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É preciso cuidar de quem cuida

Como que "homens de Deus" podem tirar a própria vida?


É preciso cuidar de quem cuida

Menos de um ano depois do suicídio cometido por dois pastores brasileiros, voltamos nossa atenção para mais um triste caso. No dia 25 de agosto deste ano, o pastor de apenas 30 anos, da igreja Inland Hills (Califórnia, EUA) cometeu suicídio, depois de anos sofrendo de depressão e ansiedade. Andrew Stoecklein deixou esposa, três filhos e um legado.

Muitos se perguntam “Como que “homens de Deus” podem tirar a própria vida?”, mas a questão é: o suicídio nunca acontece por acaso. Geralmente ele nasce sob a forma de solidão, frustração, rejeição, traição, pressão… A lista pode ser longa. Esse emaranhado de sentimentos negativos não ‘tratados’ começam a configurar uma depressão ou a síndrome de ‘burnout’ e quando menos se espera o suicídio tornou-se inevitável.

O ministério ExPastors, que atende pastores, ex-pastores e outros líderes cristãos realizou entre setembro de 2016 e março de 2017, uma pesquisa online com 577 líderes cristãos. A análise do estudo concluiu que 86% dos entrevistados sentem que não são capazes de cumprir todas as exigências de sua função, outros 77% sentem que “exigências irrealistas” são esperadas deles e de suas famílias.

Segundo os dados, quando questionados se eles já pensaram em desistir do ministério, 85% dos entrevistados disseram que sim e 64% já duvidaram de seu chamado para o pastorado. Além disso, 58% confessaram que se sentiram feridos e rejeitados pela igreja quando foram convidados a sair ou decidiram sair de seu cargo. Mais de metade dos entrevistados (62%) disseram que lidam com a solidão, 65% sofrem com ansiedade, 39% têm depressão e 29% já lidaram com pensamentos suicidas.

Mais dados alarmantes como estes se encontram em um compilado de estudos do Instituto Fuller, Instituto de Pesquisas George Barna e do site Pastoral Care Inc.: 90% dos pastores americanos disseram que o ministério é completamente diferente do que eles pensavam que seria, 70% dizem que sofrem de baixa autoestima, 40% relatam ter conflitos com membros da igreja pelo menos uma vez por mês, 85% disseram que seu maior problema é que eles estão cansados ​​de lidar com pessoas problemáticas e/ou descontentes, como presbíteros, diáconos, equipes de louvor, outros líderes e pastores auxiliares.

Além disso, 40% afirmam que pensaram em deixar seus pastorados nos últimos três meses, 70% não têm alguém que consideram um amigo próximo, 50% acreditam que seu ministério não vai durar mais 5 anos, 50% dos pastores sentem-se tão desanimados que deixariam o ministério se pudessem, mas não têm outra maneira de ganhar a vida e 45,5% dos pastores dizem que estão deprimidos ou tiveram um ‘burnout’ e, se pudessem, tirariam uma licença médica por algum tempo.

Essas notícias e informações nos convidam a refletirmos sobre a síndrome de burnout que têm alcançado os ministros de Deus e adoecido suas mentes. A Síndrome de Burnout é um distúrbio psíquico de caráter depressivo, precedido de um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional. Burnout é geralmente desenvolvida como resultado de um período de esforço excessivo no trabalho com intervalos muito pequenos para recuperação e é marcada pela falta de reconhecimento deste profissional.

Trabalhadores da área da saúde são os mais propensos à síndrome pois lidam diariamente com pessoas em sofrimento, ou seja, exercem o trabalho de cuidadores. Considerando isto, acredito que os pastores e líderes religiosos podem se enquadrar nessa categoria, uma vez que lidam intensivamente com o *CUIDAR* do rebanho.

Esse cuidado engloba visitas aos doentes (desde alguém com gripe até alguém com câncer e aids), auxílio financeiro à famílias que passam por necessidade, assistência a enlutados, assistência à casais em litigio, apoio aos que estão deprimidos e ansiosos, lidar com jovens dependentes químicos, com famílias vítima de violência, ser um resolutor de conflitos, etc. Enfim, o pastor deste mundo pós-moderno, além de lidar com essas e outras questões e de preparar os sermões semanais ainda tem de desenvolver diversas habilidades, especialmente na área administrativa.

