Lição 7 – A salvação pela graça

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 7 do trimestre sobre “A obra da salvação”


A salvação pela graça

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INTRODUÇÃO

Você já ouviu falar do inglês John Newton? Talvez não. Mas já ouviu falar na música intitulada Amazing Grace (Maravilhosa Graça)? Provavelmente sim. Provavelmente já a ouviu, ainda que não soubesse desse título. Um verdadeiro clássico da música evangélica, da autoria de John Newton, ex-traficante de escravos no século 18. Antes de experimentar a graça salvadora de Deus, John Newton não tinha o menor receio de xingar e proferir palavrões quando se irava, de blasfemar contra o Deus do céu, de zombar da Bíblia, de ridicularizar a consagração a Deus, de se envolver em atos depravados, nem o mínimo escrúpulo de comprar e vender seres humanos como se fossem objetos ou mercadorias.

Entretanto, John Newton mudou completamente após a sua conversão, voltando à antiga fé que sua mãe lhe ensinara quando ele era um garoto com menos de sete anos de idade. A conversão de Newton foi dramática, e seu medo do inferno foi substituído pelo amor a Deus, o Deus de inefável graça! Mais tarde, ele se tornou pastor e exerceu o ministério pastoral por 23 anos, sempre salientando em seus sermões o tema da graça de Deus. Ele compôs e publicou centenas de hinos, inclusive o famoso hino interpretado na voz de muitas celebridades da música secular e de cantores cristãos em todo mundo: a música Amazing Grace, que descreve a própria trajetória de redenção do compositor, através da graça inefável do Senhor. Ouça esta canção quando puder.

É sobre esta maravilhosa graça que estaremos a falar nesta presente Lição da Escola Dominical. E com este estudo fica a minha oração para que você seja totalmente envolvido por esta graça maravilhosa proveniente do trono de Deus e encarnada para sempre na pessoa bendita de Jesus Cristo, nosso Salvador!

I. LEI E GRAÇA

  • Graça sobre graça!

O apóstolo João, em seu Evangelho, declara que “a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1.17). Esta declaração se mal interpretada pode levar a equivocada conclusão costumeiramente ouvida nos arraiais evangélicos: no Antigo Testamento, Deus é justiça; no Novo Testamento, Deus é graça. Um Deus que numa aliança é vingativo, noutra aliança é amoroso.

Esta bipolaridade não existe em Deus, mas apenas em nossa confusão teológica. Justiça e graça de Deus podem ser vistas andando juntamente desde o Éden até a consumação de todas as coisas. Não foram os sacrifícios expiatórios instituídos no Antigo Testamento expressões claras da graça de Deus, que oferecia aos judeus a possibilidade de transferirem sua culpa para um animal que viria a ser morto em lugar do transgressor? E os muitos milagres, como a libertação da escravidão do Egito e as vitórias incontáveis que Deus concedeu sobre muitos reinos inimigos de Israel, não são expressões legítimas de sua graça? E quanto ao Novo Testamento, não é a própria morte de Cristo a mais sublime declaração da vingança de Deus contra o pecado e a afirmação de sua justiça eterna? Se não houvesse justiça no Novo Testamento, ou se ela fosse algo amenizado na nova aliança, teria Cristo padecido tão vergonhosa e horrenda morte pelos nossos pecados? E quanto a Ananias e Safira que foram fulminados por mentirem ao Espírito Santo diante dos apóstolos (At 5.1-10)? E quanto a Herodes que morreu devorado em seu interior por vermes (At 12.21-22)? E quanto a muitos milagres operados pelos apóstolos, impondo castigo aos adversários do Evangelho, como Elimas, que ficou cego após imprecação do apóstolo Paulo (At 13.8-11)? E os crentes de corinto que comiam e bebiam indignamente a ceia do Senhor, entre os quais muitos já haviam ficado fracos e doentes, além de outros que haviam morrido (1Co 11.30)? E quanto a Jesus dizendo sobre uma tal Jezabel na Igreja de Tiatira na Ásia Menor: “Eis que a porei numa cama, e sobre os que adulteram com ela virá grande tribulação, se não se arrependerem das suas obras. E ferirei de morte a seus filhos…” (Ap 2.22,23)? Certa vez me perguntaram: Jesus mata? Respondi enfaticamente que SIM, e citei essa porção do Apocalipse. Olhos esbugalhados e uma expressão facial de surpresa apareceram diante de mim. Erramos quando tratamos com exacerbado romantismo o Novo Testamento!

