Daniela Araújo, pedras e a graça

É preciso que nós sejamos críticos de nós mesmos.


Daniela Araújo, pedras e a graça

Uma famosa cantora gospel, pega em fornicação e uso de drogas, vem trazida pelos arautos do Evangelho, aqueles que denunciam o pecado, sem defesa, carregada pelos braços e com as vestes rasgadas para exibir sua vergonha. Os “góspeis” a jogam aos pés do Mestre e exigem punição.

“Disciplina nessa dissimulada!”, grita uma senhora com pressa para assistir a novela das 8. “Tem que abandonar a carreira, não merece louvar a Deus!”, comenta um jovem guitarrista que reclama quando o pastor pede uma música sem guitarra. “Eu já sabia, olha as roupas que ela usa!”, esbraveja com raiva nos olhos um obreiro puritano que todos os domingos senta em sua cadeira no alto do púlpito, a faz de trono e condena ao menos um ou outro jovem ao inferno por não saberem se portar na casa de tijolos de Deus.



O Mestre olha para a pecadora, em seus olhos, e a tensão aumenta quando ele se volta ao público, e passa a fitá-los, como quem procura por algo. Ele para, solta um suspiro triste e passa a escrever com os dedos no chão: “orgulho”, “egoísmo”, “ódio”…

Quando abre a boca, no entanto, não sobram pedras ou juízes: “Aquele que nunca errou, pode escolher a punição”.

O causo contado é baseado em fatos reais. Provavelmente você viu as notícias sobre a cantora Daniela Araújo, que teve supostamente um áudio vazado por seu ex-namorado onde estaria sob efeitos de drogas, falando palavrões e cujo diálogo evidencia a convivência com o mesmo em fornicação. A autenticidade do mesmo ainda não foi confirmada.



O que me assustou, mais uma vez, foram os comentários acerca do ocorrido. Tais comentários foram alegorizados nessa pequena introdução, mas demonstram a realidade do cruel mundo gospel: se você errar, nós estaremos aqui para lhe trucidar. Onde está a igreja que ama ao próximo como Cristo a amou? Onde está a igreja que alcança o drogado, a prostituta, o assassino, o gay ou o fornicador como Cristo a alcançou, quando ainda estava morta em seus pecados e transgressões, suja de lama e fedendo a enxofre. Parece que os “góspeis” esqueceram de onde Cristo os tirou.

Eu vejo a igreja como um hospital de guerra, analogia que aprendi com algum pastor cujo nome infelizmente não recordo. Num hospital comum você teria os médicos, os enfermeiros e os doentes, uma cadeia simples e natural. Mas no hospital de guerra, os feridos que chegam são tratados por pessoas um pouco menos feridas, mas também soldados. Quando esses feridos estão um pouco melhor, não perdem tempo e vão tratar os que chegam e estão pior do que eles. Uns cuidando dos outros em amor e graça.

Dani, se você ler isto, sei que você está ferida. Você precisa de conserto. Mas eu também estou, eu tenho minhas falhas, tenho meus erros… apenas talvez não esteja tão machucado quanto você, mas estamos juntos, na mesma campanha. Eu te ajudo, você me ajuda, nós nos abraçamos. É isso que acreditamos ser igreja na Igreja Palavra Viva, onde sou pastor.

Daniela Araújo, nesse momento, precisa ser abraçada, cuidada, amada. Esse é o papel da igreja, isso é o que se deve fazer com o pecador. É evidente que ela precisa de conserto! É preciso deixar claro: se o áudio é real, e eu desejo angustiosamente que não seja, o que ele revela é grave, e precisa sim ser tratado com seriedade. Pecado não é brincadeira. De modo algum estou propondo que se negociem princípios! Eu acredito piamente que ela precisa parar e buscar ajuda, ser cuidada, ser tratada.

Mas note que o conserto que Jesus oferece é através do cuidado, através do amor, através da graça, e não através de pedras! Se a mulher adúltera tivesse recebido pedras, teria morrido, mas recebeu graça, por isso foi e não pecou mais. Jesus ofereceu graça à mulher adúltera, e por isso ela viveu. O que você oferece às pessoas? Pedra ou graça?

Não existe outra forma de resolver o pecado, que não a graça. Somente a graça, somente o amor, pode limpar os pecados e libertar uma pessoa da escravidão do erro. Somente com a graça é possível que o pecador vá e não peque mais. Somente a graça traz conserto.

Outro fato interessante é que o modo como nós tratamos o erro do outro tem grande culpa no modo como ele é ocultado. Quando um erro é evidenciado, nós voltamos todas as nossas atenções e destaques para ele, ao invés de voltarmos nossos olhos com amor e sincera empatia para a pessoa que errou. A pessoa deveria ser mais importante que o erro.

Quando isso é a realidade em que se vive, é apenas natural que a pessoa acabe ocultando o erro. Por medo, por vergonha, porque é difícil admitir que está errado e pedir ajuda. É um redemoinho, do qual é impossível sair sem que uma mão graciosa seja estendida. É aí que a pessoa coloca uma máscara, sobe no altar, canta e prega, ostentando uma santidade falsa que ninguém pode alcançar. Não seja uma mão armada com pedras, seja essa uma mão graciosa estendida a todo e qualquer pecador, dentro ou fora da igreja.

É preciso que nós sejamos críticos de nós mesmos. No livro O Evangelho Maltrapilho, Brennan Manning discorre sobre como a honestidade consigo mesmo, enxergar os próprios erros e pecados, nos torna mais graciosos com os outros. Eu te convido a fazer isto. Olhe para dentro de si antes de olhar para o próximo, e ofereça-lhe o que Cristo lhe ofereceu quando você ainda estava morto: graça.

O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros como eu os amei. João 15:12



Filippe D. de Souza

Filippe D. de Souza

Pastor e líder de voluntários na Igreja Palavra Viva, advogado, formado em Direito pela UFSC, cursando Teologia livre pela Unigrace.


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