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Eu não sou um lixo

Um meme inofensivo, mas nem tanto


Eu não sou um lixo

A internet é um lugar estranho. Todo dia surgem novas modas e piadas, principalmente aqui no Brasil, local onde somos os campeões mundiais em fazer memes. Uma desses modas, contudo, tem criado um entendimento um tanto distorcido sobre o que é o Evangelho.

A piada começou a se expandir em páginas humorísticas como a South America Memes, e diz respeito aos memes de sad boys, memes feitos para falar de uma real ou fictícia tristeza de vida, onde a piada diz respeito a não ter namorada, a não ter amigos, a não fazer nada direito, a não prestar pra nada…

Algumas dessas piadas tem em comum o motivo “eu sou um lixo”, então vai mostrar alguém se jogando na lixeira, sendo recolhido por um catador, se dizendo reciclável e por aí vai… no campo das piadas, salvo ser bastante preocupante dependendo do histórico da pessoa, costuma ser inofensiva, sendo feita por adolescente e jovens em pleno uso de suas faculdades mentais. Um parêntese: se você conhece alguém que faz uso desses memes com frequência e que de alguma forma demonstre algum aspecto de seriedade naquilo, talvez ele precise de sua ajuda.

Mas o grande problema é que algumas páginas humorísticas cristãs também aderiram a esse meme, principalmente na parte de “eu sou um lixo”, para indicar que não há nada de bom em nós, que os cristãos são tão “lixo” quanto todo mundo, depravados, pecadores, indignos da Graça de Deus. Teologicamente falando, temos um problema.

A identidade cristã

É certo que por minhas próprias obras, eu sempre seria, de fato, um lixo. Minha carne me leva a pensamentos impuros, atitudes egoístas e posturas muitas vezes indignas do Deus que eu digo amar. Afinal, como diz o apóstolo Paulo, em Romanos 7, o bem que eu quero, eu não faço, e o mal que eu não quero, esse eu continuo fazendo. Não é nada de novo, essa é a nossa natureza carnal, depravada, que agirá até a transformação gloriosa de nossos corpos.

De outro modo, é também verdade que nenhuma obra boa que eu fizer será capaz de redimir dessa condição e de me elevar a um patamar de dignidade frente ao Senhor dos Senhores. Isso fica evidente ao ver como a Bíblia chama nossas obras de justiça: Isaías 64.6 nos diz que nossos atos de justiça são como trapos imundos. Então sim, segundo nosso próprio mérito e esforço, não há muita esperança para alcançarmos o padrão esperado por Deus.

Contudo, somos Cristãos, o que, do grego, significa pequenos Cristos; se estendemos, portanto, àquele que representamos, a nossa identidade, o que isso faz de Cristo? Se os pequenos Cristos são nada mais do que lixo, o que será que é o grande Cristo? Felizmente, o Evangelho não se trata do homem estendendo sua identidade, seu mérito, sua dignidade a Deus, mas sim de Cristo, em misericórdia e bondade, estendendo sua identidade aos homens. Somos Cristãos não por alcançarmos a nobreza de Deus, mas sim porque Deus, em sua infinita bondade, nos adotou como Seus Filhos.

Nós ainda pecamos, ainda erramos feio todos os dias, não podemos dizer que somos mais dignos do que ninguém pelas nossas atitudes, verdade, mas acima disso está o sangue de Cristo, que nos lava, nos redime, nos torna Novas Criaturas; em suma, nos dá uma nova identidade, não de “lixo”, mas de Filhos de Deus.

Outro parêntese é necessário: é evidente que o Cristão busca a santidade, sendo cada dia mais parecido com Cristo. Não simplesmente nos conformaremos em pecar todo dia, em cometer erro após erro. Mas até por ser alguém melhor, temos que agradecer a Deus. Afinal, se nos arrependemos, é unicamente por conta de Sua bondade para conosco. Mas isso é assunto para outro texto.

A questão é que quando você, Cristão, assume a identidade de “lixo” que o diabo diz que você tem, por causa dos seus pecados, você está desprezando o sacrifício de Cristo, está dizendo que Ele não fez nada por você. Está dizendo que seu pecado é mais forte e mais poderoso para definir a sua identidade do que o sangue de Cristo.

Eu não sou o que o mundo diz que eu sou, eu não sou o que o diabo diz que eu sou, eu não sou o que meus sentimentos de frustração e inferioridade dizem que eu sou, eu sou o que o meu Pai, através de Sua Palavra, diz que eu sou.

Mas o que, afinal, a Bíblia fala sobre aquele que está debaixo do sangue de Cristo?

A Bíblia diz, em 1 Coríntios 6, que o sangue de Cristo me lava, me santifica e me purifica, enquanto que em 1 João 1.7 diz que o mesmo sangue nos purifica de todo pecado. Ou seja, se eu ainda sou um lixo, talvez o sangue não tenha feito um bom trabalho, pois não existe lixo limpo, santo e puro.

Já em 2 Coríntios 5, somos definidos como “embaixadores de Cristo, como se Deus estivesse fazendo o seu apelo por nosso intermédio”. Como poderíamos representar o próprio Deus, agir em Seu Santo Nome, sendo pedaços nojentos de lixo?

O Apóstolo João vai ainda mais longe, logo no comecinho do livro de Apocalipse, e discorre sobre como Jesus nos ama, tendo nos libertado de nossos pecados e nos constituindo como reis e sacerdotes. O rei é alguém nobre, magnífico, de extrema dignidade; o sacerdote, muito mais. Teria sido Cristo tão desleixado a ponto de nos constituir para exercer reinado e sacerdócio sem que antes tivesse nos tirado da condição de lixo?

Cuidado com as mentiras que o diabo, sutilmente, planta em seu coração. Brincadeiras que parecem inocentes podem levar a entendimentos enganosos sobre o Evangelho. Enquanto você acreditar que é um lixo, não exercerá a autoridade espiritual que lhe foi conferida pela obra de Cristo, não terá a ousadia de realizar obras ainda maiores que Ele mesmo preparou para nós. Entender a grandeza, nobreza e dignidade que o sangue de Cristo lhe confere é essencial para frutificar como verdadeiro Cristão.

Eu não sou um lixo. Apesar de todos os meus defeitos e pecados, isso não me define, o que me define é o Evangelho: eu sou limpo, santo, justo, puro, Filho de Deus, rei e sacerdote.

Amém.



Pastor na Palavra Viva Church, advogado, formado em Direito pela UFSC e em Teologia livre pela Unigrace.

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