Ademais, é preciso deixar claro como a luz do sol: nunca houve dois modos de salvação na Bíblia, sendo um pela observância da Lei na antiga aliança, e outro pela fé em Cristo na nova aliança. Na verdade, sempre houve um único modo de salvação, em todos os tempos: pela graça de Deus, por meio da fé! Aliás, lembremo-nos que existiram muitas gerações antes da Lei de Moisés, dentre as quais incontáveis almas foram salvas (José, Jacó, Isaque, Abraão, Noé, Enoque…). Todos quantos foram salvos em todo tempo, o foram pela graça de Deus, os que puderam exercitar conscientemente a fé, foram chamados e capacitados a fazê-lo; outros que não puderam (por exemplo, as crianças), foram redimidos pelo sangue eficaz de Jesus Cristo (cujo alcance é não só perspectivo, mas retrospectivo, alcançando todos quantos morreram sob a aliança com Deus nos tempos passados). Mas todos, absolutamente todos os salvos em toda história da humanidade, só o foram por causa da maravilhosa graça, dom de Deus do qual nenhum de nós éramos merecedores.

Mas e então, o que significa as palavras de João sobre a Lei ter vindo por Moisés e a graça e a verdade terem vindo por Cristo?

Curiosamente, o texto de João 1.17, que deve ser interpretado juntamente com o versículo 16, aponta na direção favorável à manifestação da graça divina mesmo antes de Cristo, embora encontre nele sua expressão plena, absoluta e final! Aliás, toda graça manifesta na Bíblia sagrada é por causa de Cristo, sem o qual não haveria em tempo algum provisão pelo pecador diante de Deus. Tão verdadeiro é esse entendimento, que o autor da Carta aos Hebreus, referindo-se à Moisés diz de modo bastante vívido: “Por amor de Cristo, considerou a desonra riqueza maior do que os tesouros do Egito, porque contemplava a sua recompensa” (Hb 11.26).

Voltando ao texto de João, veja o que diz o versículo 16: “Todos recebemos da sua plenitude, graça sobre graça” (Jo 1.16, NVI). E logo em seguida, o versículo 17 começa com uma conjunção explicativa (explicando assim a declaração anterior): “Pois a Lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por intermédio de Jesus Cristo” (Jo 1.17). Noutras palavras, graça (manifesta plenamente no Cristo encarnado) é colocada sobre graça (manifesta parcialmente na Lei de Moisés). Ninguém há de negar que houvesse verdade nos dias de Moisés ou na Lei, mas todos concordamos que em Cristo a verdade materializa-se, “se fez carne e habitou entre nós”, como diria João; de tal modo, que Jesus pode dizer: “Eu sou… a verdade” (Jo 14.6). Como explica o comentário Beacon: “Não é que João pensasse na lei e na graça como antitéticas, ou que a lei não fosse verdadeira. Ela era verdadeira, porém limitada. A lei era insuficiente em relação às necessidades mais profundas do homem, ao passo que Cristo é mais do que suficiente, uma vez que Ele é a fonte de toda a verdade e graça” (1). Assim, pois, em Cristo, graça e verdade são maximizados!

Em Moisés, a Lei que outrora estava gravada no coração dos homens, materializa-se nas pedras do Sinai e nos papiros nos quais a lei foi diversas vezes manuscrita. Em Cristo, a graça e a verdade que estavam disseminadas entre os homens, noutros tempos, agora materializa-se nele mesmo, ganhando “carne e sangue”, podendo ser vista e apalpada (Jo 1.14; 1Jo 1.1; 2Pe 1.15). Assim, se pode com absoluta clareza dizer que “a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tt 2.11).

