A avareza dos que nada têm

Infelizmente a avareza não se restringe aos ricos, posso até dizer que em números absolutos a grande maioria dos avarentos está situada nas classes economicamente menos abastadas.


A avareza dos que nada têm

É muito comum associarmos a avareza apenas aos ricos porque é muito mais fácil perceber o apego à riqueza em quem a possui. É senso comum que a imagem mental que temos do avarento é de alguém similar ao Tio Patinhas ou a um grande banqueiro. Entretanto infelizmente a avareza não se restringe aos ricos, posso até dizer que em números absolutos a grande maioria dos avarentos está situada nas classes economicamente menos abastadas.

Uma vez que o significado mais comum de ‘avareza’ é ‘apego excessivo aos bens materiais‘ é compreensível que associemos o adjetivo de ‘avarento’ a quem se apega excessivamente às riquezas que já possui, mas o significado de avareza é mais abrangente e uma das formas mais comuns de avareza foi condenada por Jesus em um episódio descrito em Lucas capítulo 12:



E disse-lhe um da multidão: Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança. Mas ele lhe disse: Homem, quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós? E disse-lhes: Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui. Lucas 12:13-15

É bem comum esta passagem de Lucas 12 ser vista apenas como uma critica à tolice do homem que acumula riquezas e nelas deposita sua confiança, o que de fato é uma exortação que deve ser feita, mas quando lemos e estudamos esta passagem com mais atenção percebemos que na verdade a crítica de Jesus não foi só ao “rico tolo” mas principalmente aos que estavam buscando serem iguais aos ricos tolos, ou seja, foi um alerta àquele que apesar de não ser um possuidor de muitos bens acredita que na riqueza material encontrará a verdadeira riqueza.

Reparem que o que motivou a crítica de Jesus não foi o fato de que um irmão havia acumulado toda a herança, mas sim a cobiça do irmão que não tinha ficado com nada. Tomando o original grego do versículo 15 de Lucas capítulo 12 notamos que a palavra usada para avareza foi “pleonexias” que exprime um conceito que pode ser resumido como “desejo insaciável de ter posse do que por direito pertence aos outros“, ou seja, o conceito de avareza que aparece neste versículo não é o de quem ama as riquezas que possui mas de quem deseja insaciavelmente as riquezas que ainda não  possui.



Os principais ideólogos socialistas sempre viram o evangelho como um empecilho para a revolução proletária, o próprio Marx já dizia que “a religião é o ópio do povo”. De fato todos os que perceberam que o cristianismo era um freio para o motor revolucionário estavam certos porque um pobre quando encontra a Cristo adquire a maior riqueza que poderia ter e não tem mais a motivação para ‘subir de classe’ que a revolução tanto precisa. Para um proletário cristão todas as riquezas que este mundo poderia oferecer não passam de vaidade e não valem a energia revolucionária necessária para conquistá-las. Por causa desta verdade que o evangelho foi taxado como “um discurso das elites dominantes para se perpetuarem no poder“.

Com o tempo porém o discurso revolucionário infectou a cosmovisão de muitos cristãos e a pregação advertindo contra a cobiça dos pobres passou a ser vista como “uma artimanha contada pelos poderosos que não tinham o interesse que os pobres galgassem degraus na escala econômica”, e assim muitos cristãos se desviaram do seu propósito e passaram a tentar usar o evangelho como uma ferramenta de reforma social como se a entrada de pobres na classe média fosse o principal objetivo do cristianismo. Hoje muitas igrejas já se esvaziaram do seu conteúdo de salvação e passaram a ser meras latas vazias que ressoam propaganda partidária com uma embalagem cristã.



O mais irônico de tudo é que esta pregação socialista não atingiu as classes mais baixas como o esperado e hoje esta pregação é mais comum nas  congregações com membros da classe média. O pobre parece não ter paciência para esperar a revolução social para conseguir alguma riqueza e nem está disposto a tentar entender o conceito de “mais-valia absoluta e relativa”. Os pobres buscam um resultado mais imediato e encontraram na nefasta pregação da teologia da prosperidade uma promessa de caminho mais curto para a ascensão econômica. Muitos estão se tornando burgueses tão ferrenhos que tratam até  Deus como funcionário assalariado.

Apesar dos adeptos da teologia da prosperidade e dos socialistas serem inimigos ferrenhos, para mim as duas pregações são dois lados da mesma moeda, são dois filhos de Mamon que brigam para dominar os homens. As duas pregações mudam o foco do eterno para o passageiro deturpando o evangelho para fazer parecer que a melhora econômica é o foco principal do cristianismo. Como se o enriquecimento do pobre, ganhando sua própria riqueza ou recebendo de uma ditadura a riqueza que foi tomada de outros, fosse a salvação de sua alma. O que ambas as pregações dizem é “vamos todos ser iguais aos ricos tolos” só que cada uma diz ao seu modo.

A verdade é que se o pobre não desejar ardentemente ser rico boa parte da pregação das igrejas evangélicas brasileiras vai perder seus adeptos. Como fazer uma revolução proletária com pessoas que não se importam em serem assalariados? Como pregar a ensandecida teologia da prosperidade pra quem já está satisfeito com o que Deus tem lhe dado? A riqueza na vida do cristão vem (e se vier) como consequência indireta de sua vida com Deus no dia a dia: na sua honestidade, na sua dedicação em tudo que faz, na sua prudência que só é atingida com falta de ganância… A ascenção econômica nunca foi a consequência direta de uma vida cristã, muito pelo contrário, a Palavra de Deus nos adverte a não focarmos em enriquecer:

Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes. Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína.
1 Timóteo 6:8,9

Um bom antídoto para a ganância e avareza nos é dado por Cristo em Mateus capítulo 6:

Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam;
Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam.
Mateus 6:19,20

Ou seja, se pararmos de olhar a vida com a limitação temporal que nossa condição terrena nos coloca e passarmos a ponderar nossos desejos com uma perspectiva de eternidade poderemos perceber que nada que é material e perecível vale a pena tanto esforço. Se olharmos para Cristo e a perspectiva de nossa eternidade com Ele poderemos concluir que todo e qualquer tesouro que se limita à nossa vida na Terra é uma perda de tempo e esforço.

“Me tornei seu inimigo porque te disse a verdade?” Gálatas 4:16



Felipe Machado

Felipe Machado

Casado, engenheiro por formação e apologista cristão por vocação.


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