Autoridades muçulmanas no “Egito moderado” legitimam ações do Estado Islâmico

A perversidade das autoridades islâmicas egípcias terá como “prêmio” a impunidade


Autoridades no "Egito moderado" legitimam ações do EI

O pior atentado da história do Egito vem sendo alvo de análises de humanistas e “especialistas” em Islamismo. O objetivo central é tentar explicar a motivação do ataque, ou seja, por que muçulmanos promoveriam um banho de sangue dentro de uma mesquita,  local sagrado para o Islã? Isto porque, a cada atentado terrorista, mais difícil fica manter o argumento de pacifismo da religião em sua versão ortodoxa, mesmo considerando a realidade de que grande parte dos muçulmanos não defendem publicamente ações terroristas.

Na sexta-feira, o imã Mohamed Abdelfatah estava se preparando para iniciar sua pregação quando a mesquita al-Rawdah, em Bir al-Bed, localizada no norte do Sinal, foi atacada por aproximadamente 30 terroristas, os quais abriram fogo e lançaram granadas contra os 500 fiéis. Apesar de não ter havido a reivindicação imediata de nenhum grupo terrorista reconhecendo a autoria do massacre, acredita-se que o Estado Islâmico seja o responsável. Até o momento, são 305 mortos – dentre os quais, 30 crianças – e mais de cem feridos. O nível de perversidade foi tão grotesco que, segundo o Ministério Público, os terroristas armados vestindo uniformes em estilo militar e máscaras bloquearam janelas e a entrada da mesquita antes de promover o fuzilamento com armamento automático ao som de gritos proclamando “Allahu Akbar”[1](deus é maior).

É importante lembrar que, enquanto os jornais ocidentais retrataram o terrível atentado no mês de abril contra as igrejas em Alexandria e Tanta em pleno “Domingo de Ramos” como uma simples “explosão”, sem mencionar que se tratava de dois graves atentados terroristas islâmicos, não houve esse tipo de ocultação nos noticiários quanto ao odioso atentado sofrido pelos muçulmanos em sua mesquita.

São muitos os casos dos agentes de comunicação que agem de forma seletiva para anunciar os horrores promovidos por grupos extremistas islâmicos. Na oportunidade, vale citar a imprensa nacional: o jornal ‘O Globo’ consignou como manchete à época dos atentados contra as igrejas no Egito, o seguinte: “Duas explosões em igrejas no Egito causam 44 mortos e mais de cem feridos[2]”. Como assim “explosões”? Por que teriam ocorrido?

Todavia, cabe salientar que o mesmo jornal não tem a prática de “esconder dados” quando os mesmos se referem às ações terroristas sofridas por comunidades muçulmanas. Com isso, a manchete sobre o último ataque em território egípcio é completa: “Ataque a mesquita no Egito com tiros e bombas deixa 235 mortos[3]”. Esse é o “paradigma” do jornalismo ocidental: Igreja sofre “explosão” e mesquita sofre “ ataque com tiros e bombas”!

Ultrapassada essa minha irresignação costumeira devido a aversão da mídia em promover um “jornalismo isento”, voltemos ao emblemático caso de explicar racionalmente o que leva muçulmanos a ingressarem em grupos islâmicos para matar outros muçulmanos. É claro que o senso comum acredita na pífia justificativa de que esses terroristas são doidos – defesa recorrente na imprensa ocidental – ou seguem uma “versão falsificada” do Islã. Assim, finaliza o “debate”, que na realidade, inexiste, porque o jornalismo se tornou “escravo” da ideologia marxista e os profissionais da comunicação só relatam as notícias de acordo com o viés multiculturalista, onde algumas “minorias privilegiadas” tornam as “maiorias” em “monstros” merecedores de toda forma de imprecação social.

Contudo, a “resposta” para destrinchar essa questão do “estímulo ao terror” está no próprio Egito, e não tem relação alguma com qualquer patologia ou dificuldade de interpretação de textos sagrados. No entanto, convém frisar que alguns autores árabes já escreveram vários artigos afirmando que o ataque terrorista que assassinou cruelmente mais de 300 pessoas se deve à “guerra total” que o Estado Islâmico declarou contra os muçulmanos sufis nos últimos anos, e para tanto, informam que os terroristas já bombardearam edifícios e locais de culto sufi, interromperam rezas e sequestraram membros da “seita tolerante” para forçá-los à renunciar à sua fé. Por isso, o ataque contra a mesquita da ordem sufi Jariri, que é um dos centros de adoração sufi mais populares do Sinai[4].

Certo, o Estado Islâmico declarou guerra contra sufis, cristãos, xiitas e outros apóstatas e politeístas, mas isso, por si só, explica a “facilidade” do Estado islâmico arregimentar terroristas para atacar outros muçulmanos no Egito? É óbvio que não!

Como já escrevi recentemente[5], a Universidade al-Azhar – principal centro ideológico islâmico sunita em todo mundo – está localizada no Egito e já se pronunciou em 2014, reconhecendo o Estado Islâmico como uma “legítima entidade muçulmana” e não o condenou por “apostasia” como fez com ativistas muçulmanos que pleiteavam “reformas” para promoção da paz em nome da religião, o que nos faz entender que no Egito, as ações sanguinárias desse grupo terrorista não são reprovadas pela principal autoridade em temas religiosos no país. Dessa forma, inexiste dúvida acerca da atração ao terrorismo por parte de alguns muçulmanos “devidamente legitimada pelas principais autoridades islâmicas”.