O exegeta Donald Carson segue esta interpretação, quando afirma: “Diante disso, parece que a graça e a verdade que vieram por meio de Jesus são o que substitui a Lei; a própria Lei é entendida como uma manifestação anterior da graça (…) A aliança da Lei, portanto, é vista como um dom gracioso da parte de Deus, agora substituído por um dom mais gracioso, ‘a graça e a verdade’ incorporada em Jesus Cristo – aqui nomeado, pela primeira vez, como o ser humano que é nada mais que a ‘Palavra que se tornou carne’” (2). Em Cristo temos graça abundante, graça tomando o lugar da graça, graça aperfeiçoando a graça, graça multiplicando-se e enchendo-nos totalmente! Não alcançaremos pela graça de Cristo maior graça quando cruzarmos os portais da glória celeste, do que já a temos experimentado aqui? Já dizia o pregador congregacional norte-americano D. L. Moody, “Alguns creem que quando chegam ao Calvário já possuem o melhor – mas existe algo melhor que lhes aguarda: a glória!” (3). Isso é graça sobre graça!

  • Para quê, então, a Lei de Moisés foi dada?

A Lei não foi dada com intuito de justificar ou aperfeiçoar os pecadores. Paulo é incisivo: “ninguém é justificado pela prática da lei” (Gl 2.16). Os judeus que buscavam a justificação pelas obras da Lei, e não pela fé, tropeçaram (Rm 9.31,32).

Embora tenha sido boa – porque procede do Deus que é bom e de quem emana toda boa dádiva (Tg 1.17) – a Lei tencionava de modo muito limitado:

  1. Revelar o alto padrão de santidade de Deus (Lv 11.45).
  2. Evidenciar a corrupção do coração humano e a natureza vã de todo seu orgulho (Rm 2.17-29; 5.20).
  3. Proporcionar um aio, um guia espiritual temporário para o povo eleito de Deus, e os que a ele fossem agregados nos tempos antigos, até que viesse “a plenitude dos tempos” e a revelação final de Deus em Cristo (Gl 3.24).

Resumindo nas palavras do erudito Abraão de Almeida, “o objetivo último da lei é fazer que o pecador sinta a necessidade de justificação e perdão, e leva-lo, ao final, a confiar em Jesus Cristo e recebe-lo como seu único Salvador e Senhor, recebendo dele a salvação do pecado e da consequência deste, a morte espiritual” (4). Ou ainda de forma prática, como diz o teólogo pentecostal Myer Pearlman, fazendo uma comparação interessante entre a Lei e a Graça: “A Lei diz: ‘pague tudo’, mas a graça diz: ‘tudo está pago’. A Lei representa uma obra por fazer, a graça é uma obra consumada. A Lei restringe as ações, a graça transforma a natureza. A Lei condena, a graça justifica. Debaixo da Lei, o indivíduo é servo assalariado; debaixo da graça, ele é filho em alegria de herança ilimitada” (5).

II. O FAVOR IMERECIDO DE DEUS

  • Graça de Deus versus mérito do homem

A graça de Deus remove a pretensão do mérito humano. A salvação é mais valiosa que qualquer coisa que pudéssemos dar a Deus. Na verdade, qualquer coisa que pudéssemos dar a Deus, já por direito dele! “Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Rm 11.36). O apóstolo Paulo perguntava aos coríntios: “que tens tu que não tenhas recebido?” (1Co 4.7). Do Senhor vem a salvação (Jn 2.9), e é um presente de Deus que recebemos pela fé, não pelo esforço. Mesmo os esforços que seguirão à conversão, na luta pela santificação diária e pela vitória sobre o mal, não são esforços desprovidos de fé, nem substitutos à fé, mas esforços legitimados pela fé, que é a vitória que vence o mundo! (1Jo 5.4). O justo viverá pela fé!

