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Lição 8 – A sobriedade na obra de Deus

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 8 do trimestre sobre "Adoração, Santidade e Serviço"


A sobriedade na obra de Deus

A partir da punição dada por Deus a Nadabe e Abiú, conforme estudamos na Lição passada, veremos uma sucinta abordagem da questão da embriaguez x sobriedade na Bíblia sagrada e as lições que podemos extrair dos erros de vultos da fé ou lideranças religiosas no passado. Certamente que Deus está nos chamando à adoração e ao serviço, mas Ele não deseja que façamos isso de qualquer jeito, senão que nos apresentemos a ele em completa santidade: no espírito, na alma e também no corpo (1Ts 5.23).

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I. O vinho na história sagrada

O Antigo Testamento apresenta-nos algumas experiências vergonhosas que pessoas tiveram com o mau uso do vinho. Como a Bíblia não é um livro forjado para exaltar personalidades, mas um registro fiel dos fatos e da doutrina, então mesmo histórias de homens de Deus que pecaram pela falta de equilíbrio moral estão lá registradas para que aprendamos com os seus erros. Vejamos alguns deles.

  1. Noé, o primeiro viticultor

Noé, o homem que “fez tudo exatamente como Deus lhe tinha ordenado” (Gn 6.22; 7.5, NVI) na construção da arca em que abrigaria sua família e muitos bichos do grande dilúvio, certamente já não estava na mesma sintonia com a vontade de Deus quando embebedou-se no vinho que ele mesmo produzira.

Pioneiro na plantação de vinhas (Gn 9.20), o viticultor Noé talvez empolgou-se demasiadamente com a colheita de uvas, deixou o mosto fermentar e bebeu-o em excesso. Temos então o primeiro registro de embriaguez na Bíblia e o resultado que ela provoca: Noé ficou tão fora de si que se despiu dentro de sua tenda, expondo-se vergonhosamente para os que ali entrassem (Gn 9.21). A bebida alcoólica tende a roubar do homem seu discernimento e jogá-lo à vergonha pública!

A nudez de Noé foi vista por seu filho Cam (predecessor dos canaanitas), que, ao que nos parece, fez galhofa ao ver o pai nu [1]. Se assim não fosse, a maldição lançada sobre ele pelo seu pai após ter acordado de sua embriaguez não teria sido justa. Hoje cometemos semelhante erro ao de Cam quando rimos de pessoas bêbadas nas ruas, quando deveríamos ter compaixão delas e repudiar o vício maldito que as escraviza!

Aliás, aqui está também, na reprovação da atitude de Cam, uma lição para nós: não temos o direito de tratar o outro com desdém pelo fato de ter errado ou de alimentar algum vício, nem espalhar para outros em tom de mexerico o erro cometido por alguém próximo a nós (quantos estão a mexericar nas redes sociais?!). Noé errou ao embriagar-se; todavia maior punição houve para seu filho Cam que não soube respeitosamente guardar a privacidade de seu pai. Por que rir dos outros quando corremos o mesmo risco de cair?  “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia” (1Co 10.12).

  1. Ló, e o vergonhoso caso de incesto

O sobrinho de Abraão foi um verdadeiro “homem das cavernas”, mas não no sentido pitoresco que estamos acostumados a ver em ilustrações de livros didáticos de ciência. É que, segundo dizem as Escrituras, fugindo da região de Zoar por medo do que os moradores dali poderiam fazer a ele e a suas duas filhas, Ló “habitou numa caverna” (Gn 9.30).

Embora sendo chamado pelo apóstolo Pedro de “o justo Ló” (2Pe 2.7), não se pode dizer que todas as ações deste homem refletiam a justiça, integridade e grandeza moral que Deus esperava dos homens. Veja-se, por exemplo as relações sexuais incestuosas que ele manteve com suas duas filhas, sob o efeito do vinho alcoólico e a partir das quais nasceram os predecessores dos povos moabitas (descendentes de Moabe – Gn 9.37) e amonitas (descendentes de Ben-Ami – Gn 9.38). Na história de Israel, esses dois povos foram verdadeiras pedras no sapato dos judeus!

Alguém poderia argumentar que Ló não sabia o que estava fazendo após embriagado, todavia Ló sabia que estava embriagando-se por beber vinho em excesso, e deveria ter parado aos primeiros sinais da embriaguez, enquanto ainda lhe restava algum discernimento. Mas, preferindo continuar a bebedeira, Ló se fez igualmente culpado às suas filhas, que maquinaram toda aquela situação por não confiarem em Deus e buscarem de si mesmas solução carnal – literalmente! – para a possível extinção da família naquela caverna.

