Tenho chamado de Deus para sua obra, mas minha esposa discorda. O que eu faço?

Que é que se faz quando um homem, líder em algum trabalho na igreja, respeitado pela comunidade, aprovado pelos seus pares, se depara com esse momento?


Tenho chamado de Deus, mas minha esposa discorda

esse artigo adota a abordagem a respeito do chamado para a obra de Deus, segundo a orientação assembleiana – a saber, desligar-se da vida secular para dedicar-se em tempo integral em prol do Evangelho, submisso a alguma igreja ou ministério – e não tem a menor intenção de se delongar discutindo a miríade de tecnicismos vazios que porventura povoem o imaginário dos estudiosos atuais da teologia sobre o termo.

Sua pretensão é bem mais simplória e definida, focando-se nesse problema prático que assoma os casais das igrejas evangélicas modernas e, quiçá, jogar alguma luz no sentido de orientar aquele que esteja vivendo sob o peso desse dilema.

Que é que se faz quando um homem, líder em algum trabalho na igreja, respeitado pela comunidade, aprovado pelos seus pares, se depara com esse momento? A melhor decisão passa por ambos os cônjuges? Segue ou não o chamado?

Há tempos atrás tive a oportunidade de ler um artigo do Pr. Dean Niewolny que tratava desse assunto. Era sobre um membro de sua igreja que havia procurado-o para comunicar sua inquietação e a incerteza que o incomodava e, ao mesmo tempo, o instigava a abandonar sua promissora carreira no setor financeiro em prol do seu chamado. Ocorre que o sujeito apresentara-se sozinho no momento da declaração que afetava diretamente a ambos os cônjuges.

Pr. Dean Niewolny não teve dúvidas em interromper abruptamente a conversa naquele ponto. Expôs convictamente que ele deveria estar com esse ponto muito bem definido em sua decisão, antes de prosseguirem aquela conversa: “Você deve chegar a um acordo com sua esposa antes, meu caro, caso contrário, será um desastre para a vida do casal”. O homem ficou congelado diante de tamanha assertividade e clareza no recado vindo do pastor.

Uma sugestão que o pastor deu ao homem foi interromper imediatamente sua iniciativa sobre o assunto e fazer um exercício de diálogo com sua esposa baseado apenas em 3 perguntas: Quais eram os sonhos e planos dela num prazo de 1 ano, 3 anos e 10 anos? E cada resposta deveria se desdobrar em 3 níveis: 1° – dela como indivíduo em relação a Deus, 2° – dela em relação ao casal e 3° – deles como família.

Esse método, ele deu o nome de “alinhar os passos ou a marcha”. As ambições para o futuro deveriam coincidir ou serem congruentes com as expectativas um do outro.

Sei que para muitos casais isso é questão resolvida, pois se conhecem desde a adolescência ou algo parecido; cresceram na mesma igreja, na mesma comunidade e um sabe claro e evidente a respeito do chamado ou vocação do outro para a obra de Deus e talvez, isso até tenha influenciado na decisão de um matrimônio.

Mas há muitos casais que se conheceram por variados caminhos e chegaram a igreja pelas mais diversas ocasiões, o que pode dificultar numa tomada de decisão dessas.

Uma grande dificuldade que sempre vai se impor, é a enorme pressão que a sociedade exerce sobre o indivíduo em relação ao futuro. Isso pode causar grande confusão, pois são coisas absolutamente distintas; as expectativas que o mundo tem em relação às pessoas e o chamado de Deus. Portanto, aquele que resolve atender a voz de Deus terá que encarar o fato que suas decisões serão desalinhadas com as expectativas do mundo.  “Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; (…)” 1 Coríntios 3:19.

Outra questão a considerar é sobre o que sua esposa terá que renunciar com a decisão. Está claro para ela as consequências de uma decisão dessas? Ela tem noção e está minimamente avisada da exposição e privações que porventura pode passar? Será que tomada a posição, no decorrer da caminhada, as “cebolas do Egito” (Números 11:5) não virão à discussão sempre que a situação apertar? Nunca podemos nos esquecer dAquele que nos amou de tal maneira que nos deu seu único filho para que não perecêssemos.