Logo cedo na Igreja, os apóstolos cuidaram de resolver o equívoco reminiscente do judaísmo: a obrigatoriedade da observância da Lei mosaica para salvação. Uma grande discussão sobre esta questão ocorreu no concílio da Igreja em Jerusalém (At 15), na qual Pedro estabeleceu o que viria a ser um dos principais artigos de fé nos Credos, Confissões e Declarações de Fé das igrejas genuinamente cristãs posteriormente: “cremos que somos salvos pela graça de nosso Senhor Jesus” (v. 11, NVI). Não à toa este é um dos pilares da Reforma Protestante, e das igrejas verdadeiramente protestantes: Sola Gratia, ou seja, Somente a Graça! Graça que é o favor imerecido de Deus; graça que é a concessão de bens àqueles que, com justiça, mereciam a condenação. De Cristo são todos os méritos de nossa salvação, como diz Elienai Cabral, “o remédio para o pecado está, não em algum mérito pessoal do pecador, mas no mérito da obra expiatória de Cristo que tira o pecador do estado de pecado e o coloca ‘debaixo da graça salvadora de Deus através de Cristo Jesus’” (6).

No primeiro século ainda Paulo foi o apóstolo que mais combateu os enganos dos cristãos judaizantes que queriam a todo custo perpetuar a validade da Lei Mosaica e sustentar a interpretação equivocada de que a observância dela é que garantiria a salvação. Paulo sobe o tom de repreensão, e questiona os gálatas: “Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?” (Gl 3.3). Ou seja: vocês que que foram regenerados e santificados pelo Espírito, por meio da pregação da fé (v. 2), querem agora concluir a vossa salvação pelo próprio esforço em praticar as obras da Lei? Então Paulo dá a sentença aos que persistirem em tentar alcançar por méritos próprios a salvação: “Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído” (Gl 5.4). Ninguém em tempo algum poderia ser justificado pela Lei, e menos ainda o seria após ela ter caducado para dar lugar à revelação mais sublime de Deus em Cristo Jesus!

  • A graça não banaliza a ofensa do pecado

Um ponto importante e bem destacado nesta Lição, é como diz o próprio comentarista, o Pr. Claiton Pommerening, “a graça não é salvo-conduto para pecar”. Se de um lado os judaizantes buscavam um regresso às obras da Lei por acharem que a salvação da graça era “fácil demais” – estes são os genuínos legalistas, os veneradores da lei –, por outro lado havia o equívoco de muitos cristãos em pensar que devido a salvação um presente de Deus, poderiam continuar deliberadamente na prática do pecado, dando assim lugar à libertinagem. Dois extremos que o Novo Testamento corrige reiteradas vezes!

A mesma graça que é salvadora é também santificadora. Escrevendo sua carta pastoral a Tito, Paulo diz: “Porque a graça salvadora de Deus se há manifestado a todos os homens, ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, e justa, e piamente, Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo” (Tt 2.11-13). Preste atenção nos detalhes:

  1. A graça é salvadora
  2. A graça está manifesta a todos os homens
  3. A graça ensina-nos a viver de modo sóbrio, justo e piedoso
  4. A graça ensina-nos que devemos renunciar à impiedade e às concupiscências mundanas
  5. A graça possibilita-nos aguardar a vinda de Cristo

Os que vivem na época da graça não estão liberados para viver como bem entenderem, alimentando pensamento impuro, usando linguajar impróprio, envolvendo-se em todo tipo de entretenimento, visitando todo tipo de lugar, relacionando-se sexualmente fora do casamento, assumindo liderança e pastorado na igreja apesar de envolvimentos em traições, divórcios, bebedeiras e escândalos. A graça não pode se prostituir! Ela é santa, visto que procede do Deus santo! Ela não pactua nem com o legalismo, nem com a libertinagem. A graça chama-nos a um compromisso de santidade!

Se existem igrejas que multiplicam exacerbadamente as regras de conduta para seus membros, tornando a ética cristã algo quase impraticável e geralmente furtando do Espírito Santo seu papel preponderante na santificação, há, ao contrário destas, aquelas igrejas que dizem ter entendido plenamente a graça de Cristo, e se abriram para a banalização do divórcio, a ordenação pastoral de membros homossexuais, para o consumo de toda sorte de bebida alcoólica e até para a dessacralização do culto cristão, introduzindo elementos pagãos como músicas seculares na liturgia, e participação de cantores e bandas não convertidos ao Evangelho de Jesus Cristo. Mas a graça não nos liberta para o pecado e sim do pecado! Não fomos feitos livres para viver do modo como bem entendemos, mas para viver em total submissão à Cristo, pela fé. É neste sentido que está posta a declaração paulina: “Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde? De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” (Rm 6.1,2). Os que vêm a Jesus, vêm para serem aliviados do fardo e da opressão do pecado (Mt 11.28-29), não para terem, em nome de Cristo, mais pecados acumulados ao seu fardo!

