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Testemunho de um ex-leproso

Por Alan César Corrêa


Nós andávamos juntos. Estar com outra pessoa que passava pela mesma dificuldade que eu era uma forma que tinha encontrado para suportar minha luta.

Éramos ao todo dez, todos homens, todos leprosos.

Alguns em estado de decomposição. Lembro que um deles já havia perdido os dedos da mão direita por causa da lepra.

Vivíamos fora dos muros da cidade. De um lado, preservávamos nossos familiares queridos, mas de outro, morríamos de saudade e nos sentíamos marginalizados, esquecidos pela sociedade.

Quando tínhamos que entrar na cidade, corríamos um enorme risco de apedrejamento entrávamos anunciando aos berros: Imundo, eu sou imundo. Sempre que faltava-nos comida, um de nós tinha que entrar na cidade e fazer essa aventura. Nunca todos juntos, tinhamos uma escala, cada um tinha sua vez de entrar.

Da última vez, quem entrou lá foi o samaritano. Ele era o único samaritano entre nós, e sei que isso é estranho, mas na verdade, a doença que nos unia era mais forte do que as diferenças que nos separava. Neste dia em que entrou, ficamos muito preocupados, pois ele demorou muito para voltar para a casa que não tínhamos.

Ele tinha entrado na Galileia, como de costume, para buscar pão. Voltou sem o pão, mas com uma história de que havia encontrado o verdadeiro pão. Demoramos para entender a história e ficamos admirados de ele ter ficado tanto tempo lá na cidade, sem ser reconhecido, se arriscando para ouvir um homem chamado Jesus, que dizia ser o próprio pão que desceu do Céu.

O samaritano conseguiu nos convencer de que esse homem, chamado Jesus, podia nos curar. Como ele poderia curar o que não tinha cura não sabíamos, mas acreditamos e ficamos desde então o seguindo por trás dos muros. Era quase impossível ser visto por ele, até o dia em que ele entrou na no caminho entre a Samaria e Galileia.

Esse foi o dia! Gritamos por misericórdia e Jesus olhou para nós. Ele tinha uma forma diferente de olhar, pois olhava para todos e para cada um ao mesmo tempo. As únicas palavras que ouvimos eram para que fossemos nos apresentar aos sacerdotes.

Quando ele disse apenas essas palavras, foi incrível. Os dedos de meu amigo apareceram e quando olhei pra mim, vi como minha pele estava limpa. O samaritano tentou nos convencer de agradecer a Jesus que nos abençoou, mas estávamos tão felizes com a cura, com a benção, que escolhemos ir até o sacerdote. Só o samaritano voltou para agradecer.

Quando nosso grupo chegou ao sacerdote, ele com admiração nos disse que o homem que nos havia curado devia ser o messias. Concordamos com ele, pois devia ser mesmo.

Entramos juntos na Galileia. Pela primeira vez todos juntos e pela primeira vez sem gritar ‘imundo’. Queríamos encontrar Jesus, mas nunca mais o vimos novamente. Disseram que Ele tinha ido para Jerusalém tomar o poder de César e que depois teriam o matado. Mas também não vimos o samaritano, pois ele seguiu a Jesus até lá e ninguém mais sabe onde ele está.

Hoje, ao lembrar-me de como tudo ocorreu, me arrependo do que fiz. Deveria ter feito como o samaritano, ter seguido o abençoador e não ter me satisfeito com minha bênção.

* Este texto é uma ficção. Não deve ser tomado como “real”.

 

 

* As opiniões expressas nos textos publicados são de exclusiva responsabilidade dos respectivos autores
e não refletem, necessariamente, a opinião do Gospel Prime.


Autor(a)

Alan César Corrêa

Alan César Corrêa

Casado, pai do Nicholas, reside em São Bernardo do Campo -São Paulo. Bacharel em teologia, membro da Igreja Evangélica Batista Nacional, escreveu o livro: Dissidentes da Igreja pela Editora Reflexão. E-mail: [email protected]

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