A memória que glorifica a Deus

Aprendendo a memorizar os grandes feitos do Senhor


A memória que glorifica a Deus

“Disto me recordarei na minha mente; por isso esperarei.” (Lamentações 3:21)

A fé cristã sempre foi reconhecida como uma fé de memória. Deus constantemente nos ordena a lembrarmos de seus feitos, seja para glorificá-Lo mais intensamente seja para, quando enfrentando as desgraças da vida, recordarmos de seus grandes feitos realizados no passado, fazendo com que nosso coração se acalme e nossa alma descanse. A constante recordação da Obra Divina não é uma tarefa fácil para o cristão, tendo em vista a nossa predisposição ao esquecimento. Nós, como pecadores, também temos nossa memória afetada pelo pecado.

A força da tentação e a opressão das provações muitas vezes nos cegam, fazendo com que aquilo que Deus já fez por nós seja completamente esquecido. Este texto objetiva desafiar-nos a constantemente lembrarmos daquilo que o Todo Poderoso já fez por nós, para que assim venhamos a fugir do pecaminoso esquecimento que assola nossa mente e todos os dias nos faz negar a Onipotência Divina.


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O esquecimento do povo de Israel

“Mas vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão, e disse-lhe: levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós; porque quanto a este Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe sucedeu.” (Êxodo 32:1)

Moisés foi um instrumento poderoso nas mãos de Deus para operar maravilhas no meio do povo de Israel. Ele foi escolhido pelo Senhor para salvar Seu povo dos Egípcios. Como é de nosso conhecimento, foram diversos os milagres operados por Deus até o momento em que o povo se corrompeu. Deus transformou água em sangue (Êxodo 14:17-25); enviou uma praga de rãs (Êxodo 7:26; 8:12-15), de mosquito (Êxodo 8:12-15), e de moscas (Êxodo 8:16-28); determinou pestes em animais (Êxodo 9:1-7), e úlceras (Êxodo 9:8-12). O Senhor também enviou uma poderosa chuva de pedras (Êxodo 9:13-35), uma praga de gafanhotos (Êxodo 10:1-20), trevas (Êxodo 10:21-29) e, por fim, a morte de todos os primogênitos do Egito (Êxodo 11). Quanto a este último, o milagre foi ainda mais claro, pois o Senhor matou todos os primogênitos, exceto aqueles que estavam com o sangue do Cordeiro marcado na verga das portas (Êxodo 11:7), provando de forma definitiva o agir sobrenatural de Deus no Egito.

Ao tirar o povo do Egito, o Senhor os fez peregrinar pelo deserto sob uma coluna de fogo que os aquecia à noite, e sob uma nuvem para que, à tarde, o sol não os molestasse tanto (Êxodo 13:21). Mesmo diante de tamanha maravilha, capaz de alimentar a fé de um indivíduo por toda a vida, ao verem que Faraó havia decidido persegui-los, o povo interpelou a Moisés dizendo: “Não havia sepulcros no Egito, para nos tirar de lá, para que morramos neste deserto? Por que nos fizeste isto, fazendo-nos sair do Egito? Não é esta a palavra que te falamos no Egito, dizendo: Deixa-nos, que sirvamos os egípcios? Pois que melhor nos fora servir aos egípcios, do que morrermos no deserto.” (Êxodo 14:11-12). Esse tipo de perversidade é muito comum na peregrinação de Israel.

O povo constantemente se esquecia dos benefícios dados pelo Senhor, ainda que claros e extraordinários, quando provações o oprimia. Certamente não estamos em uma posição superior aos filhos de Israel, pois sempre procedemos da mesma maneira. O fato é que o Senhor, demonstrando sua Graça, Misericórdia e Poder, reverte uma situação que, humanamente falando, é impossível. O Senhor abriu o mar vermelho, destruiu o império de Faraó e o povo passou a salvo (Êxodo 14:21-31). O Senhor ainda operou mais milagres no meio do povo, como a transformação da água amarga em potável (Êxodo 15:25), a água que brotou da rocha (Êxodo 17:6) e a chuva de pão do céu (Êxodo 16:11-15). Sobre este último, é importante lembrar que ocorreu justamente porque Israel havia murmurado de novo (Êxodo 15:3).

Diante de tantos sinais e maravilhas, o povo de Israel não foi capaz de esperar Moisés. Movidos de uma impaciência completamente irracional, pediram a Arão que criasse um Bezerro de Ouro, assim quebrando o Segundo Mandamento. Pensem bem: é racional e lógico, diante de tantos sinais claros e poderosos, que comprovam o amor, o zelo e o poder de Deus, simplesmente esquecer-se de tudo e conscientemente opor-se ao Altíssimo com tanta ousadia e perversidade? Onde estava o temor do povo? Será que eles sofreram uma espécie de amnésia coletiva, ou simplesmente a multidão era tola o suficiente para voluntariamente apagar Deus de suas memórias?

