Como os métodos afetam a interpretação do texto

O hermeneuta deve primar pela consistência do método adotado com os objetivos pretendidos, se quiser manter íntegra sua interpretação das escrituras sagradas.


Como os métodos afetam a interpretação do texto

Métodos de interpretação interferem diretamente no significado de um texto, seja ele sagrado ou não. As questões levantadas pelo interprete estão subordinadas aos métodos interpretativos adotados e guiam-no na sua abordagem ao texto.

A depender do método adotado, sobressai-se uma ou outro tema, em detrimento de outros, consciente ou não, ao menos algum aspecto do texto fica negligenciado. Isso também não é exclusividade da interpretação bíblica, mas também fato observado e muito criticado na teoria literária. Exemplo prático disso é a abordagem tendenciosa que o filósofo húngaro György Lukács aplicou nas suas interpretações literárias, utilizando obras literárias como instrumento político para justificar suas ideias socialistas.

Alguns estudiosos da escola teológica norte-americana concordam com a abordagem dos três mundos do texto. Recurso muito eficiente para classificar os métodos interpretativos. A saber, (1) o mundo do texto, o (2) mundo do leitor desse texto e (3) mundo que criou esse texto. Ocorre que a crítica bíblica das décadas de 60 e 70 do século passado transferiu o eixo do interesse teológico disseminando-o para o crescente número de métodos literários.

Nas metodologias dessa época destacava-se muito mais a crítica narrativa, a crítica retórica, o estruturalismo e a abordagem linguística. Ao final da última década do século 21, houve novo deslocamento do eixo de interesse, espraiando-se ainda mais em direção a questões contemporâneas, tais como significado, entendimento, referenciais, objetividade, história, entre outros.

Na perspectiva das variantes do método de orientação histórico-crítico, um texto significa aquilo que o seu intérprete pretenda que signifique. Ou seja, uma interpretação está sempre subordinada ao interesse do intérprete, à subjetividade, aos seus interesses políticos e ideológicos. Para apoiar essa visão inclusive é criada toda uma cadeia semântica herdada de outras disciplinas distantes da teologia, com novos significados para questões que sequer sabia-se existirem, tais como: estrutura patriarcal, metanarrativa masculina, estruturas de poder, grupos marginalizados e por ai vai. Essa postura desembocou na abertura para a inclusão de questões de raça, gênero, ideologia e preferência sexual na prática da crítica bíblica.

No percurso desse ressequido caminho de distanciamento da essência do texto sagrado, da sua razão única de ser, o homem distancia-se igualmente, na mesma proporção, dos propósitos divinos e passa a buscar egoisticamente no texto sagrado respostas para perguntas de ordem inferior. O apóstolo Paulo nos dá uma preciosa dica em 1 Coríntios 15:19, quando diz: “Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens.

Nesses casos, o objetivo do autor durante sua abordagem ao texto é de suma importância, haja vista, que se o eixo de interesse estiver postado na satisfação desse ou daquele interesse ou tema, subordinados pela abordagem, logo o texto deixa de servir ao propósito para o qual foi escrito, submetendo-se para satisfazer aos mais escusos imagináveis.

A hermenêutica é crucial nessa fase, dada as possibilidades que se abriram diante de numerosas  metodologias interpretativas surgidas. O pastor e teólogo norte-americano Robert J. Morgan, argumenta que “Levítico é lido pelos judeus como texto sobre leis religiosas, como fonte de história religiosa por historiadores e antropologistas e por cristãos, talvez, como tipologia ou uma anacrônica teologia com uma ou outra exortação moral” (Morgan and Barton, Biblical Interpretation, p.12). Quando nos esquecemos dos conselhos do apóstolo Paulo em 1 Coríntios 15:19, termina que um texto passa a ser uma massa discursiva disforme sem significado objetivo, usada como instrumento de coerção ou manipulação, cujo texto, a princípio, redigido com um propósito específico, passa a ter significados distintos para distintos leitores em distintas épocas.

O objetivo interpretativo ordena o método interpretativo, do mesmo modo que o literato emprega métodos literários na sua abordagem, o historiador, métodos históricos, assim é com o teólogo ao aplicar a abordagem teológicas na sua interpretação, a menos que esse não seja seu interesse. Cada método se apoia em pressupostos que guiam a formulação de questões aplicadas ao texto e suas respectivas respostas.