  1. Urias, o homem que foi embebedado, mas não caiu na armadilha

Todos sabemos a história do adultério do rei Davi com Bate-Seba, a esposa de Urias. Após tomar conhecimento de que a mulher estava grávida, Davi forjou muitas situações para livrar-se da responsabilidade da gravidez de Bate-Seba e da culpa do adultério, chegando inclusive a trazer Urias de volta das trincheiras na guerra para tentar insistir com ele que fosse para casa e ficasse com sua mulher.

Urias participou de um banquete real no qual foi incentivado a beber além da conta (2Sm 11.13). Todavia, mesmo com seu discernimento prejudicado pelo álcool, Urias não cedeu às artimanhas de Davi, e ao invés de descer à sua casa, permaneceu no palácio do rei junto aos demais servos de seu senhor. Vejamos que mui grandiosa lição extraímos daqui: mesmo embriagado Urias parecia mais sóbrio que o rei Davi! Suas atitudes revelavam maior nobreza que as do ungido do Senhor. Mesmo embriagado, manteve sua posição, enquanto Davi, livre do vinho fermentado, rebaixou-se moralmente e cometeu contra a esposa de seu soldado e contra o próprio Urias terríveis pecados!

Embora Urias não estivesse obrigado a embriagar-se no vinho de Davi, podendo simplesmente rejeitá-lo para manter sã sua consciência, nesse fatídico episódio é sobre Davi que o texto bíblico faz repousar a culpa, já que todas as ações foram por ele orquestradas com vistas a se livrar de um grave pecado. Resguardadas as devidas proporções, o erro de Davi pode ser assemelhado ao de um homem perverso que embebeda ou droga uma mulher para dela se aproveitar depois, quando em estado inconsciente. Não raro vemos nos telejornais notícias assim, envolvendo inclusive profissionais da medicina que usam seus próprios consultórios médicos para abusarem de seus(as) pacientes. É o uso consciente de bebidas ou drogas para entorpecer a mente alheia! Deus nos livre e guarde de tais atos imorais, criminosos e pecaminosos!

II. O vinho no ofício divino

  1. No Antigo Testamento

Podemos conjecturar com segurança que Nadabe e Abiú, sacerdotes filhos de Arão, estavam sob efeito de bebida alcoólica quando ofereceram diante do Senhor fogo estranho. Isso porque o contexto imediato leva-nos a tal inferência (Lv 10.1-3,8-11).

A proibição do consumo de bebidas fermentadas para os sacerdotes durante o exercício de seu ofício era “um decreto perpétuo para as suas gerações” (Lv 10.9). Isso porque a ação prejudicial do álcool sobre o raciocínio privaria os ministros do Senhor do discernimento entre o santo e o profano, o puro e o impuro (v. 10), além de dificultar-lhes a exposição da Lei do Senhor aos filhos de Israel (v. 11). Imagina se, sob o efeito de álcool, os sacerdotes começassem agora a cortar os próprios pulsos ao invés de cortarem o pescoço dos animais ofertados ao Senhor? E se ao invés de colocarem fogo nos castiçais do candelabro, colocassem fogo no santo véu? Antes que tal baderna se instaurasse, Deus impôs sérias restrições aos seus adoradores!

A abstinência ordenada aos ministros do culto levítico nos é didática: mais que santa adoração, Deus requer santos adoradores, que tenham mãos limpas (Sl 24.3,4; Tg 4.8), corações limpos (Mt 5.8; Hb 10.22) e consciências limpas (At 23.1; 24.16; 1Tm 3.9)!

O texto de Provérbios é muito sugestivo sobre a inadequação da bebida forte para os que exercem liderança sobre o povo: “Não é próprio dos reis, ó Lemuel, não é próprio dos reis beber vinho, nem dos príncipes o desejar bebida forte” (Pv 31.4). E noutro momento adverte: “Não se deixe atrair pelo vinho quando está vermelho, quando cintila no copo e escorre suavemente! No fim, ele morde como serpente e envenena como víbora” (Pv 23.31,32, NVI). Se a bebida forte era inadequada aos reis e sacerdotes do Senhor, por que ela deveria ser adequada a nós cristãos, que fomos em Cristo constituídos para Deus “reis e sacerdotes”? (Ap 5.10).