O esquecimento de Elias

“E ACABE fez saber a Jezabel tudo quanto Elias havia feito, e como totalmente matara todos os profetas à espada. Então Jezabel mandou um mensageiro a Elias, a dizer-lhe: Assim me façam os deuses, e outro tanto, se de certo amanhã a estas horas não puser a tua vida como a de um deles. O que vendo ele, se levantou e, para escapar com vida, se foi, e chegando a Berseba, que é de Judá, deixou ali o seu servo. Ele, porém, foi ao deserto, caminho de um dia, e foi sentar-se debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte, e disse: Já basta, ó SENHOR; toma agora a minha vida, pois não sou melhor do que meus pais. E deitou-se, e dormiu debaixo do zimbro; e eis que então um anjo o tocou, e lhe disse: Levanta-te, come. E olhou, e eis que à sua cabeceira estava um pão cozido sobre as brasas, e uma botija de água; e comeu, e bebeu, e tornou a deitar-se.E o anjo do SENHOR tornou segunda vez, e o tocou, e disse: Levanta-te e come, porque te será muito longo o caminho.” (I Reis 19:1-7)

A história de Elias, assim como a do povo de Israel, também é muito conhecida. No contexto da passagem acima, Elias havia desafiado quatrocentos e cinquenta profetas de Baal (I Reis 18:22-25). O desafio era simples: Elias e os profetas deveriam tomar dois bezerros e dividi-los em pedaços. Após isso, deveriam jogar os pedaços na lenha sem fogo e orar pedindo para que a divindade que recebesse a oração queimasse os bezerros. Elias iria orar para o Deus verdadeiro e os outros quatrocentos e cinquenta homens, a Baal. Aquele que respondesse à oração e queimasse os bezerros seria o Deus verdadeiro. Como sabemos, o Deus de Elias não apenas queimou os bezerros, mas também a lenha, as pedras e o pó (I Reis 18:38). Logo em seguida, o povo lançou mão dos profetas de Baal e matou a todos (I Reis 18:40). Tomando conhecimento de ocorrido, Jezabel ameaçou Elias de morte e jurou destruí-lo. E qual foi a reação do profeta? Coragem? Fé em Deus por ter acabado de presenciar um milagre? Não. Elias temeu uma mulher mesmo acabando de presenciar um milagre extraordinário diante de seus olhos. Ele viu sua oração sendo respondida de modo visível. Elias presenciou o fogo caindo do céu e devorando os bezerros, a lenha e o pó.

O caso de Elias é ainda mais curioso, pois a Bíblia deixa claro que somente as orações com fé são respondidas (Tiago 1:6). Ou seja, Elias teve fé no momento que orou a Deus. Ele realmente creu que o Senhor iria fazer o que ele estava pedindo. Não obstante, onde foi parar essa fé de Elias? Essa fé de Elias me parece semelhante com a semente semeada em pedregais, que chega a manifestar certa confiança aqui e acolá na Palavra de Deus, mas chegando a perseguição e a angústia logo declina (Mateus 13:20). Com toda certeza, a fé de Elias foi poderosa no momento da oração; porém, o medo irracional que sentiu demonstra que ele era um homem muito temeroso. Se por um lado vemos um Elias corajoso, do outro também vemos um Elias medroso e covarde. Elias, em seu momento de medo, esqueceu-se daquilo que o Senhor tinha acabado de operar. Ele não trouxe à memória aquilo que lhe dava esperança, mas apavorou-se com a ameaça de Jezabel e se escondeu em uma caverna.

O esquecimento dos judeus

“Disseram-lhe, pois: Que sinal, pois, fazes tu, para que o vejamos, e creiamos em ti? Que Operas tu?” (João 6:30)

Jesus tinha acabado de multiplicar cinco pães e dois peixinhos para uma multidão de mais de cinco mil pessoas (João 6:11). Que perversidade é essa? Como estes homens tiveram a coragem de perguntar que sinal fazia Jesus? Que espécie de incredulidade é essa? Como se esqueceram tão rapidamente daquilo que tinham visto e provado? Eles viram o Senhor fazer um milagre diante de seus olhos, como, pois, prevaricaram dessa forma contra o Senhor? Foram os mesmos judeus que viram a transformação de água em vinho (João 2), a ressurreição de Lázaro (João 11), a cura de leprosos, cegos e endemoniados. Eles viram Cristo fazer tudo isso e o pregaram numa cruz, como se Ele fosse um ladrão. Ignoraram e se esqueceram dos sinais de Cristo. Que diríamos nós de Judas? Ele viu incontáveis milagres e mesmo assim, tomado de um desejo avassalador por dinheiro, vendeu o Deus encarnado por trinta moedas pratas.

