A consciência cristã gera consciência negra

O preconceito é um fruto da Queda. Lute todo dia contra este mal


A consciência cristã gera consciência negra

Tenha equilibro sempre. Em tudo. Não caia jamais nos extremos, pois estes são nocivos, malignos e perversos. Nunca defenda um tipo de gente em detrimento de outro. Seja sempre alguém que olha para o lado com um olhar de quem é igual, não inferior muito menos superior. Isso é evangélico.

Hoje é um dia importante para o nosso país. É mais que um mero feriado no início da semana; trata-se de olharmos para os nossos irmãos que tanto sofrem. Talvez você pense em negros ricos e famosos como o Pelé, o Gilberto Gil ou o cantor Thiaguinho, porém devemos refletir sobre “Edsons”, “Gilbertos” e “Thiagos” que estão espalhados pelo território nacional e que nasceram e cresceram numa favela carioca ou numa periferia paulista, ou mesmo nas regiões mais pobres e menos desenvolvidas do centro oeste nacional ou do norte/nordeste.

Vamos refletir hoje sobre o quanto temos de igualdade social em nosso país. Na taxa de pobreza, os negros estão aparecendo preeminentemente? E na taxa de mortalidade? A riqueza está sendo distribuída de modo que o negro, o índio e o pardo sejam favorecidos tanto quanto os brancos o são?

E antes que você me julgue ser esquerdista, é bom deixar claro que não sou. Agora, fico hoje incomodado com o fato de que a gente não pode abordar mais nenhum assunto que já somos logo taxados “disso” ou “daquilo”, como se só pudéssemos ser Flamengo ou Fluminense. Não, amigo: sou brasileiro e tenho o mínimo de senso reflexivo para abordar a questão da negritude no dia da consciência negra.

Mais uma coisa: desprezemos o clichê “todo dia é dia de…”, porque isso é hipocrisia. Passamos a vida toda debatendo sobre três coisas: política, religião e futebol. O resto simplesmente não nos interessa. Então, vamos considerar o valor desta data e tirar proveito nisso para afirmarmos que o nosso país precisa avançar no desenvolvimento social tanto quanto no crescimento econômico. No entanto, é importante entendermos que ambos os avanços precisam ser frutos de uma nova cosmovisão centrada nos fundamentos do Reino de Deus, que trate do excluído como alguém digno de inclusão, e que não feche os olhos a toda esta indiferença, preconceito e ódio que tem separado irmãos de criação (no sentido teológico do termo) sem o menor sentido ou propósito.

E como nós, cristãos, contribuímos para que a indiferença seja vencida pelo amor? Apresento a vocês quatro caminhos:

Desideologização da vida

Vamos acabar com esta paranoia de, pra tudo, ter de rotular o outro. Vamos todos abordar os diversos assuntos considerando a Escritura como fundamentação real dos nossos argumentos, mas sem deixarmos de ler o mundo como ele se apresenta a nós; ou seja, temos de buscar respostas bíblicas para uma sociedade mergulhada na violência, na criminalidade, no desemprego e na falta de igualdade de oportunidades. E para que sejamos maduros o suficiente para não debatermos tudo apenas com o coração de torcedor de futebol, precisamos negar a ideologia e afirmar o evangelho, sobretudo nas relações. Você é do Reino; logo, precisa “desideologizar” tudo.

O Reino de Deus é supra-racial, mas o mundo é racista

Sejamos do Reino combatendo o racismo estrutural: e isso começa pelo serviço. Entenda que não dá para mudar tudo e que o mundo continua e continuará jazendo no maligno, mas é parte componente da responsabilidade cristã a luta contra o racismo e contra a desigualdade social. Se você é um empresário, valorize o profissional por sua capacidade e não por sua cor ou condição social. E se você é um assalariado, valorize seus colegas de trabalho pelos mesmos critérios. Temos uma raiz histórica profunda que nos impulsiona a acharmos que o lugar do negro é pegando peso e da negra fazendo faxina – o que não tem nada de errado nestas profissões em si. O ponto é que o nosso mundo já assistiu os EUA eleger um presidente negro e que o maior salário pago na história do boxe mundial foi para um lutador negro. E o Brasil precisa avançar historicamente e politicamente para que os negros consigam suas proeminências não apenas na música e no futebol, mas na arte, na cultura, na política e na ciência. Estou dizendo que os negros são capazes de atuar em qualquer área da sociedade e da igreja, e nós podemos fazer nossa parte evitando impedi-los de alguma forma.

O preconceito é um fruto da Queda. Lute todo dia contra este mal

Quando menos imaginamos, olhamos para o nosso próximo com desdém. Desde sempre foi assim. O que precisamos pensar agora é que isso contribui para que uma máquina imoral e corrupta chamada “Sistema” se retroalimente deste tipo de sentimento ou atitude. Deixemos as pessoas crerem na crença que querem crer. Deixemos as pessoas serem o que querem ser. Não vamos lutar contra pessoas e sim contra ideias e ideologias anticristãs. Mas precisamos garantir a liberdade do nosso próximo ser, crer e pensar naquilo que lhes é mister. Isso não impede a nossa missão; pelo contrário, é pelo respeito à diferença que derrubaremos o muro do próprio preconceito contra nós – o que abrirá espaço para a evangelização.

Cristo deve ser o centro da nossa espiritualidade e missão

Não façamos nada por ideais filosóficos ou políticos. Não lutemos pela causa do negro apenas porque isso tem a ver com aquilo que o meu político ou filósofo predileto acredita (aliás, abro um parêntese para dizer que se nós precisamos de Cortella, Karnal e Pondé para aprendermos a viver em sociedade, com todo o respeito, estamos lascados). Não sejamos reducionistas a tal ponto. Façamos isso por causa de Cristo e do seu evangelho. Façamos porque a cruz reconcilia homens com Deus e homens com homens. Façamos porque temos um chamado crístico intrínseco à fraternidade.

Que nossa espiritualidade ame a Cristo acima de tudo e sirva ao próximo sem olhar a cor e dando a voz àqueles que, por motivos e contextos diversos, devido à sua cor, não possuem voz na sociedade atual. Sejamos bons despenseiros dos desígnios de Deus para o mundo, anunciando as boas novas de Jesus Cristo e frutificando por meio de um caráter santificado e em santificação. Que Jesus seja o alvo supremo do nosso engajamento social e que os nossos irmãos sejam trazidos à mesa da comunhão divina, para que desfrutem da filiação única que Cristo conquistou para todos nós.



Maycson Rodrigues

Maycson Rodrigues

32 anos, é casado com Ana Talita, bacharelando em Teologia pela Unigranrio e colunista no site Gospel Prime. É pregador do evangelho, palestrante para família e casais, compositor, escritor, músico, trabalha no ministério de adolescentes da Igreja Batista Betânia e no ministério paraeclesiástico e missionário chamado Entre Jovens. Recentemente publicou um livro intitulado “Aos maridos: princípios do casamento para quem deseja ouvir”.


Deixe seu comentário!