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A falta de humanidade e a profecia de Isaías que já se cumpriu

O que devemos fazer com todo o nosso coração não é debater uma profecia bíblica, mas, sim, chorar com os que choram (Rm 12.15)


A falta de humanidade e a profecia de Isaías que já se cumpriu
A falta de humanidade e a profecia de Isaías que já se cumpriu

Começo refutando essa loucura teológica de que a guerra em território sírio é o cumprimento da profecia bíblica de Isaías 17. Apenas pare de dizer isso. Cale-se! Não tem relação alguma e quem está produzindo este tipo de conteúdo teológico nas redes com uma narrativa de quem “comemora um cumprimento de profecia bíblica” [e o pior que é fazê-lo ignorando a morte de mais de 150 crianças em uma semana], deve ser considerado, com todo respeito, um apedeuta bíblico, despreparado na produção de um conteúdo teológico minimamente sensato e uma pessoa completamente desumanizada, que banaliza a dor do próximo em troca de visibilidade e likes facebookianos.

A profecia de Isaías 17 já se cumpriu… e isso foi há mais de 2.700 anos!

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No entanto, me chama atenção algumas peculiaridades em torno desta temática, as quais gostaria de trata-las com o leitor. Antes, vamos apenas compreender um pouco do contexto do Livro de Isaías para tentarmos chegar numa compreensão melhor das palavras do profeta no capítulo 17?

Segundo um teólogo que respeito e aprendo muito sobre teologia bíblica, o Reverendo Frank Brito, no seu blog “Resistir e Construir”, historicamente, o Reino do Norte (Israel) havia feito uma aliança com a Síria para atacar o Reino do Sul (Judá).

Neste contexto, Frank afirma que Isaías profetizou sobre a destruição que viria sobre o Reino de Israel, “… dentro de sessenta e cinco anos Efraim será destruído, e deixará de ser povo” (Is 7.1-8). Ele continua:

“Até aqui, ele não faz qualquer menção de destruição contra a Síria. Ele fala de uma aliança iníqua entre o Reino de Israel e a Síria, mas ameaça somente o Reino de Israel. No capítulo seguinte, vemos uma ameaça mais clara contra os dois:

“E fui ter com a profetiza, e ela concebeu, e deu à luz um filho; e o SENHOR me disse: Põe-lhe o nome de Maer-Salal-Has-Baz. Porque antes que o menino saiba dizer meu pai, ou minha mãe, se levarão as riquezas de Damasco, e os despojos de Samaria, diante do rei da Assíria“. (Is 8.3-4)

Aqui, então, o profeta deixa claro que tanto o Reino de Israel (cuja capital era Samaria) quanto a Síria (cuja capital era Damasco) seriam atacados pela Assíria. Esse é o contexto para entender a profecia do capítulo 17:

“Peso de Damasco. Eis que Damasco será tirada, e já não será cidade, antes será um montão de ruínas. As cidades de Aroer serão abandonadas; hão de ser para os rebanhos que se deitarão sem que alguém os espante. E a fortaleza de Efraim cessará, como também o reino de Damasco e o restante da Síria; serão como a glória dos filhos de Israel, diz o SENHOR dos Exércitos”. (Is 17.1-3)

Claramente, o profeta não estava se referindo a uma destruição no futuro distante. O contexto era a aliança iníqua entre o Reino de Israel e a Síria. Deus estaria se vingando dos dois povos pela apostasia do Reino de Israel e pela aliança que eles fizeram contra o Reino de Judá. O Reino da Síria, cuja capital era Damasco, chegaria ao fim. E como o Isaías 8 deixa claro, a vingança aconteceria por meio da Assíria.” ¹

Ainda segundo Frank, em 2Rs 17.5-18, no oitavo século antes de Cristo, a Bíblia relata essa vingança de Deus contra o Reino do Norte (Israel), através da Assíria.

A prerrogativa divina na destruição de nações

Como pudemos ver de uma maneira bastante clara e didática, o texto de Isaías 17 faz referência a uma profecia que iria se cumprir décadas depois com a resposta militar assíria à coalizão sírio-israelita em 734-732 a.C. A Bíblia estabelece que Deus usaria os assírios para julgar Israel por ter se afastado do Senhor, afim de adorar e servir falsos deuses como a deusa Aserá, uma deusa cananéia da fertilidade, que recebia adoração por parte dos judeus do Reino do Norte com símbolos de fertilidade e bosques sagrados e postes (Is 27.9; Êx 34.13; Dt 16.21; Jz 2.13). ²

O que pretendemos afirmar é que Deus possui a prerrogativa exclusiva de julgar as nações. Ele pode destruir qualquer povo, em qualquer época, sempre que quiser e o homem não pode fazer nada para impedi-lo (Is 43.13).

A histórica bíblica veterotestamentária prova-nos que Deus atuou direta e indiretamente na destruição de nações. Desde o dilúvio, passando por Sodoma e Gomorra e chegando ao Êxodo e nas guerras nos dias de Josué e dos Juízes, vemos Deus em ação no julgamento de nações e estabelecendo sua soberania sobre toda a terra. Há graça em toda a história do mundo, porém, tal história é também compreendida no sentido da justiça de Deus sendo manifesta contra toda a impiedade do homem (Rm 1.18).

Todavia, o fato de Deus ter destruído nações e poder fazê-lo hoje não nos dá pressuposto algum para concluirmos que a catástrofe na Síria tem a ver com a sua mão julgando aquela nação – pelo menos não por inferência intelectual prévia.