Os casos de Noé e de Ló, e agora o mais recente caso dos levitas Nadabe e Abiú, estavam postos para os demais hebreus, especialmente os líderes do povo, e também para nós hoje  (“tudo o que dantes foi escrito, para o nosso ensino foi escrito” – Rm 15.4) como exemplos reais do que a bebida alcoólica pode causar. Ela afeta:

  • O senso de quem o homem é e o que ele faz consigo mesmo (como Noé que ficou nu)
  • O senso de quem o outro é e o que se está fazendo com ele (como Ló que se relacionou com as próprias filhas)
  • O senso de quem Deus é e como se está aproximando dele (como Nadabe e Abiú que foram irreverentes no culto).

2. No Novo Testamento

O primeiro milagre de Jesus foi numa festa de casamento, onde ele transformou água em vinho. Mas com certeza aquele não fora um vinho fermentado, pois se fosse então Jesus teria promovido um verdadeiro bacanal em seu primeiro milagre!

Cada uma daquelas seis talhas (Jo 2.6) comportava em medidas atuais entre 60 a 120 litros, ou seja, um total que podia ir de 360 a 720 litros de vinho! Considerando que os convidados já tinham “bebido bem” (Jo 2.10), então admitir que aquele vinho era alcoólico era admitir que o povo estava bebendo além da conta e, portanto, embriagando-se! Certamente aquele “bom vinho”, que nem sequer teve tempo de fermentar antes de ser servido, era mais saboroso e da mais pura qualidade jamais bebido antes! Era obra do Criador e não de um viticultor!

Quanto ao vinho usado na ceia, com toda certeza era também não-fermentado, visto que a inauguração da Ceia se deu na noite de Páscoa (Mt 26.19-29), quando toda fermentação devia ser retirada da casa dos judeus (Ex 12.15,19).

Quanto ao texto de Corinto 11.20, Paulo não está ali dizendo que o vinho da Ceia era alcoólico. O que ele está dizendo é que muitos estavam se embriagando naquilo que deveria ser, mas não era, a Ceia do Senhor! Aliás, Paulo é claríssimo: “Quando vocês se reúnem, não é para comer a ceia do Senhor, porque cada um come sua própria ceia” (1Co 11.20,21). Ou seja, não era a legítima Ceia do Senhor que estava sendo celebrada ali – se fosse, certamente seria sem vinho fermentado, como o vinho que Jesus tomou na Páscoa com seus discípulos o fora, já que o fermento era proibido na Páscoa judaica!

Ademais, em Corinto, ao que tudo sugere, cada um levava seu alimento para a “festa do amor” (o Ágape), e é bem provável que nesse meio, os ricos de mais condição levassem vinho alcoólico para tomarem entre os amigos, desonrando a Ceia do Senhor e não discernindo o Corpo de Cristo, isto é a Igreja! Em razão de tal irreverência, havia entre os coríntios muitos fracos e doentes, e outros que até já tinham morrido! (1Co 11.30). Definitivamente, Deus ainda continua exigindo separação entre o puro e o impuro, entre as coisas santas e as coisas profanas!

III. Ministros cheios do Espírito Santo

Infelizmente já não é novidade ouvirmos falar hoje de pastores, pregadores ou cantores que sobem ao púlpito para ministrar culto ao Senhor sob o efeito de álcool. E não só álcool, mas também drogas ilícitas. Não raro explode no cenário nacional o caso de um ícone gospel famoso que foi flagrado se embriagando ou se drogando. Muitos não conseguem dar conta de tantas viagens, palestras e shows gospel se não for a base de drogas e bebidas! Lamentável essa troca da unção e do vigor espiritual por uma força artificial e prejudicial fabricada nas excessivas doses de comprimidos, ervas e bebidas!

  1. Recomendações aos ministros

Seguindo recomendações semelhantes às que foram dadas aos obreiros do culto levítico, os apóstolos do Senhor fizeram aos obreiros do culto cristão recomendações para que se abstivessem da bebida alcoólica, visto seu poder destrutivo para a pureza da mente.

Em suas cartas pastorais, Paulo recomenda tanto que os obreiros não sejam dados nem “a muito vinho”, ou seja, a embriaguez (1Tm 3.8), nem a (pouco) vinho, ou seja, o consumo moderado (1Tm 3.3; Tt 1.7). Nesse segundo caso, Paulo orienta que “não seja dado ao vinho”; mas “dado ao vinho” é uma única palavra no texto grego, que é paranoios, que significa literalmente “ao lado do vinho”. Portanto a recomendação é que o ministro do Senhor nem sequer se coloque ao lado do vinho!