A Bíblia está recheada de exemplos de pessoas que tiveram definido seu chamado e o longo tempo transcorrido até assumirem suas funções. Apenas a título de exemplo, podemos citar Moisés, que teve um período de preparação na convivência com a classe que comandava o Egito e foi tido como um homem de alta notoriedade e conhecimento, depois há o período dele como pastor de ovelhas no deserto, até ouvir a Voz de Deus vindo da sarça que ardia e não se consumia, e por fim, assumir a posição de líder que resgatou o povo hebreu da escravidão no Egito. Encaradas como uma jornada, todas essas etapas foram como um treinamento adequado para a grandiosa tarefa que Deus havia incumbido a Moisés. Quando Deus chama alguém, nunca se trata de um chamado de urgência e atabalhoado, tipo um “freelance”, com marido abandonando esposas, ou vive-versa em prol da causa do Reino. Antes, trata-se de um processo longo, que tem relação com até o seu último segundo de vida nessa terra. É lento e passa pela lapidação de caráter por anos a fio e vai tendo seu propósito revelado no decorrer da caminhada. Quando Deus deu a ordem a Abraão, “Sai-te da tua terra,” (Gênesis 12:1) essa era a única coisa que ele tinha: um ordenamento econômico em detalhes e sem garantia alguma do que ele ganharia com a decisão, unicamente baseado na fé.

O chamado, assim como podemos aprender com os modelos da Bíblia, deve ser encarado de uma perspectiva panorâmica e nunca como um recorte isolado de um período da sua vida. Deve ser encarado como o apóstolo Paulo fala de forma brilhante e poderia até ser escolhido como um epitáfio: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.” 2 Timóteo 4:7.

Assim como o cristão deve entrar no casamento esperando uma separação apenas com a morte de um dos cônjuges, a despeito de toda a adversidade que tenham que enfrentar, assim também aquele que assume a decisão de submeter-se ao chamado específico do Mestre, deve encará-lo da mesma forma, como algo superior a si mesmo que vale a pena todo o sacrifício, todas as renúncias e toda a disciplina necessária. Deve sempre com toda sinceridade e pureza de coração poder dizer: “Valeu a pena! Fiz o que estava ao meu alcance, não fui negligente, muito menos covarde”.

Você que sente seu coração queimando com o chamado para a obra – e é casado – tem a obrigação de compartilhar isso com sua esposa, pois o Eterno te dará o tempo, as condições e a estratégia necessárias para tomarem parte juntos, como ceifeiros da seara dEle. Não há motivos para esconder de sua esposa aquilo que começa a crescer e criar raízes profundas em seu coração e vai tomar cada dia mais importância em suas decisões.

Seja corajoso, não intimide-se diante das ideologias que desviam e jogam fumaça sobre princípios divinos que, quando quebrados, tornam-se em malefício para a sua vida. Um deles é assumir o papel de sacerdote do seu lar, retomar a posição de cabeça do corpo e conduzir a ambos para aquilo que Deus tem para a vida da família.

Aquele que bota a mão no arado deve estar preparado para renunciar às coisas desse mundo. Assim como um homem casado deve abrir mão das liberdades da vida de solteiro e sacrificar-se em favor do seu matrimônio e da sua esposa, respeitando-a e amando-a assim como recomenda o apóstolo Paulo em Colossenses 3:16: “Vós, maridos, amai a vossas mulheres, e não vos irriteis contra elas.”

Procure um discipulador que ensine-o, inspire-o e auxilie-o no engajamento da seara do Senhor. Que seja o amigo pronto para ouvi-lo, sem julgar, nas horas difíceis da caminhada. Lembre-se que o chamado é do Senhor e não seu. Você é o instrumento que deve estar disponível para Ele usar. Não seja seduzido pela era da selfies, das amenidades, não encare seu chamado como uma carreira cujo objetivo é viver de tentar cavar conexões pessoais que sirvam como escada e podem encurtar o seu  caminho da escalada social, aprimorar seu marketing pessoal e coisas do tipo. Só um caráter firme e enraizado na Palavra pode saber dicernir entre a verdade e as aparências. Saiba que o mundo secular oferece melhores e mais lucrativas oportunidades e que não o tornarão um pecador, apenas o livrarão de ser um hipócrita e correr uma carreira em vão.

É valido lembrar a passagem do apóstolo Paulo quando ele diz que “(…) ninguém se comova por estas tribulações [pelas quais ele passava]; porque vós mesmos sabeis que para isto fomos ordenados,” (1 Tessalonicenses 3:3), pois isso será muito útil para que você não faça sua escolha movido por reconhecimento pessoal, por um título, por vaidade ou coisa do tipo.

Talvez em sua decisão, você vai deixar de fazer dinheiro para fazer a diferença na vida das pessoas, mas mais que isso, você cumprirá os planos de Deus e isso tem reflexos na eternidade.

Deus o abençoe e ilumine na sua decisão: “Fiel é o que vos chama, (…)” (1 Tessalonicenses 5:24).



Moisés C. Oliveira

Moisés C. Oliveira

Formado em Letras (Literatura Inglesa e Portuguesa), pastor assembleiano, professor da EBD e de teologia, residindo em São José, SC.


Deixe seu comentário!