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A carência do desigrejado

Como pode algum homem dizer que sozinho se basta?


A carência do desigrejado

No século XVI Lutero deu um recado para sua comunidade de fé, a Igreja Católica Romana, dizendo: “tenho mais medo do meu coração do que do papa e seus cardeais”. A mensagem do reformador é clara, Lutero é autônomo, a fé e salvação são processos individuais e intransferíveis, não é necessário intermediários, somos todos sacerdotes: eu, minha Bíblia e Deus, basta – diria Lutero.

Infelizmente, como uma típica característica da pós-modernidade o movimento evangélico radicalizou essa mensagem ao ponto de criar crentes alto-independentes, desigrejados e suficientes; progredindo uma doença da carência da comunidade de fé, pensando que é possível viver sem Igreja e história. Um movimento que prioriza seu individual, carece do geral e como consequência cai em des-graça. 

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O foco do artigo não é Lutero, mas como este foi citado anteriormente é interessante pontuarmos algumas informações para um melhor desenrolar da reflexão. Lutero era monge agostiniano, estudou em uma universidade católica, o que sabia como indivíduo foi adquirido graças a algo mais abrangente (geral): a sua própria comunidade de fé, a Igreja Católica Romana. Lutero apresentou 95 teses pedindo respostas aos acadêmicos da Igreja justamente porque conhecia a Igreja Católica, porque aprendeu a desenvolver teses, a fazer teologia, interpretar a Bíblia, aprendeu as línguas. Foi todo esse geral apreendido pelo monge na Igreja que formou o individual de Lutero e possibilitou buscar mudanças posteriormente. Sem o geral, não existiria o individual.

Fique claro, Lutero está num dado momento histórico, questões políticas envolvem essa história, ele não deseja a divisão mas a reforma da Igreja. O reformador não quer destruir a comunidade, mas quer participar de uma Igreja com fé sadia. É um extremismo de nosso tempo pensar os termos “todos somos sacerdotes” ou “não é necessário intermediário entre mim e Deus” que Lutero apresentou como um individualismo evangélico. Pois, Lutero luta por uma comunidade verdadeira e sua doutrina visa uma Igreja bíblica, não como o evangecalismo de hoje que prega uma visão cristã individualista.

Para o apóstolo Paulo a frase “você sozinho é a Igreja” não faria sentido. Em sua pregação dizia o contrário “vós sois corpo de Cristo e individualmente seus membros” (1Co 12.27) e “somos um só corpo em Cristo, individualmente uns dos outros” (Rm 12.5). A Igreja é comunhão de fiéis para Paulo. Aqui, o individual necessita do geral. O indivíduo precisa da generalidade, da comunhão, pois solitário não é o corpo de Cristo.

É interessante notar que Inácio de Antioquia, no século II, fala de forma dura contra os individualistas cristãos: “aquele que não participa da reunião é orgulhoso e já está por si mesmo julgado, pois está escrito: Deus resiste aos orgulhosos. Tenhamos cuidado, portanto, para não resistirmos ao bispo, a fim de estarmos submetidos a Deus” (Inácio aos Efésios 5.2). Já no inicio do cristianismo os pais da Igreja orientam os crentes a viverem em união, inclusive com respeito ao ‘bispo/liderança’.

Alguém pode pensar que as palavras de Inácio são opostas ao ensino de Lutero, mas como já citamos, em outras palavras diríamos que Lutero não é contra o bispo em si, mas contra o bispo corrupto. Lutero não quer extinguir lideranças, ordem e a Igreja, mas quer uma reforma para que as lideranças e Igreja sejam realmente cristãs. Em Inácio, percebemos que o crente individualista é orgulhoso e que é convidado para comunhão.

O mundo evangélico de nossos tempos é tomado por um individualismo exacerbado. Chega-se o ponto de pessoas se denominarem cristãs e não partilharem de contato nenhum com Igrejas, taxados estes de desigrejados. Muitos outros dizem ter fé, mas uma fé distante da comunidade religiosa, pois acreditam que a fé em Deus está no seu coração e isso basta. No fundo, o problema de espírito destes é a carência do geral.

O des-igrejado (aqui estamos nos referindo a qualquer um que vive sua fé sem a religião, o autônomo da fé) é um crente que quer ser ele, mas somente ele, não tendo o sentido do geral. Ele pensa que pode escolher ao seu bel-prazer, que sabe o que é bom, que seu culto solitário é o melhor possível e que sua opinião é suficiente para reger a vida. Tudo isso é a carência do des-igrejado.

Este movimento esquece-se que qualquer opinião que tenham sobre Deus é fruto de uma comunhão geral anterior a eles. O discurso da fé é transmitido de geração em geração e graças a “outros” os desigrejados tiveram o privilégio de aprender do discurso de Deus. Este movimento não entende que tudo que sabem veio do exterior a eles, inclusive em algum momento de uma Igreja que gerou conhecimento do amor de Deus. O geral nos dá a noção de nosso individual. A Igreja forma nossa fé como pessoas, para que como pessoas (membros) possamos participar do corpo de Cristo.

Existe uma multidão de gente auto-suficientes que dão seus discursos sobre como é Deus, o que Deus quer e o ódio de Deus a religiosidade. Religiosidade esta determinada na própria cabeça dos individualistas. Pois, se antes não existisse Igrejas que reescreviam e guardavam as cartas e os evangelhos, não seria possível ler o Novo Testamento. Se antes não houvesse a preocupação do estudo das palavras sagradas, não teríamos a bíblia traduzida para nosso idioma. Se seus avós, pais, algum familiar ou conhecido não tivesse aprendido de Deus em uma Igreja em algum tempo, os des-igrejados não teriam se rendido a Cristo ou discursado e postado suas opiniões sobre a fé nas suas redes sociais.

Como pode algum homem dizer que sozinho se basta? Se compreende assim, é porque está carente do geral, carente do que é maior que ele e do que lhe poderia ajudar a coerência da realidade.

O mesmo vale para algumas novas igrejas evangélicas, que na verdade são des-igrejas, pois romperam com tudo o que a Igreja primitiva ensinou e com que a história demonstrou, tornaram-se independentes com relações próprias e novas. Na verdade, também estão carentes do sentido do geral. A verdade nua e crua é que não existe crente ou igreja sem história, comunhão e intermediários. É só por conta do Espírito que age em toda história da Igreja Cristã, pela comunhão dos crentes nessas comunidades e por suas ações de gerações em gerações que é possível um crente no secreto no seu quarto.

Até mesmo quando um cristão fecha a porta do seu quarto para orar não está num momento solitário com o Pai, está sim em secreto, mas acompanhado de toda a história da Igreja anterior que o possibilitou aprender do Cristo. Crente que despreza Igreja é des-crente, igreja que despreza história é des-igreja. Tudo isso é des-graça.



Victor dos Santos, mora em Santo André-SP. Blogueiro (Vida ao Inverso). Bacharel em Teologia, graduado em Logística pela Uniban e estudante da PUC SP.

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