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Carta a um jovem pregador assembleiano

Não se deixe levar por pregadores que exibem sua eloquência trajando ternos ofuscantes, calças muito apertadas e sapatos reluzentes de bico ultra fino.


Carta a um jovem pregador assembleiano

Prezado Lomanto Nébias,

A paz do Senhor,

Espero que esta missiva lhe encontre em perfeita saúde, junto à sua querida família.

Escrevo-lhe porque vejo que você é um menino talentoso e promissor, ávido por pregar a Palavra, muito envolvido nas atividades da igreja e útil à evangelização. Com os seus 20 anos, tem muita estrada pela frente!

Aproveitando-me da amizade que temos, e da comunhão que Cristo nos propicia, tomo a liberdade de lhe deixar aqui algumas considerações acerca da pregação no contexto pentecostal, especialmente assembleiano, porque – repito – sinto que você foi chamado para a pregação do Evangelho.

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Se você me permite, percebo que gosta de acompanhar as tendências atuais, ditadas por congressos de última hora, onde pregadores exibem sua eloquência trajando ternos ofuscantes, calças muito apertadas e sapatos reluzentes de bico ultra fino. Não raro, tais pregadores interpretam a Bíblia alegoricamente, vendo-a como colcha de retalhos e baú de que podem extrair tudo o que quiserem (as alegorias da Bíblia devem ser interpretadas biblicamente, mas a Bíblia não deve ser interpretada alegoricamente).

Distribuindo supostas promessas e declarações divinas, esses pregadores aparentemente fervorosos arriscam-se a tomar o nome de Deus em vão, abusando de “palavras fictícias”, para usar uma expressão de Pedro (cf. II Pe 2.3). Esses homens (e agora também mulheres, certo?) tornam-se celebridades gospel do meio pentecostal e “neopentecostal”.

Você nasceu em 1998, e pensa que a Assembleia de Deus sempre foi assim, mas não foi. Eu, com os meus 41 anos, tive nos anos 80 e início dos 90 uma formação pentecostal histórica numa igreja do interior baiano, e sei como era pregada e ensinada a doutrina pentecostal. Tínhamos nossas limitações, até em virtude de fatores de matiz social, mas até hoje me sinto um privilegiado por ter, na minha Assembleia de Deus de origem, santos homens e mulheres de Deus que me são referência na fé e na conduta.

Vi quando, na década de 90, floresceu entre nós a “meninice”, que hoje pode ser conhecida como “movimento do reteté”. Vi também quando, na virada do milênio, a teologia da prosperidade se infiltrou de maneira incisiva. De lá para cá temos sido acossados por triunfalismo, G12, movimento judaizante, politicagem, distorções da doutrina (bíblica) de batalha espiritual, mas nada disso constitui a doutrina, a teologia e o ethos pentecostal.

O que define doutrinariamente um pentecostal clássico ou histórico é a sua fé na doutrina do batismo no Espírito Santo como revestimento de poder, evidenciado inicialmente por línguas, o que está intrinsecamente vinculado à doutrina da atualidade dos dons espirituais. A isto se associa a esperança na volta iminente de Cristo para buscar Sua Igreja, além de uma soteriologia arminiana, muito parecida com a teologia dos movimentos herdeiros do wesleyanismo.

Sendo assim, caro Nébias, não se trata de bairrismo, mas de identidade e confessionalidade, valores necessários ao fortalecimento da fé, para que não sejamos como “meninos inconstantes, levados em redor por todo vento de doutrina” – para empregar uma frase do nosso amigo Paulo (cf. Ef 4.14).

Você já deve ter ouvido falar que o pregador pentecostal até os anos 80 era caracterizado por fervor, autoridade, unção, e podia até ser chamado de “chato” por falar de Bíblia o tempo todo, mas não era acusado de sensacionalismo nem de dar escândalos. Pregadores assembleianos eram um retrato do povo, não uma elite formidável em torno da qual giram controvérsias dignas de páginas de fofocas.

Por isso, meu amigo Lomanto Nébias, jovem servo do Senhor, peço a você, com temor e tremor, que reflita, à luz da Bíblia, acerca da espiritualidade pentecostal, da importância de uma boa teologia e do papel da pregação no contexto evangélico. Espero sinceramente que você cresça muito no ministério cristão, porque para isto foi vocacionado.

Sugiro-lhe, ainda, que se aproxime tanto da teologia pentecostal como de livros e materiais que lhe possam ajudar quanto à solidificação de uma cosmovisão protestante, algo que será de grande valia para a compreensão de temas sociais, culturais e existenciais.

Coloco-me à sua disposição.

Em Cristo,

Alex Esteves.



Ministro do Evangelho na Assembleia de Deus em Salvador/BA. Membro do Conselho de Educação e Cultura da CONFRAMADEB. Bacharel em Direito. Casado e pai de três filhos.

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