Os que foram verdadeiramente alcançados pela graça, precisam ouvir atentamente a exortação do apóstolo Paulo: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.1,2). Se nos entregamos à libertinagem, então, “temos recebido a graça em vão” (2Co 6.1).

Que surpresa haverá naquele Dia de prestação de contas diante de Deus, quando muitos libertinos reivindicaram a graça de Cristo sobre si, mas apenas sofrerão o juízo eterno, por haverem banalizado a tão preciosa dádiva divinal!

III. O ESCÂNDALO DA GRAÇA

  • Graça e justiça

Neste tópico, o comentarista faz uma importante pergunta, mas que infelizmente ele deixa sem resposta: seria a graça injusta? Vamos colocar essa pergunta de outra forma: de que modo a graça de Deus está em perfeita harmonia com a justiça de Deus? Ainda melhor: vamos transformar essa pergunta em duas, e então perceberemos como a graça é maravilhosa:

  1. Foi justo que Cristo fosse punido, sendo ele inocente, em nosso lugar, sendo nós os pecadores? (suponho que os gregos e os romanos teriam interesse em saber a resposta desta pergunta)
  2. É justo que Deus perdoe e justifique os pecadores pela fé somente, não exigindo deles antes previamente obras que os tornem dignos do perdão? (suponho que os judeus não convertidos gostariam de ler a resposta a este questionamento, que era justamente o questionamento deles na época dos apóstolos)

Os teólogos pentecostais quadrangulares Guy Duffield e Nathaniel Van Cleave nos ajudarão a responder ambas as perguntas e levar-nos a compreender como a graça de Deus está em perfeita harmonia com a sua justiça.

Sobre a primeira pergunta, os autores supracitados, discorrem:

“Argumentou-se ser imoral Deus punir um inocente pelo culpado, e, portanto, a ideia de substituição seria insuportável. Devemos dizer, em primeiro lugar, que Deus não cogita de punir o inocente pelo culpado. Jesus tomou sobre si nosso pecado, a fim de assumir nossa culpa. Segundo, não é ilegal que um juiz pague ele mesmo a pena imposta. Cristo é verdadeiramente Deus; e teve, portanto, o direito de pagar pela penalidade do nosso pecado. Terceiro, isso só poderia ser considerado imoral se Jesus fosse obrigado a sacrificar-se por nós, mas se Ele tomou voluntariamente essa decisão, não houve qualquer injustiça”

Mas à frente, Duffield e Van Cleave são ainda mais assertivos: “É necessário compreender muito bem que não somos salvos pelo assassinato de um homem, mas por alguém que se ofereceu voluntariamente por nós” (7). Fica respondida, então, a primeira pergunta: sim, Cristo assumindo a punição em nosso lugar, voluntariamente e estava em seu poder recusá-la, demonstra que a dádiva da salvação é justa. Deus não se torna comparsa dos pecadores, ao evitar puni-los e ainda presenteá-los com dádivas eternas. O pecado foi punido! A sentença foi aplicada! Cristo a suportou em nosso lugar. E ele disse: está consumado! (Jo 19.30)

Quanto a segunda pergunta em destaque, ainda Duffield e Van Cleave também nos oferecem uma solução para ela:

“A única base sobre a qual um Deus santo poderia perdoar o pecado era fazendo seu Filho suportar o castigo da culpa do pecador. Ele não perdoaria simplesmente perdoar mediante o arrependimento do pecador, mas só quando a penalidade tivesse sido inteiramente paga. Deus não perdoa os pecadores, como alguns pregam, porque os ama. Seu amor o levou a dar seu Filho unigênito como resgate pelo pecado, a fim de que o pecador possa ser perdoado” (8).

Assim fica respondido que sim é justo que Deus perdoe os pecadores em virtude da resposta da fé, mas não porque Deus dá perdão de modo banal ou porque Ele resolveu ignorar a ofensa dos pecados dos homens, mas porque tal ofensa recebeu a sua justa retribuição lá no Calvário, quando Cristo foi “ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades” (Is 53.5).