O povo judeu parecia ter [e tem] uma predisposição muito grande ao esquecimento daquilo que Deus fez por eles. Talvez seja esta a razão pela qual Davi ressalta a importância de contar as maravilhas do Senhor (Salmo 9:1). Certamente essa incredulidade também é partilhada por nós, e é por isso que, assim como Davi, também devemos contar as obras de Deus. O fato é que somos constantemente oprimidos e tentados a nos esquecermos daquilo que Cristo fez por nós: como podemos então manter uma mente sã e que constantemente recorde e glorifique o Todo Poderoso?

Deus institui meios para nos lembrarmos dEle

“E este dia vos será por memória, e celebrá-lo-eis por festa ao Senhor; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo.” (Êxodo 12:14)

“Porque eu recebi do SENHOR o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim.” (I Coríntios 11:24-25)

O Senhor, sabendo da memória pecaminosa que temos, instituiu meios de graça para que sempre lembremos-nos do Divino favor. No texto de Êxodo lemos sobre a instituição da Páscoa, onde o Senhor ordenou tal celebração objetivando que o povo sempre se lembrasse de que Ele os havia retirado da escravidão dos egípcios. Da mesma maneira, o Senhor Jesus instituiu a Ceia para lembrarmos-nos sempre de sua morte em nosso lugar, que nos redime, justifica, salva e, principalmente, nos livra do poder do pecado. Por isso é que no início desse texto afirmei que a Fé Cristã é uma fé de memória, pois somos constantemente alertados a nos lembrar, seja por meio de ritos ordenados ou não, das obras e benefícios que Deus nos tem concedido durante toda a história. O cristão deve lembrar-se de que ele não faz parte de uma fé individual, mas de um povo com história e experiência ao lado de Deus. Olhar para a nossa história e ver o agir de Deus é uma forma de buscarmos corrigir nossos erros que herdamos de nossos pais e de nos lembrarmos de viver no caminho dos santos.

Além da Ceia, o Senhor instituiu a própria educação familiar como meio de perpetuar Seu nome na terra e de não nos esquecermos de sua Poderosa mão protetora (Deuteronômio 6). Além disso, é dito que a família, quando recorda a Graça de Deus aos filhos, ensinado-os a andar conforme os estatutos do Senhor, faz com que eles não se desviem do Senhor (Provérbios 22:6). O Senhor, por ser Bondoso e Misericordioso, também nos deixou Sua Palavra Infalível, por meio da qual somos exortados a abri-la com o intuito de nos lembrarmos de tudo aquilo que o Senhor fez por nós. Nela somos lembrados do modo extraordinário que o Senhor nos amou antes mesmo de criar-nos (Romanos 8:29); da forma que nos criou (Gênesis 1:26); de como fomos ingratos e pecamos, manchando assim toda a nossa posteridade (Gênesis 3:6-7); somos também lembrados de como o Senhor se compadeceu de nós e prometeu, já após a queda, a redenção e salvação em Cristo Jesus (Gênesis 3:15); também somos lembrados da garantia desta salvação (Efésios 1:12-13) e do quanto seremos alegres na presença do cordeiro todos os dias de nossas vidas (João 16:21-22). Enfim, todos os benefícios, providências e obras de Deus a nosso favor são encontrados nas Escrituras com o objetivo de nos recordar todos os dias de nossas vidas que Deus nos ama e sempre estará ao nosso lado, pois foi exatamente isso que Ele nos prometeu por meio de Abraão: ser eternamente o nosso Deus e Deus de nossos filhos. “E estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência depois de ti em suas gerações, por aliança perpétua, para te ser a ti por Deus, e à tua descendência depois de ti.” (Gênesis 17:7)

Eu não sei, você que está lendo este texto, pelo que você está passando, mas eu o escrevi com o objetivo de exortá-lo a lembrar-se de tudo o que o Senhor tem feito por você. Ele tem sido bondoso em sua vida antes mesmo de você ser concebido. Ele cuida todos os dias da sua saúde, mantém-no de pé, faz o seu coração bater, alimenta-o, alegra-o, coloca pessoas que o amam ao seu redor e o enche de vida. Entretanto, não se esqueça: quando a provação vier, como rolo compressor pronto para oprimi-lo, lembre-se de que o Senhor é a sua força e alegria. Traga à memória o Amor e a Graça Divina. Permita-se recordar apenas aquilo que lhe dará esperança. Lembre-se de Cristo e de Seu sacrifício. Jamais proceda como os filhos de Israel; antes, movido pelo mesmo sentimento de Jeremias, recorde-se do Favor de Deus e espere a resposta dAquele que se lembra de você.



Jonas Justiniano

Jonas Justiniano

Membro da Primeira Igreja Batista de Areia Branca, profundo admirador da Fé Reformada, colunista do blog e colaborador da Fan Page Apologética Reformada.


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