Ela fez o que pôde

E adorou ao Mestre na medida certa.


“Ela fez o que pôde. Derramou o perfume em meu corpo antecipadamente, preparando-o para o sepultamento. Eu lhes asseguro que onde quer que o evangelho for anunciado, em todo o mundo, também o que ela fez será contado em sua memória.” Marcos 14:8-9

Há algum tempo venho meditando nessas palavras. Ouvi um sermão sobre estes versículos pela primeira vez há pouco tempo, em minha igreja. A expressão “ela fez o que pôde” ficou gravada em minha mente e coração, me consolando e confrontando.



Vivemos em uma sociedade depravada, essencialmente materialista e egoísta. Não raramente, vemos imagens e filmagens de pessoas saqueando a carga de caminhões tombados, e o pico de anarquia que dominou o Estado do Espírito Santo neste ano demonstra que, sob os termos de “liberdade plena” (isso o homem natural, não regenerado), o ser humano consegue se tornar um animal irracional, tal como Hobbes o dissera, contrário ao zoon politikón (“animal político”) de Aristóteles.

Esta depravação, manifestada através do egoísmo já citado, abarca as relações entre as pessoas, e dessas com Deus. Somos educados a fazer apenas aquilo que pode nos privilegiar, aquilo que é capaz de nos dar algum benefício, mesmo que seja em detrimento de outras pessoas. Infelizmente isso faz parte de nossa cultura, resultado de uma sociedade caída e mergulhada no pecado.

Nos dois versículos expostos acima, constantes no evangelho de Marcos, vemos precisamente o oposto ao que dito, ainda que os demais versos deem embasamento para a argumentação apresentada, já que era do intuito de Judas vender aquele óleo e ficar com o dinheiro para si (Jo 12.4-6), mesmo que usando os pobres como desculpa para acobertar este desejo.



Maria, ao contrário, tomou o que tinha, algo que lhe custou caro, e derramou sobre Cristo, como um prelúdio do que estava por vir ao Mestre. Ela fez o que pôde, adorando ao Senhor e se prostrando ante a necessidade de Sua morte. Usou o que tinha em suas mãos, e com isso nos deixou lições a serem aprendidas.

Desejo expor quatro tópicos sobre este assunto, que creio serem necessários.

Não fique aquém

Fazer aquilo que pode significa agir com o que você tem em mãos, entendendo que há uma meta a ser alcançada. Ficar aquém daquilo que pode ser feito, ou seja, abaixo das expectativas, é o mesmo que entender a grande tarefa que tem pela frente, mas ignorar tal significado ao não valorizá-la como deve.

Ou, então, mesmo entendendo o que deve ser feito, é também a falta de preparo para isso. Como exemplo, creio que posso citar seguramente o rei Davi. No livro de 1 Crônicas, no capítulo 13, nos é narrada a história de quando o monarca decide, em conjunto com o povo, trazer a Arca da Aliança para o meio do povo de Deus.

Para fazê-lo, entretanto, manda construir um carro de bois. Carro novo, nunca utilizado, e de certa forma dotado de uma carga emocional e simbólica para o rei. Porém, ainda assim, o projeto não fora aprovado pelo Senhor. Por quê? A resposta é encontrada dois capítulos depois, quando Davi entende que a Arca só poderia ser carregada pelos descendentes da tribo de Levi (1Cr 15.2).

Ainda, outro exemplo a ser citado é o de Nadabe e Abiú, filhos de Arão. Encontramos sua história no livro de Levítico, capítulo 10. A história nos conta que estes dois homens introduziram “fogo estranho”, ou “fogo profano”, no culto ao Senhor. Ficaram aquém daquilo que lhes era cobrado.

O que, afinal, faz com que esses dois exemplos possam ser utilizados aqui? A resposta, confesso, me parece simples: em ambos os casos o que se requeria dos envolvidos era apenas uma coisa: observância da Lei do Senhor. Porém, ao não fazê-lo, acabaram por ficar aquém daquilo que lhes era esperado.

Não vá além

Da mesma maneira que podemos, infelizmente, ficar aquém do esperado e desejado para nós, é verdadeira a afirmação de que também é possível ir além do que nos requisitado.

Querido leitor, espero que você não confunda este tópico com “pró-atividade”, mas que entenda minhas palavras como um alerta para que você não faça aquilo que não foi chamado a fazer.

