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A cultura da auto-devoção religiosa brasileira e seus impactos

O crente de verdade tem em Deus a suficiência para a vida


A cultura da auto-devoção religiosa brasileira e seus impactos

Lendo a Bíblia é possível observar que as pessoas de fé sempre reagiram aos princípios e/ou às ações de Deus. Abraão recebeu um chamado para deixar sua terra para que Deus, por seu intermédio, pudesse suscitar uma grande nação através de seus descendentes.

Abrão reagiu à proposta de Deus mesmo em face da esterilidade de sua esposa. José se manteve fiel aos princípios de Deus (reagindo) mesmo vendo a possibilidade de que os sonhos (promessas) não se cumprirem em sua vida, uma vez que este estava longe de seus pais e irmãos, que  nos sonhos se curvaram diante dele. Sadraque, Mesaque e Abede-nego se deixaram ser lançado numa fornalha de fogo para que o nome de Deus fosse honrado por tal atitude e para não negarem sua fé, que era baseada não no livramento que Deus podia dar, mas no que Deus é.

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Hoje em dia, sobretudo no Brasil, o que se vê é uma “fé” que não é reativa ao que Deus é e tão pouco aos princípios por ele estabelecidos. As pessoas, antes, estão agindo para que Deus possa reagir às suas ações. Isso tem feito nascer uma geração de crentes que têm uma “fé” com prazo de validade pré-estabelecido. Esta “devoção” que não é uma devoção a Deus, mas a si mesmos, portando, uma auto-devoção, tem feito surgir certas culturas no seio  da igreja brasileira que foge completamente ao que é bíblico.

“Sete sextas-feiras da unção”, “campanha dos sete cultos para derrubar as muralhas de Jericó (dos problemas)”, “campanha das giradas de pedra na funda de Davi para derrubar os gigantes” e por aí vai. As pessoas imaginam que sendo ativa vão alcançar uma reação positiva da parte de Deus ao que pretendem que seja realizado.

A melhor “campanha” para se ver livre das dúvidas não consiste na promoção de sete, dez ou um milhão de cultos, mas em usar a inteligência que Deus nos deu e implementar um plano de corte de gastos para que possamos nos equilibrar economicamente falando. Uma boa “campanha” para resolver problemas no casamento é usar a capacidade de diálogo para chegar a um consenso com o cônjuge, exercer o perdão, respeitar as diferenças culturais e evoluir no modo de viver as relações interpessoais.

Os mais sensatos, quando veem que tais ações não geram reações da parte de Deus, se frustram e acabam se desviando (uma boa desviada, diga-se de passagem). Já os insensatos, continuam nas mesmas práticas e tornando-as cada vez mais intensas para que “deus” possa se comover e vencer o “diabo”.

De quem é a culpa? Primeiro de quem vai vão atrás dessas coisas sem consultar suas consistências. Segundo, dos “pastores”, “bispos” e “apóstolos” que lideram essa gente. Esse tipo de liderança vê na ingenuidade das pessoas a oportunidade de se locupletar do dinheiro e bens que elas depositam no “altar” como forma de “sacrifício” a “deus”.

O problema é que as pessoas que se frustram por causa dessas experiências malsucedidas, acabam criando uma resistência em relação a Igreja e se transformam em instrumento de difamação e dissuasão. Já os ignorantes, vão adoecendo mentalmente, pois ninguém consegue viver iludido para sempre sem contrair uma depressão ou qualquer outro tipo problema psicológico, sem contar nos problemas financeiros que vão se acumulando, pois, como no caso da mulher do fluxo de sangue, o problema continua, apesar do surrupio econômico a qual são submetidos. Oro a Deus que tais pessoas, assim como a mulher, se encontrem de fato com Jesus para serem curadas de verdade.

Uma das estratégias dos líderes do movimento religioso da auto-devoção é o uso de “testemunhos” em programas de rádio e/ou televisão. Eles fazem as tais campanhas para que as pessoas alcancem as “bênçãos” financeiras – sendo que para isso elas têm que doar certa quantia em dinheiro ou bens. De 10 mil pessoas, cinco ou seis testemunham que sua vida financeira melhorou depois do “sacrifício” (sabe-se lá se são testemunhos verdadeiros). Daí os que lá estão, ou mesmo os que estão de fora, veem que “deu certo” e acabam tendo sua avareza aguçada e, como se diz no popular, “parte pra cima com força”.

Quando os líderes não são canalhas ao ponto de captar sufrágios econômicos dos “fiéis”, se permitem a tais heresias meramente para se fartar sua vaidade por ter um grande número de pessoas em seus templos.

Porque esse movimento pode ser chamado de auto-devoção? É porque as pessoas que vão atrás dessas coisas o fazem por mera auto-realização. Isso pode ser percebido através das falas das pessoas que são seus testemunhos aos “bispos” e “pastores”. Elas não dão glórias a Jesus, nem a Deus, elas exaltam a denominação e bendizem a tal campanha da qual participaram. Esse tipo de movimento enche as igrejas de pecadores arrependidos e gratos pela Graça de Deus, mas de gente interessada em ter uma boa vida aqui na terra, somente.

Solução? As igrejas sérias, como aconselhou Paulo a seu discípulo Timóteo, devem pregar a Palavra, pois é na Palavra é que estão os princípios que Deus estabeleceu e é através dela (também) que passamos a conhecer a Deus e adquirimos a compreensão de que o fato de Deus ser quem ele é nós é suficiente independente de nossa condição financeira ou social, a exemplo de Jó quando foi a bancarrota e deu graças a Deus. O crente de verdade tem em Deus a suficiência para a vida.



Jornalista e acadêmico dos cursos de História e de Teologia.

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