A atual conjuntura tem exigido do pastor tomadas de decisões que, em outras épocas não eram cogitadas. Diante de tantos desafios e rearranjos ministeriais, o desejo de ser sempre melhor, de ter altos desempenhos e o desejo de valorização pessoal faz com que a vida de cuidador (pastor) se torne uma obstinação e compulsão, levando a um desgaste emocional e físico muito intenso. O estresse e o cortisol conseguem nebular a função cerebral, desequilibrando todo o funcionamento do corpo/mente ao ponto de ‘matar aos poucos’ e ninguém perceber.

Os principais sintomas da Síndrome de Burnout:

Físicos: Exaustão (esgotamento físico temporário), fadiga (capacidade física ou mental decrescente), dores de cabeça, dores generalizadas, alterações digestivas, do sono e sexuais, alergias, dores musculares ou cervicais, gastrite, úlceras, diarreia, palpitações, hipertensão. Na mulher, suspensão do ciclo menstrual; no homem, a impotência. E baixo libido em mulheres e homens.

Psicológicos: depressão, irritabilidade, ansiedade, inflexibilidade, perda de interesse, descrédito na instituição e nas pessoas.

Comportamentais: Evita os irmãos e o contato social, usa críticas, reclamações, adjetivos depreciativos, resiste à mudanças, transfere responsabilidades, descuida de si mesmo, do lazer, faz auto medicação e pode começar a fazer uso de bebidas alcoólicas, ou estimulantes, apresenta comportamentos de fuga (celular, internet, jogos, pornografia, etc.) e recusa ajuda.

O que fazer?

Estar em agonia e sofrimento psíquico não é sinônimo de pecado e nem motivo de escândalo e vergonha. Pastor não é semideus. Pastor não é categoria de anjo. Pastor é um ser humano, sujeito à todos os problemas que seres humanos têm.

No auge do sofrimento de Jesus, bem ali no Getsêmani, enquanto seu suor transforma-se em grandes gotas de sangue que desciam até o chão, o próprio Deus Pai viu que Jesus precisava de ajuda. Sim, quando Jesus orou ao Pai pedindo que afastasse o cálice da sua ira, Deus respondeu-o enviando um anjo para o confortar! Jesus, o Bom Pastor, estava em profundo sofrimento psíquico e altamente sobrecarregado, Ele recorreu à oração, mas Deus sabia que a estrutura humana de Jesus não podia suportar o peso daquele momento sozinho, e se Jesus não pode, não sinta-se culpado por também não conseguir.

“Então lhe apareceu um anjo do céu, que o confortava.” (Lucas 22. 43)

Querido amigo pastor, valorize sua saúde mental, física e espiritual. Tire férias sempre que possível (recarregue suas energias longe do ambiente de trabalho e priorize a privacidade com sua família – ela também sofre), invista em atividades que lhe proporcionem prazer (ter um hobby e se divertir não é pecado), evite o sedentarismo (a atividade física ativa substâncias que estimulam a circulação sanguínea, causando bem estar físico e mental e minimizando os riscos de problemas cardiovasculares, obesidade, etc.) e direcione seu ministério para uma visão qualitativa e não apenas quantitativa (uma vida apenas de ativismo em busca de ‘números’ acaba por sacrificar sua saúde, da sua família e até da igreja). Aprenda a cuidar bem do seu corpo e mente e assim terá muitos anos para cuidar com eficiência na obra do Senhor.

Querido irmão, seja o ‘anjo’ de seu pastor. É preciso cuidar de quem cuida!

Procure ajuda com um pastor ou profissional de confiança:

SARA – Servindo de Apoio, Refrigério e Amizade

Augusto Betzch (46)991244026/ (46)999714570

[email protected]a.org.br



23 anos, casada com o Pr. Luan Tavares, psicóloga, batista pentecostal da Convenção Batista Conservadora. Uma serva que vive intensamente seu chamado!

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