É ótimo, louvável e saudável quando desejamos fazer mais para nosso Senhor, porém, devemos ter a consciência de que há coisas das quais não conseguiremos participar ou realizar, haja vista o ministério específico que pelo Mestre nos foi proposto.

Ora, é precisamente isso que Paulo demonstra aos de Corinto quando escreve sua primeira carta, no capítulo 12, a partir do versículo 11 e até o final do capítulo. Segundo o apóstolo, e cremos que inspirado pelo Santo Espírito, “o corpo não é composto de um só membro, mas de muitos” (v. 14), e, ainda, que os dons e ministérios são distribuídos pelo Espírito a cada um, conforme a vontade dEle (v. 11).

Quando não compreendemos que o Senhor tem chamados diferentes para pessoas díspares, ministérios específicos para determinados momentos e povos, agimos como o rei Saul, e por insensatez tomamos atitudes contrárias à Palavra do Pai. Tal como Nadabe, Abiú e Davi, o primeiro rei de Israel comete um erro grosseiro: não observa os mandamentos do Senhor.

A bíblia demonstra que, tomado pela impaciência, o rei toma as rédeas do culto ao Senhor e, usurpando uma função que não era sua, oferece sacrifício ao Criador. Saul foi duramente repreendido pelo profeta Samuel e teve a ruína de seu trono decretada (1 Sm 13.9-14).

Faça o que pode

Observe o que você tem nas mãos. Entenda o que o Senhor lhe comandou fazer. Veja aquilo que lhe é entregue pelo Pai, para trabalhar nos campos já brancos e prontos para a cega.

“Fazer o que pode” implica necessariamente em observar os mandamentos do Pai, visto que eles nos servem como luz para a caminhada (Sl 119.105), e obedecê-los (Sl 119.11). Essa é a regra fundamental para todo aquele que deseja seguir a Cristo e entregar-Lhe culto ou louvor: deve-se viver atento à Palavra de Deus.

Infelizmente muitos de nossos irmãos se perdem precisamente neste ponto, pois tem “as armas nas mãos”, mas carecem de entendimento bíblico para utilizá-las. O Senhor dota seus filhos de sabedoria, inteligência, criatividade e outras tão marcantes características, mas esses acabam não colocando tais atributos aos pés da cruz de Cristo, e não utilizam os dons dados pelo Pai da maneira correta.

A pergunta de Deus a Moisés, no Egito, ecoa aos nossos corações nos dias atuais: “o que tens na mão?”. O líder de Israel tinha na época uma vara, e a utilizou conforme determinou o Senhor. Maria tinha um vaso de alabastro com um perfume caríssimo dentro, de nardo puro (Mc 14.3), e quebrou este precioso óleo aos pés de Cristo. E você, que tem em mãos? Faça o que pode usando sua profissão, usando seus conhecimentos “seculares”, sua mente e corpo.

Faça para glória de Deus

Por fim, creio que o mais importante: independente do que você fizer, faça para glória de Deus. Eis aí uma verdade que não consigo deixar de citar ou expor sempre que vejo ser necessário. Paulo deixa-a muito clara em 1Co 10.31,

“Portanto, quer comais quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” 1 Co 10.31

E, ainda, o Breve Catecismo de Westminster, em sua primeira pergunta, indaga, para logo responder:

“PERGUNTA 1. Qual é o fim principal do homem?
RESPOSTA. O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre.
Referências: Rm 11.36; 1Co 10.31; Sl 73.25-26; Is 43.7; Rm 14.7-8; Ef 1.5-6; Is 60.21; 61.3”

Tudo o que fazemos deve visar a glória de Deus, posto que Ele é o Soberano Criador de todas as coisas, Rei eterno e transcendente. Que façamos sempre nosso melhor, entregando ao Pai um culto, através de nossas vidas e atitudes, digno de adoração e louvor.

Sob a Graça,

Daniel Rodrigues Kinchescki



Daniel Rodrigues Kinchescki

Daniel Rodrigues Kinchescki

Membro da Igreja Presbiteriana de Florianópolis/SC, escritor e criador do blog "À cruz de Cristo: voltando aos marcos do Evangelho". Bacharelando em Direito, com experiência em liderança de grupos e em lecionar aulas de E.B.D. e palestras.


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