Martin Dibelius, Rudolf Bultmann e Vincent Taylor são autores com interpretações marcantes no cenário teológico do século passado que ainda repercutem na atualidade pelos objetivos que adotaram em suas abordagens interpretativas. Apenas como exemplo do zelo que o interprete deve ter na escolha do método, podemos citar o teólogo alemão Rudolf Bultmann, muito influenciado por ideias progressistas vindas de intelectuais europeus – entre eles o filósofo Martin Heidegger – que chega a propor que as narrativas dos milagres operados por Jesus foram concebidos como propaganda para seu ministério e com propósitos apologéticos, além da sua controversa teoria da “desmitologização” das narrativas bíblicas (Rudolf Bultmann, The History of the Synoptic Tradition, Oxford, 1963).

O hermeneuta deve primar pela consistência do método adotado com os objetivos pretendidos, se quiser  manter íntegra sua interpretação das escrituras sagradas. Diante dos métodos disponíveis há duas possibilidades: ou permanecer ignorante diante dos seus pressupostos e implicações ou adotar conscientemente um método que satisfaça seus objetivos em detrimento de outros possíveis.

Para responder às perguntas levantadas com o deslocamento do eixo de interesse posicionado sobre a curiosidade leviana e o individualismo contemporâneos, há disponível um miríade de sabores adequados aos mais diversos gostos, que vão desde o método histórico crítico, ao feminista, freudiano, existencialista, estruturalista, desconstrucionista, crítica narrativa, marxista, crítica canônica, Nova Crítica, formalistas etc. Dessa forma, vai tornando-se cada vez mais difícil, escolher um caminho nesse emaranhado competitivo de métodos disponíveis para interpretar o texto.

Já que não é possível uma interpretação adequada e íntegra sem um método rigoso e sabendo-se que o método implica no foco e destaque de determinado tema ou elemento do texto, é de suma importância a escolha do método adequado ou até mesmo um combinado de métodos coerentes com o objetivo proposto.

Método centrado no autor

Defende o ponto de vista na qual o texto é fruto da criação de uma mente individual e para ser plenamente atingida, sua interpretação correta deveria focar esforços em conhecer mais sobre a mente ou sobre o universo individual que criou o texto abordado.

Método centrado no texto

Trata o texto como um artefato literário capaz de cobrir todas as realidades da vida e tem uma existência independente do autor, a partir do momento em que se transforma de ideias na mente do autor e assume a forma de um texto perene, seja em livro ou outro meio. Não há significados fora do texto e portanto a eficácia da interpretação é o diálogo com o próprio texto.

Método centrado no leitor

Reconhece que um texto sem um leitor não tem eficácia alguma. Seu poder reside justamente na presença do leitor ativo. Leitor e texto complementam-se durante a leitura ativa, um propondo temas o outro retirando do texto respostas a questões vindas a partir de fora do texto, numa espécie de simbiose.

Para concluir, fica a citação de um texto apologético da era patrística, brilhante, muito útil para os cristãos contemporâneos diante da diversidade de abordagens disponíveis para a interpretação das Escrituras;

Sob pretexto de gnose afastam muitos daquele que criou e pôs em ordem este universo, como se pudessem apresentar alguma coisa mais elevada e maior que o Deus que fez o céu e a terra e tudo o que eles encerram”.  (Ireneu de Lião, Contra as Heresias – Denúncia e refutação da falsa gnose. 2ª edição, Paulus).

Bibliografia
TATE, W. Randolph. Interpreting the Bible: A Handbook of Terms and Methods; Hendrickson, 2006.
BARTON, Morgan and. Biblical Interpretation; Oxford Bible Series; 1988.
BULTMANN, Rudolf. The History of the Synoptic Tradition; Oxford; 1963.
LIÃO, Ireneu de. Contra as Heresias – Denúncia e refutação da falsa gnose; Paulus; 1997.



Moisés C. Oliveira

Moisés C. Oliveira

Formado em Letras (Literatura Inglesa e Portuguesa), pastor assembleiano, professor da EBD e de teologia, residindo em São José, SC.


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