “vermelho”: pronto, pecado. Deus diz “vida” e eu digo “morte”: pronto, pecado. Ou seja: pecar é dizer ao Criador que Ele tem mais é que ficar na dele, quietinho, e não se intrometer naquilo que estou a fim de fazer – e provavelmente farei. Quem manda aqui sou eu!

Estamos entranhados desse mal desde a mais tenra infância. Pode observar um bebê de seis meses de idade: você lhe diz “come” e ele dá um tapa na colher. E isso mesmo sabendo que descumprir normas é errado (Rm 3.20). Sabemos exatamente o que é certo e o que é errado só que, para o homem natural, tanto faz, desde que ele se dê bem.

Mas aí… ah, aí acontece uma coisa curiosa, estranha, miraculosa, emocionante: um certo dia, do nada, sem que esperemos, o Espírito Santo de Deus caminha até você, estende a mão, toca em seu coração, sopra em seu ouvido e diz… “Vem!”. Ah, que evento glorioso! Na hora em que Ele faz isso, as mãos e os pés de Jesus de Nazaré são cravados na cruz, o Messias grita de dor lancinante e cumpre-se Rm 4.25: “Ele foi entregue à morte por nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação”.

Sim! Pelo sofrimento agonizante do Cordeiro sem mancha somos justificados! Regenerados! Adotados! Salvos! Naquele momento glorioso nosso nome é escrito no livro da vida e recebemos as chaves da glória eterna! E, a partir daí, viveremos por todos os próximos anos libertos do pecado, caminhando pela graça, sem cometer mais atos malignos, sem destratar o próximo, sem desobedecer Deus, quase como anjinhos tocando suas liras em pureza de coração. Não falaremos mais mal de ninguém, não mentiremos mais, não odiaremos, não sentiremos inveja, não cobiçaremos a mulher ou o homem do próximo, pois estamos li-ber-tos-do-pe-ca-do! Aleluia!

Epa… peraí.

Calma.

Essa descrição não bate muito com o que eu vivo e com o que vejo ao meu redor entre os meus irmãos em Cristo. Agora fiquei confuso. Dezesseis anos atrás o Espírito Santo de Deus me disse “Mauricio, vem”. E eu fui. Racionalmente eu sei e confesso com meus lábios com toda certeza de coração: Jesus Cristo é o único Caminho, a Verdade e a Vida, não se vai ao Pai senão por Ele, que é meu Senhor e Salvador e, sem Ele, eu não teria nenhuma maneira de ir ao Céu: só pelo mérito de Jesus, por seu sacrifício na cruz, tenho acesso à vida eterna. Então, se isso tudo aconteceu… por que eu ainda minto, odeio, cobiço a mulher do próximo, sinto inveja, sou egoísta, dissimulado, materialista, tenho vontade de arrebentar algumas pessoas… por quê? Por que minha mente é povoada de pensamentos de ira, lascívia, rancor, desesperança, depressão, egocentrismo? Não era para eu ter sido liberto automaticamente de tudo isso?

Paulo diz em Rm 6.22: “Mas agora que vocês foram libertados do pecado e se tornaram escravos de Deus, o fruto que colhem leva à santidade, e o seu fim é a vida eterna”. Ora, fui libertado do pecado! Eu sou escravo de Deus! Colho frutos de santidade! Então por que ainda tenho tanta vontade de pecar? Por que todos os dias eu moooooooorro de vontade de fazer um monte de coisas erradas? Será então que não fui salvo? Será que me desviei? Será que o diabo é mais forte que eu?

Nada disso. Há uma boa explicação.

A verdade é que quando somos justificados isso não nos livra da carne podre de que somos formados. Nosso espírito passa por uma metamorfose, da morte para a vida, mas nossa carne permanece igualzinha ao que era antes. Logo, onde antes não havia conflito (visto que carne e espírito queriam ambos chafurdar na lama e passear pelos campos de lixo, saltitantes, de mãos dadas) agora há uma guerra. Meu espírito manifesta em si o fruto do Espírito Santo de Gálatas 5.22,23, mas a minha carne anseia por toda concupiscência descrita em Gálatas 5.19-21, toda sorte de podridão.

Ou seja: a conversão é o início de uma guerra em nós. De nós contra nós.

É por causa dessa guerra que você não respeitou meu pedido educado de não ler este post. Pois embora seu espírito diga “faça ao seu próximo o que gostaria que fizessem a você”, sua carne diz “que se dane, quem vai saber? Faze o que tu queres pois é tudo da lei”. E a guerra não para: você quer manter seu corpo santo mas a carne te faz acessar sites pornográficos na internet. Seu espírito lhe leva a perdoar a ofensa, mas a carne quer vingança. Seu espírito regenerado é generoso, mas sua carne é gananciosa. Seu espírito quer honrar seus superiores, mas sua carne quer falar mal dos teus chefes e dos teus pastores. E vivemos nesse cabo de guerra diariamente.

