Quanto tempo seu filho merece?

As crianças estão desde pequenas algemadas a falta de tempo.


Quanto tempo seu filho merece?

Era sábado e eu estava com um amigo indo deixar sua pequena filha Giovana (de uns 6 anos) na aula de inglês.

Recordo que o dia mal tinha nos dado bom dia e nós já estávamos ansiosos pelo trânsito afora, apressados para não chegarmos ainda mais atrasados na escolinha de inglês.

Enquanto o farol parecia eternamente fechado, reparei uma criança do lado de fora, que de mãos dadas com sua mãe tentava se equilibrar nas rodas dos patins.


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Diferente da Giovana, essa criança logo cedo brincava.

Usei a criança com patins lá fora a nossa vista como ponto de contato para puxar assunto com a Giovana.

– Você tem patins, Giovana? – Eu perguntei

– Tenho sim, mas não tenho tempo de andar – Ela respondeu

Não sei muito sobre a Giovana, meu amigo disse que ela nasceu de 8 meses. Fiquei imaginando sua mãe gestante dentro do carro com a bolsa estourada cheia de pressa para chegar logo no hospital, sentindo medo de não dar tempo e acabar tendo a Giovana no carro.

Giovana de fato chegou no mundo antes do dia esperado, mas mesmo assim o que parece é que agora ela vive atrasada nele.

As pessoas não suspiram por ar, suspiram por tempo. Procuram o tempo como que desesperados.

O buscam como cegos tateando. Mas nunca o encontram o esperando.

Vivemos correndo e não encontramos tempo para parar de correr.

Vejam a perversão que se transformou a vida pós-moderna.

Giovana desde 1 ano de vida já passa 9 horas por dia na escola e agora um pouco maior; ainda tem que fazer inglês, natação e balé.

Os pais de Giovana estão investindo tudo que tem nela desde cedo, querem produzir um adulto de alta performance, estão muito preocupados com o seu futuro, só estão esquecendo do seu presente (criança).

Importante agora para seus pais não é seu presente, é o orgulho que sentem de sua filha. Quando estão no convivo social, Giovana é como um troféu, a melhor filha do mundo. De fato, o pouco que estive com Giovana ela me

pareceu mesmo ser uma menina superinteligente, diferenciada das outras de sua idade, quase um adulto-mirim.

Mas será que tudo isso vale a pena?

Proibimos as crianças de se melar com o chocolate, comer guloseimas, deixar o quarto bagunçado, mas as deixamo-nas vulneráveis à inversão de valores da nossa sociedade pós-moderna.

As crianças estão desde pequenas algemadas a falta de tempo.

A última coisa que quero ensinar para meus filhos é interpretar as horas, vou lhe proibir os palavrões assim como palavras do tipo: “que horas são”, “estou atrasado”, “já estou indo”.

Não quero lhe ensinar a ser descomprometido, mas antes de lhe ensinar a importância que tem o cumprimento de horários e agenda (a ter disciplina) quero lhe ensinar a ser criança.

E quem sabe ele aprenda…. e quem saiba ele me ensine a ser como ele (a brincar mais e a correr menos)…  pois das crianças é o reino de Deus.



Alan César Corrêa

Alan César Corrêa

Casado, pai do Nicholas e Ana Julia, reside em São Bernardo do Campo -São Paulo. Bacharel em teologia, pós graduado em Religião e Cultura, pastor na Igreja UrbaNova, escreveu o livro: "Dissidentes da Igreja" pela Editora Reflexão e "Em Estado de Graça" pela editora Garimpo. E-mail: [email protected]


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