Quanto a recomendação paulina para que Timóteo beba vinho junto com água (1Tm 5.23), deve-se entender pela precariedade de saneamento básico naquela época, quando a água poluída acarretava (como hoje) sérias doenças intestinais, que esta recomendação tem um caráter muito mais medicinal ou preventivo, e não recreativo. Paulo mesmo justifica tal uso do vinho: “por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades”.

A administração responsável do vinho ou de drogas para uso medicinal (os remédios são drogas lícitas) não é pecado ou imoralidade, desde que não criem um vício e sejam comprovadamente eficazes para aliviar a dor ou curar doenças.

Servos e servas do Senhor precisam oferecer a Deus um “culto racional” (Rm 12.1), com entendimento e sem alucinações; e se está comprovado cientificamente que um simples copo de bebida alcoólica é capaz de prejudicar o senso de um condutor de um veículo na estrada (daí a rigorosa Lei Seca em nosso país que pune motoristas com qualquer teor de álcool no sangue), então nem mesmo este simples copo de bebida alcoólica deveria estar presente em nossas mesas!

Se está comprovado o efeito pernicioso ao cérebro e ao pulmão (além de males causados à família) que drogas como maconha, crack e cocaínas vêm a causar, como tolerar seu “consumo moderado”? Ou como concordar com autoproclamados pastores e líderes evangélicos que ligados por uma união promíscua a partidos de esquerda no Brasil defendem publicamente a bandeira da regulamentação do consumo recreativo de drogas como a maconha?

Como bem diz o pastor Claudionor de Andrade, tais obreiros são verdadeiros feiticeiros infiltrados entre os crentes, preparando o caminho para o anticristo que irá popularizar o consumo global de psicotrópicos! [2]

  1. Recomendações à igreja

O apóstolo Pedro exorta-nos repetidamente: “sede sóbrios”, “sede sóbrios” (1Pe 4.7; 5.8). Estar sóbrio é o oposto de estar embriagado ou entorpecido. A bebedice é uma marca da vida dissoluta que outrora vivíamos, não da vida regenerada em Cristo (1Pe 4.3; Gl 5.21). Façamos oposição à cultura da bebedice, digamos não aos apelos da bilionária indústria cervejeira e enfrentemos aqueles que, sem nenhuma procuração dos evangélicos, pensam estarem autorizados a falarem em nosso nome, defendendo consumo de bebidas alcoólicas e legalização da maconha. Esses bruxos da religião são piores que Elimas, o mágico, que não cessam de perturbar os retos caminhos do Senhor! (At 13.8-10).

O apóstolo Paulo instrui: “E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito” (Ef 5.18). Se não nos colocarmos ao lado do vinho (gr. paranoios), mas deixarmos o Espírito Santo colocar-se ao nosso lado (gr. parakletos) e nos tomar por completo, então será muito melhor provar deste Espírito sem medida, sem limitações! (Jo 3.34).

Sim, do Espírito Santo você pode beber sem moderação! Beba, encha-se e transborde dele, até que você possa dizer como Davi: “O Senhor… unge a minha cabeça com óleo e faz o meu cálice transbordar” (Sl 23.5). Somente os que estiverem sóbrios e cheios do Espírito é que estarão preparados para toda boa obra! (2Tm 2.21).

Conclusão

Há um versículo bíblico que deve resumir muito bem para nós o significa do registro de desvios de conduta dos homens de Deus no passado, seguidos das punições ou tragédias que lhes ocorreram. É quando Paulo diz: “Essas coisas aconteceram a eles como exemplos e foram escritas como advertência para nós, sobre quem tem chegado o fim dos tempos” (1Co 10.11). Se queremos ser vitoriosos como vitoriosos foram os heróis da fé, imitemo-lhes os bons hábitos, a confiança e o serviço que realizaram para o Senhor; mas se queremos evitar as derrotas que eles sofreram e as consequências que lhes sobrevieram por causa do pecado, então policiemo-nos, investiguemos nossos hábitos – “examine-se o homem a si mesmo” (1Co 11.28) – e peçamos a Deus a cada dia: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno” (Sl 139.23,24). Amém.

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Referências

[1] O Novo Comentário Bíblico, Central Gospel, p. 32
[2] Claudionor de Andrade. Adoração, santidade e serviço, CPAD, pp. 87-91)



Presbítero da Assembleia de Deus em Campina Grande-PB. Coordenador de Escola Bíblica Dominical. Autor do livro A Mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira.

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