As línguas estranhas e seus limites

A experiência agora é imposta e não espontânea, é programada e não mais o "de repente".


As línguas estranhas e seus limites

Infelizmente alguns movimentos pentecostais tem facilidade em perpetuar-se em seus jargões. Não é absurdo esse acontecimento devido a história relativamente nova, cem anos é uma pequena parcela do desenrolar dos milênios de cristianismo. Mas a facilidade com que a opinião e interpretação bíblica de alguns torna-se regra para o geral dos pentecostais é perigoso, ao passo que se definem absolutos deveras insustentáveis.

Exemplo disso são os temas “línguas estranhas” ou “batismo no Espírito Santo”, ênfases próprias do movimento pentecostal. O pentecostalismo clássico moderno que inicia-se em 1901, quando Agnes Ozman começou a falar “chinês” num seminário em Kansas (USA), propagou a experiência para seus companheiros de seminário que também passaram a falar em “outras línguas” e uma expansão até o conhecido avivamento da rua Azuza, notório fato “revivalístico” do século XX.

Rapidamente se associou todo esse êxtase espiritual ao livro de Atos no capítulo 2, dia do pentecostes. Parhan, talvez o primeiro teólogo e sistematizador dessa “experiência das línguas”, fundamenta na época biblicamente tal “dom” e explica que este evento é uma evidência da terceira obra da graça: o batismo no Espírito Santo. E desde então, falar em línguas é destacado como evidência física inicial do derramamento do Espírito.

Evidentemente que dos grandes avivamentos do século XX até os nossos dias a experiência de falar em outras línguas continua em várias igrejas pentecostais, mas claramente com proporções inferiores comparado a explosão que atingiu diversas nações no século passado.

O que importa neste artigo não é discutir a experiência das pessoas com as “línguas estranhas” ou discutir biblicamente a veracidade do tal “batismo no Espírito Santo”. Esses debates são travados todos os dias e as pessoas guerreiam a esse respeito cada um com seu pré-conceito e opinião formada, travam uma verdadeira batalha sem novidade de argumentos e sem profundidade.

O que nos interessa é totalmente relevante, diz respeito ao fenômeno pentecostal de “fazer com que os jargões, experiências pessoais ou interpretações bíblicas pontuais tornem-se padrão, regra, o sentido geral para que todos os crentes vivenciem”. Ao ponto que essas determinações individuais estabelecidas se tornem o geral (a lei, a regra, a doutrina) para os crentes, sendo que esse geral (na maior parte das vezes) é impossível de se cumprir por todos, irreal ou superficial.

Ao falarmos de “línguas estranhas”, a história pentecostal afirma que isso aconteceu e acontece, proveniente (por decisão) do Espírito de Deus. Agora, obrigar que o crente, para ser crente realmente, necessite ter essa experiência, é uma opinião que tomou proporções gerais e agora aflige muitos que são cheios de Deus e não “enrolam a língua”.

Existem pessoas que tentam a muito tempo esse tal “batismo no fogo” esperando falar línguas inteligíveis; a cada convite de um pastor pentecostal vão a frente e saem frustradas por não alcançarem tal “graça”. Tentam orar mais, participar com frequência maior nos cultos, choram pedindo a Deus tal momento de fogo e drasticamente muitos nem sempre conseguem. O “geral” (senso comum pentecostal) responde: se não aconteceu é porque lhe falta algo. 

Em outras palavras, se o “fogo” não desceu foi porque ainda está faltando uma coisinha na relação da pessoa e Deus. Será então que agora existe método para a experiência? Existe padrão de crente para alcançar esse “dom” do alto? Uma pena que exista muitos cristãos de verdade e cheios de Deus que não falam em “línguas estranhas” e sentem-se decepcionados no meio pentecostal, pois o “geral” impõe algo como regra que lhes é incompreensível ou simplesmente não foi lhes dada essa graça – quem sabe não receberam outra graça maior.

Uma pena que tem surgido grupos que estão radicalizando o ambiente para que tal “dom” seja derramado: apagam as luzes, aumentam o som, oram uns pelos outros, abraçam, incentivam a emoção até a experiência acontecer. Já que o “geral” diz: todos tem que falar em línguas. Não importa o jeito, tem que dar jeito para acontecer.

Então, a experiência agora é imposta e não espontânea, é programada e não mais o “de repente”. O absurdo é tanto que já estamos no período de estranhar se as línguas que estão sendo faladas são genuínas. Hoje as pessoas dizem “comece a falar”, “você já tem o dom”, “repita”; e o crente que cai nessa conversa, no fundo fica confuso se realmente “aconteceu” o que tanto pedia, pois a experiência pareceu comum, profana.

Nossa história pentecostal não pode se iludir com jargões, interpretações e opiniões pontuais que ganham proporções grandes ao ponto de ser o “geral” e não condizerem com a realidade da experiência cristã. Isso não significa que irá se negar o dom de línguas, que será abolido o movimento “de fogo” ou a forma de culto pentecostal. Significa que se acreditará que se o dom é proveniente do Espírito, é Ele que distribuirá conforme deseja, no tempo que for preciso e a quem lhe aprouver.

Vale lembrar que em Atos 2, as línguas foram uma experiência que levou a Igreja a pregação do Evangelho aos outros povos. No século XX com Parhan e na rua Azuza, o primeiro entendimento que tiveram que essa manifestação era sinal para as nações receberem o Evangelho. E hoje?

Sendo assim, não se pode impor algo pontual ou qualquer vivência particular a todos. Desejar que um dado avivamento aconteça sempre ou que é preciso se reunir para sempre buscar a mesma experiência é reduzir o propósito de salvação e uma falta de compreensão de que o Espírito age de diversos modos para salvar.

Qualquer experiência é um meio para Deus operar, não um fim. Por isso, um “meio” não pode ser o sentido geral para o cristianismo. Não podemos como movimento pentecostal impor uma regra ou um geral, por mais bem que possa fazer, é um erro e suas consequências são ilusão, mentira e divisão.



Victor Santos

Victor Santos

Victor dos Santos, mora em Santo André-SP. Blogueiro (Vida ao Inverso). Bacharel em Teologia, graduado em Logística pela Uniban e estudante da PUC SP.


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