Corrupção x maturidade

Todos temos ambição. Saber dosar o que queremos com o que podemos, e como e se podemos, é que é a grande questão.


Corrupção x maturidade

“Filho, coma pelo menos um pouco”, diz a mãe na hora do almoço. “Mas mãe, eu não quero, não tô a fim”, responde o garoto. “Se você comer, a mãe te levará ao shopping mais tarde. Que tal?”, propõe a mãe. Vislumbrando a oportunidade de se divertir mais tarde e, quem sabe, até ganhar um presente quando estiver passeando pelo shopping, o filho, de imediato, começa a comer.



Cenas de trocas são comuns entre pais e filhos na maior parte dos lares brasileiros. Claro que não vou afirmar, mas vou defender que esse tipo de atitude pode ter bastante influência na cultura da corrupção praticada em todas as esferas da nossa sociedade, estando elas no poder ou fora dele.

Esse tipo de troca –– penso eu –– acaba incutindo no subconsciente da criança que para que ela possa fazer alguma coisa em benefício próprio ou que esteja em consonância com os acordos sociais, precisa ganhar algo como contrapartida.


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Mas esse tipo de troca não é uma troca propriamente dita, mas, sim, uma forma de suborno, pois o pai/mãe para conseguir o que quer, não usa sua autoridade, mas um mecanismo que evita os necessários conflitos. Na mente da criança, o suborno passa a não ser ruim, pois permite alcançar objetivos pré-determinados.



A lição que é transmitida à criança é a de que não se deve abrir mão do que quer, e deve tentar alcançar esse objetivo da forma mais fácil possível. Isso redunda num vício que a maior parte dos brasileiros tem: querer ganhar sempre.

Eu me lembro de ter lido e assistido reportagens que mostraram, em 2015, que houve casos de brasileiros que ficaram tão decepcionados com a derrota do Brasil para a Alemanha (7×1) que socaram aparelhos televisores (caros, diga-se de passagem) ou mesmo os lançaram ao chão –– uma atitude histérica típica de uma criança.



Esse ranço do nunca abrir mão do que se quer, é bom apenas quando o que se busca não causa problemas nem a si nem aos outros, e que para alcançar eu tenha condições e o faça dentro dos caminhos da ética.

Não adianta eu querer ser um político para ajudar a amenizar os problemas sociais, se, para tanto, eu tenha que fazer uso de um recurso financeiro para bancar minha campanha que não tenha origem legal. Quem tenta fazer justiça fora dos caminhos da legalidade, cedo ou tarde acaba se perdendo.

O apostolo Paulo disse em sua primeira carta aos Coríntios: “Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança, desde que me tornei homem, eliminei as coisas de crianças” (1 Co 11.13).

Ele falava como criança porque pensava como criança, e pensava como criança porque raciocinava como criança. O uso dos verbos “Falar”, “Pensar” e “Raciocinar” no versículo é muito importante, pois ele explica o processo que nos leva à ação na vida.

O modo como eu raciocino (engreno logicamente meus intentos a partir do que conheço do mundo) determina o modo como eu penso (criamos mais de 34 mil pensamentos por dia, a maioria de modo involuntário) que, por sua vez, determinará o que eu falo e modo como vou agir e reagir no mundo, na sociedade.

O apostolo citou esta pérola em meio ao contexto do viver em conformidade com os ditames do amor. Ele está convidando os cristãos a que busquem o amadurecimento. Ele diz que não agia mais como uma criança, pois “eliminou” tal tipo de comportamento de sua conduta.

Primeiro ele nos convida a vivermos em conformidade com princípios do amor, que sempre valoriza o bem comum. E, em segundo lugar, ele está dizendo que o amadurecimento depende de uma reflexão que fazemos a cerca do nosso modo de ser e agir, e da decisão que tomamos em sair do estado de criança e passar a vivermos no estado de adultos.

A primeira coisa que uma pessoa com maturidade traz consigo é a convicção que não podemos ter tudo que queremos, ainda que sejamos capazes de conseguir através dos meios sórdidos.

Quem vive a maturidade do amor “(…) não busca só o próprio interesse” (1 Co 13.5). Quem não amadurece para viver conforme o amor, segundo Paulo, pode ter tudo o que quiser e mesmo assim não ser nada (1 Co 13.2).

O que nos faz ser alguma coisa não e o que possuímos, mas em quê o que possuímos nos tornou –– A casa que você tem faz com que as pessoas se orgulhem/ se inspirem do modo batalhador como você a conseguiu comprar ou que causa asco pelo modo corrupto como você a conquistou? A diferença está aí.

Todos temos ambição. Saber dosar o que queremos com o que podemos, e como e se podemos, é que é a grande questão.



Fernando Pereira

Fernando Pereira

Jornalista e acadêmico dos cursos de História e de Teologia.


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