Considerando que há uma possibilidade gigantesca de surgir um leitor ingênuo afirmando que a Universidade al-Azhar – também conhecida como Universidade do Cairo – e outras instâncias religiosas importantes podem ter “mudado de posição” em virtude dos “belos ursinhos e velas” colocados por ocidentais em locais onde o Estado Islâmico promoveu massacres, resolvi pesquisar o assunto, o que os meus caros colegas jornalistas não costumam fazer em casos envolvendo a ortodoxia islâmica, eis que, o Papa Francisco e Obama já afirmaram que o Estado Islâmico não representa  o verdadeiro Islã e os “jornalistas-ativistas” corroboram o discurso sem consultar importantes fontes no mundo árabe. Afinal de contas, a voz do Papa é a “voz de Alá”!

Como “quem procura, acha”, descobri o que tantos “especialistas” e “comentaristas” não identificam dada a preferência pela opinião papal, que certamente é “versada” na jurisprudência islâmica.

No mês de agosto, o Grande Mufti do Egito, Shawki Allam, participou de um programa na TV egípcia Sada Al-Balad, sendo indagado pelo entrevistador da seguinte forma: “as pessoas criticam o ‘establishment religioso’ egípcio como um todo por falhar até hoje, para declarar o ISIS como incrédulos. Qual a razão subjacente a essa decisão? Por que Al-Azhar, Dar Al-Iftaa e o establishment religioso egípcio se abstêm de declarar o Estado Islâmico como incrédulo[6]?

A resposta da autoridade islâmica, que deveria suplantar a opinião dos famosos ocidentais ignorantes vistos como “infiéis pelo Islã, foi simples e objetiva: “Isto não é sobre o ISIS, mas é questão de uma determinada metodologia. Qualquer um que diga: “Não há Deus senão Allah e Muhammad é o mensageiro de Allah”, e entra no Islã, proferindo essas duas shahadas , não pode sair do aprisco do Islã, a menos que ele renuncie a estas palavras. Não importa o que ele faça com sua vida, desde que não renuncie a estas palavras, isso não leva a sua expulsão do aprisco do Islã “.

Então, a descredibilizada imprensa ocidental “inocenta” as autoridades islâmicas no mundo árabe e no Egito, enquanto a população desse país pressiona as suas lideranças para se posicionarem contra o Estado Islâmico e elas continuam – como já faziam em 2014 – atestando a “natureza muçulmana” do grupo que mata não somente infiéis cristãos, xiitas, yazidis e outros mais. O grupo também mata muçulmanos considerados “apóstatas! Mas, esse fato é irrelevante para a ortodoxia islâmica egípcia porque os “carniceiros” do Estado Islâmico já pronunciaram a shahada (testemunho de fé da religião reconhecendo a divindade de Alá e o ofício de profeta atribuído a Mohammad).

A universidade Al-Azhar declara muçulmanos que pregam “tolerância” como “apóstatas”, mas continua se recusando declarar a “apostasia” de assassinos covardes, porque, na concepção ortodoxa das principais autoridades religiosas egípcias do “Islã da paz”, o “testemunho de fé” do muçulmano é mais importante do que tentar impedir os atos de terror em nome de uma ideologia que justifica o massacre de inocentes.

Dessa forma, considerando a covardia prevalecente nas redes e na grande mídia, a perversidade das autoridades islâmicas egípcias terá como “prêmio” a impunidade por “legitimar” as ações internas de um grupo terrorista genocida, que segue imbatível provocando um verdadeiro “mar de sangue” inundando o Egito do “Islã moderado”.

[1] http://www.dailymail.co.uk/news/article-5118549/Imam-reveals-terror-Egypt-mosque.html
[2] http://oglobo.globo.com/mundo/duas-explosoes-em-igrejas-no-egito-causam-44-mortos-mais-de-cem-feridos-21184147?ModPagespeed=on
[3] https://oglobo.globo.com/mundo/ataque-mesquita-no-egito-com-tiros-bombas-deixa-235-mortos-22108321
[4] https://www.memri.org/reports/isis-sinai-and-its-war-sufis-%E2%80%93-isis-official-weekly-al-naba-specifically-mentioned-al-rawdah
[5] https://artigos.gospelprime.com.br/imprensa-muculmanos-e-o-discurso-de-odio-contra-cristaos-no-egito/
[6] https://www.memri.org/tv/egypt-grand-mufti-no-authority-to-pronounce-isis-unbelievers/transcript



Andréa Fernandes

Andréa Fernandes

Advogada, Internacionalista, Jornalista, Colunista no Gospel Prime, Raciocínio Cristão, e Blog Ecoando a Voz dos Mártires, Fundadora e Porta-Voz do Movimento Nacional pelo Reconhecimento do Genocídio de Cristãos e Minorias no Oriente Médio e Diretora-Presidente da ONG Ecoando a Voz dos Mártires, que milita denunciando violações dos direitos humanos no mundo muçulmano objetivando fomentar conscientização humanitária para socorrer as vítimas da intolerância religiosa.


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