Você se identifica com essa realidade que estou descrevendo?

Se você respondeu sim, quero te dar uma noticia: parabéns, você faz parte do seleto grupo de pessoas que foram chamadas à salvação. Pois o homem que não foi chamado por Deus para estar entre os eleitos não enfrenta essa guerra. Ele faz o que é mau e não sofre nem um pouco com isso. Já os eleitos para a salvação fazem o que é mau mas se rasgam, se humilham, sofrem, se cobrem de cinza e pó, buscam no joelho o perdão dos pecados. Paulo mesmo confessou: “Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.” (Rm 7.19).

Nunca conheci um homem de Deus sequer que não pecasse. Nunca conheci uma mulher de Deus sequer que não desobedecesse o Senhor. Eu, você, todos nós vivemos um conflito que durará até nosso último suspiro. Enquanto estivermos presos ao corpo desta morte, que é o pecado, vamos pecar. A diferença entre nós e os que não receberam o chamado do Espírito é que nós nos importamos, pois somos convencidos diariamente do pecado, da justiça e do juízo – e isso não vem de nós, é dom de Deus. E por nos importarmos, buscamos o perdão junto ao advogado que é Cristo e continuamos no campo de batalha. Pecando. Caindo. Sendo levantados. Na guerra. Atirando, recebendo socos, desferindo golpes, sendo feridos. E assim vamos, pelo Caminho estreito, rumo à Porta estreita, para o dia em que a carne deixará de existir e aí haverá só espirito. E só então será assinado o armistício e a guerra será ganha.

Jesus, na verdade, já ganhou a guerra, quando disse “está consumado”. Mas nós continuamos na batalha, até sermos convocados para entrar na morte, que é o início da vida eterna. Até lá, meu amigo, minha amiga, esta desgraça chamada carne continuará fazendo com que você leia posts que alguém pediu que você não lesse. Ou a ter pensamentos sexuais com aquela pessoa que não é seu cônjuge. Ou a escorregar um dinheirinho ilicito para o seu bolso. Ou a dizer para seus pais que vai passar a noite na casa do amigo para sair na balada. Ou a odiar quem é odioso quendo deveria amar. Ou a fazer qualquer outra coisa que deixa triste o coração de Deus.

É uma guerra terrível. E nessa guerra, existe um traidor em nosso meio. Existe alguém que faz parte do nosso exército e que milita contra nós. Seu nome é Justificativa. Sempre que pecamos, chega Justificativa querendo dar um jeitinho. Argumentar. “Deus perdoa”, lembra ele. “Ah, vai, você merece”, sugere. “Ninguém vai saber mesmo”, pisca o olho. “Você levantou a mão na hora do apelo, já está salvo, um pecadinho não vai fazer mal”, sussurra. “Você vai todo domingo ao culto, não é só esse pecadinho que vai te prejudicar”, garante. E assim, Justificativa vai arranjando sempre uma boa desculpa que te leve a pecar. Você, então, começa a dar ouvidos a ele e a fazer o que o traidor diz. Mas, de repente…

De repente chega o Espírito de Deus e diz, com voz mansa e suave: “Se continuarmos a pecar deliberadamente depois que recebemos o conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados, mas tão-somente uma terrível expectativa de juízo e de fogo intenso que consumirá os inimigos de Deus” (Hb 10.26,27). E ao ouvir isso, tremo de cima a baixo. E me pergunto: da próxima vez que eu ler “Por gentileza, não leia este post!” qual será minha atitude?

Nessa hora de tentação, lembro que, no dia em que o Espírito me disse “Vem” ele me presenteou com armas que eu poderia usar nessa guerra. E, antes que eu leia qualquer post que me pediram para não ler, antes que adultere, que minta, que furte, que odeie, que cobice, que inveje, que mate, que defraude, que calunie, antes que cometa qualquer ato contra a santidade de Deus, vou procurar lançar mão das armas do Espírito: Oração. Jejum. Bons conselheiros. Bons livros. O cinto da verdade. A couraça da justiça. O evangelho da paz. O escudo da fé. O capacete da salvação. E a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus.

E com essas armas na mão, Jesus só te pede uma única e singela gentileza: Vá e não peques mais.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

* As opiniões expressas nos textos publicados são de exclusiva responsabilidade dos respectivos autores
e não refletem, necessariamente, a opinião do Gospel Prime.


Autor(a)

Mauricio Zágari

Mauricio Zágari

Membro da Igreja Cristã Nova Vida de Copacabana, RJ. Formado em Teologia pelo IBRMEC e pelo IBADIG. Diretor Editorial da editora Anno Domini. Vencedor do Prêmio Areté 2011 nas categorias “Autor Revelação” e “Melhor Livro de Ficção”

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