O que quero dizer é que tanto pode ser como não pode ser que Deus esteja agindo no juízo deste povo; contudo, temos de atentar para o fato de que não nos compete o importar-se com isso nem mesmo afirmarmos coisas que, na verdade, possuem ligação mais com o nosso desejo vingativo e ressentido do que com a manifestação santa da ira e da justiça do Deus Todo-Poderoso, que reina absoluto sobre toda a criação.

Não podemos determinar o que Deus faz ou deixa de fazer na história humana quando isso não está explicitamente revelado na Escritura. E, no que tange a Isaías 17, o que Deus fez com relação à capital da Síria (Damasco) já aconteceu há milênios passados.

Um desafio para o cristão que assiste essas catástrofes

Com isso, quero concluir trazendo três desafios para você leitor que é cristão e que tem acompanhado os últimos noticiários:

1 – Ore pelo povo da Síria, em especial pelas crianças

O que devemos fazer com todo o nosso coração não é debater uma profecia bíblica, mas, sim, chorar com os que choram (Rm 12.15). Não nos cabe, em hipótese alguma, cogitar para nada além da necessidade que temos, enquanto Igreja, de suportar em oração cada ONG ou Instituição Humanitária (seja ela cristã ou não) que se encontra neste exato momento nesta localidade, sofrendo os riscos dos ataques com bombas, mísseis e tiros, tentando resgatar o máximo de pessoas que se encontram vulneráveis neste fogo cruzado sem sentido (ou por um sentido estritamente político e ligado ao coração perverso do homem que é ávido por poder).

Deus exige do seu povo que se compadeça com a dor do fraco e do aflito, e nós não podemos gastar o precioso e curto tempo que temos para vomitar nas redes teorias da conspiração gospel que tentam justificar a destruição de pessoas humanas criadas por nosso Deus que, ainda nisso (inclusive), se revela Todo-Bondoso. Deus tem, na sua soberana bondade, livrado muitas crianças a despeito de tanta assolação provocada pelo homem iníquo que em breve receberá a justa recompensa de suas maldades.

Nosso Pai anseia por uma geração de cristãos que saibam amar o próximo como Ele mesmo nos amou em Cristo Jesus. Não é possível que alguém esteja hoje se preocupando mais com uma discussão em rede social do que com a oração e o choro angustiante por estas famílias. Isto é inaceitável.

2 – Faça doações financeiras

Outra forma não menos importante de ajudarmos nesta questão tão delicada é enviando doações financeiras para a ajuda no resgate e amparo das vítimas. Instituições sérias como a Missão Portas Abertas (https://www.portasabertas.org.br/), Médicos Sem Fronteiras (https://www.msf.org.br/videos/ghouta-oriental-siria-dentro-de-uma-maternidade-destruida) ou o Movimento Internacional da Cruz Vermelha (http://www.cruzvermelhasp.org.br/media/doacoes.php) são opções de meios práticos para que você se envolva com esta problemática de um modo que vá além das orações. Com isso, não estamos minimizando a necessidade de todos nós orarmos pelos sírios (pois a oração é mais importante ainda que a doação, a meu ver); estamos sim lhe apresentando caminhos para que o sufixo do verbo “orar” – ação –  seja manifesto em sua vida, para a glória de Deus e para o alívio de muitas crianças sírias.

3 – Não crie nem se envolva em polêmicas desnecessárias na Internet

Deus não te chamou para a insensatez. Umas das marcas de um cristão maduro é que ele sabe falar somente quando é necessário – quando pedem sua opinião. Muitas vezes, o silêncio ou a frase “não sei” se mostra mais maduro e útil que certas vociferações e contra-ataques verbais no Facebook ou no Twiter. Os dias são maus, o sofrimento humano só aumenta, e nós precisamos ser respostas do céu em tempos calamitosos. Precisamos oferecer amor, compaixão, fé e esperança, em vez de “teologizações” impróprias e inadequadas ao sentido prático da vida.

A pergunta não deve ser “como vou argumentar filosófica ou teologicamente sobre este assunto?” e sim “como posso servir e ser um instrumento na minimização da dor do que sofre?”. Não quero com isso reduzir o valor da Filosofia ou da Teologia na experiência dos homens, mas apenas pontuar que cada coisa deve estar no seu devido lugar.

Em tempos de choro e angústia, não nos cabe falar de pessoas – a não ser que seja sobre pessoas, com Deus. Em tempos de sofrimento, o silêncio fala melhor. Em tempos de tanta violência, é mais urgente ações de empatia e compaixão de nossa parte. E em tempos de produções inúteis na internet, vale muito checar a fonte e o contexto de tudo antes de sairmos compartilhando qualquer coisa por aí.

Referências Bibliográficas

¹ (Fonte: https://resistireconstruir.wordpress.com/2013/09/14/a-destruicao-de-damasco-em-isaias-17/ – acesso em 06/03/2018);

² Bíblia de Estudo de Genebra.



Maycson Rodrigues

Maycson Rodrigues

32 anos, é casado com Ana Talita, bacharelando em Teologia pela Unigranrio e colunista no site Gospel Prime. É pregador do evangelho, palestrante para família e casais, compositor, escritor, músico, trabalha no ministério de adolescentes da Igreja Batista Betânia e no ministério paraeclesiástico e missionário chamado Entre Jovens. Recentemente publicou um livro intitulado “Aos maridos: princípios do casamento para quem deseja ouvir”.


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