Portanto, de qualquer ângulo que se observe, a graça de Deus está em perfeita sintonia com a justiça de Deus, não sendo de modo algum antagônica a ela! Não existe graça X justiça, mas graça & justiça. Graça e Justiça não são irmãs rivais, disputando espaço em casa. São irmãs que estão unidas fraternalmente, e que se abraçam!

  • Graça supridora e transformadora

Pela graça vivemos, pela graça comemos, pela graça nos vestimos, pela graça falamos e agimos, pela graça cantamos, pregamos e oramos, pela graça recebemos a Bíblia, o Espírito e os dons, pela graça de Deus casamos, constituímos família e trabalhamos. A cada corrente de ar que atravessa os nossos pulmões, ali está manifesta a graça de Deus! É por esta graça que milhares de pecadores em todo mundo têm tido um encontro real e transformador com o Senhor Jesus! É por esta graça que a garota de programa pode abandona a vida de prostituição, casar-se e ser mãe de filhos, mulher sábia e santa! É por esta graça que muitos jovens têm largado o vício e o tráfico de drogas, bem como a vida de delinquência para encherem as trincheiras dos jovens guerreiros do Senhor na santa obra de Deus! É por esta graça que muitos marginais têm substituído facas e revolveres por Bíblias e revistas da Escola Dominical! É por esta graça que muitos pais de família têm abandonado as mesas de bares para estarem mais presente às mesas de suas casas na companhia da esposa e filhos! É por esta graça que milhares, não, milhões de almas dantes perdidas e agora achadas cruzarão os portais da glória celestes e ouvirão o Salvador Jesus dizer: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que para vós foi preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25.34). A alta conta do nosso pecado foi pago graciosamente por Jesus Cristo! E agora, ele abriu graciosamente para nós um novo e vivo caminho para o Pai (Hb 10.20).

O ímpio questiona: “mas como isso é possível? Roubou, xingou, prejudicou, matou… e agora diz que é salvo e vai morar no céu?”. Sim, é possível! É graça! É dádiva de Deus que é recebida pela fé no Salvador Jesus! É a porta da graça aberta para todos os pecadores em todo mundo, e que exige apenas o passaporte da fé, do despojar-se de todo sentimento de autossuficiência, e que se confie totalmente no Cristo da cruz e da tumba vazia!

Como compôs o poeta Haldor Lillenas (1885-1959), ministro wesleyano, também num belíssimo clássico cantado por muitos corais no Brasil:

Graça! Quão maravilhosa graça de Jesus!

Alta como o firmamento, é sem fim!

É maravilhosa, é tão grandiosa,

É suficiente para mim!

É maior que a minha vida inútil, 

Bem maior que o meu pecado vil.

O nome de Jesus engrandecei

E glórias dar!”

A graça de Deus nos basta! (2Co 12.9). Que possamos dizer como Paulo: “…a graça de nosso Senhor transbordou sobre mim…” (1Tm 1.14)

Boa aula para você neste domingo!

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REFERÊNCIAS

(1) Comentário Bíblico Beacon, vol. 7, CPAD, p. 33

(2) A. Carson. O comentário de João, Shedd Publicações, pp. 132,3

(3)D. L. Moody, sermão O sangue, parte 2

(4) Abraão de Almeida. O sábado, a Lei e a graça, 19 ed., CPAD, p. 47

(5) Myer Pearlman. Conhecendo as doutrinas da Bíblia, 3 ed., CPAD, p. 235

(6) Elienai Cabral. Teologia Sistemática Pentecostal, CPAD, p. 322

(7) Guy Duffield e Nathaniel Van Cleave. Fundamentos da Teologia Pentecostal, vol. 1, 2 ed., editora Quadrangular, p. 251,2

(8) Guy Duffield e Nathaniel Van Cleave. Op. cit., p. 246



Tiago Rosas

Tiago Rosas

Presbítero da Assembleia de Deus em Campina Grande-PB. Coordenador de Escola Bíblica Dominical. Autor do livro A Mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira.


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