Maldição hereditária – a muleta de muitos evangélicos

Ninguém pode amaldiçoar aquilo que Deus abençoou


Existe maldição hereditária?

Em cada época há uma nova “moda”, tanto nos usos e costumes como nas realidades espirituais. Atualmente entre as promoções mais propagadas da época em que vivemos, é a da quebra de maldição que se resume a uma muleta que os cristãos justificam quando alguma tribulação ou provação se faz presente em suas vidas. Quando as relações entre marido e mulher não vão bem, a maldição precisa ser quebrada; os negócios não vão bem, a maldição precisa ser quebra; problema financeiro a maldição precisa ser quebrada. Enfim, tudo é maldição que precisa ser quebrada!

Hoje muitos acreditam que um cristão pode estar debaixo de uma maldição e assim precisa quebra-la pois o persegue há anos desde que ele nasceu, pois foi herdada de seus pais. Todavia a Bíblia não apoia essa ideia: ” A alma que pecar essa morrerá, o filho não levará a maldade do pai, nem o pai a maldade do filho”. ( Ez 18:20)

A Responsabilidade é individual

 Portanto, a Bíblia nos ensina claramente que o pecado é individual. Entretanto, em Israel alguns associavam o fracasso pessoal aos pecados dos antepassados, no entanto a Bíblia reprova tal costume: “Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram? Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, jamais direis este provérbio em Israel”. (Ez 18:1-3) Deus repreende o povo acerca deste provérbio descabido que era proferido em Israel! Acaso Deus seria injusto punindo os filhos em lugar dos pais?

A Bíblia é clara: “De que se queixa pois o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus pecados.” (Lm 3: 39). Haveria como os filhos se queixarem dos pecados de seus pais?

Contudo, este pensamento ainda era muito presente no tempo de Cristo e dos apóstolos, pois, quando o cego de nascença foi curado por Cristo, os discípulos perguntaram a Jesus se o pecado deste era de origem hereditária.

No entanto Jesus foi na contramão deste pensamento o que deslegitima o ensino do pecado hereditário: “Enquanto Jesus caminhava, viu um homem que era cego de nascença. Mestre, perguntaram-lhe os discípulos, porque foi que este homem nasceu cego? Por causa dos seus pecados ou por causa dos pecados de seus pais? Nem uma coisa nem outra”, disse Jesus, mas para nele se mostrar o poder de Deus.” (Jo 9:1-3)

Entretanto, muitos pregadores afirmam categoricamente para o cristão pedir perdão pelos pecados dos seus antepassados, já que, somente assim as maldições hereditárias são quebradas. O que é uma distorção, pois, a luz do texto bíblico, a responsabilidade de cada um é individual, ou seja, cada um de nós dará conta do seu pecado! “De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus.” (Rm 14:12)

De acordo com o pastor e professor Paulo Romeiro:

“Um dos textos bíblicos mais usados pelos pregadores da maldição hereditária para defender este ensino é Êxodo 20:4-6… É preciso que se leve em consideração o assunto do texto aqui citado. De que trata, afinal, tal passagem? Alcoolismo, pornografia, depressão, ou problemas do gênero? É obvio que não. O texto fala de idolatria e não oferece qualquer base para alguém afirmar que herdamos maldições espirituais de nossos antepassados em quaisquer áreas das dificuldades humanas. ” [1]

Evidentemente, o texto de Êxodo 20:4-6 tem sido mal interpretado por muitos, pois uma análise simples do texto em pauta, deixa claro que a maldição alcança até a terceira e quarta geração dos que aborrecem ao Senhor, sendo que naquele contexto aborrecer ao Senhor é a prática da idolatria. Portanto, dentro deste contexto, a benção alcança até mil gerações dos que fazem a vontade de Deus, ou seja, se alguns ensinam sobre maldição hereditária, o porquê não ensinam sobre a benção hereditária?

De acordo com o pastor e teólogo Paulo Cesar Lima:

“Em primeiríssimo lugar, Êxodo 20:5,6 não está falando em transferência congênita, mas sim da durabilidade do juízo divino, ou seja, sempre que houver necessidade de juízo, haverá juízo. Assim como a misericórdia de Deus sempre se manifestará na vida dos fiéis. O texto supra está asseverando, categórica e determinantemente, que o agente punidor da transgressão da Lei é o próprio Deus, que julga aqueles que praticam atos abomináveis, e não algo que passa de geração a geração como um tipo de encantamento. ”[2]

Ninguém pode amaldiçoar aquilo que Deus abençoou:

Quando Balaque rei de Moabe estava em guerra com Israel, ele contratou o vidente Balaão para amaldiçoar ao povo hebreu. No entanto entre suas  idas e vindas com Deus, ele tentou amaldiçoar Israel, mas todas as vezes Deus não o permitiu: “Pois contra Jacó não vale encantamento, nem adivinhação contra Israel…” (Nm 23:23). Portanto,  ninguém pode amaldiçoar aquilo que Deus santificou, ou seja, quando  a pessoa aceita a Jesus e tem os seus pecados perdoados, não importa o seu passado e sim, que a partir daquele momento ele é marcado pela proteção divina e nenhuma maldição do passado, ou hereditária tem poder sobre a sua vida, pois ele se tornou filho de Deus. E qual o pai que não vai proteger os seus filhos?

” pode uma mulher esquecer-se de seu filho de peito, de maneira que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que está se esquecesse, eu, todavia, não me esquecerei de ti.” ( Is 49:15)

A Genealogia de Jesus vai na contramão do ensino sobre quebra de Maldição Hereditária

Os que ensinam sobre quebra de maldição hereditária, deveriam pelo menos avaliar a genealogia de Jesus. Nela encontramos Raabe a meretriz, Rute, que era moabita, ou seja, estrangeira, e nem por isso vemos traços desta personalidade em Davi, nem em José e Maria os pais terrenos de Jesus e muito menos Nele, em Cristo,  o último da lista desta extensa genealogia. Portanto a genealogia de Jesus é decisiva para que possamos concluir que não é porque o avô foi corrupto que o neto irá ser.

Quem está em Cristo encontra-se protegido de toda a maldição

Quando aceitamos a Jesus, temos os nossos pecados perdoados e somos livres de todo o tipo de condenação, pois Cristo se fez maldição por cada um de nós na cruz (Gl 3:13) levando sobre si os nossos pecados e maldições.  Sendo que o seu sacrifício vicário e eficaz nos torna livre de toda a condenação e de toda a lei do pecado:  “Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus seu Filho nos purifica de todo pecado.”(1 Jo 1:7). Cristo riscou a cédula que era contra nós, cravando-a na cruz (Cl 2:14), sendo que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8:1). Não olhe para o seu passado, pois quem está em Cristo nova criatura é (II Co 5:17).

Em Cristo temos a perfeita suficiência

Nenhum Cristão precisa fazer quebra de maldição hereditária, pois os nossos pecados são perdoados em Cristo e nele somos livres de toda a condenação do passado.  Infelizmente, muitos usam a maldição hereditária como uma muleta para justificar algumas práticas, sejam elas pecaminosas ou não. No entanto, devemos como cristãos diariamente buscar a prática do fruto do Espírito que são expressões do caráter de Cristo em nossas vidas.

De acordo com o pastor John Macarthur:

“Há suficiência em Cristo? Absoluta suficiência. O desafio para nós é conhecermos melhor a Cristo, servi-Lo fervorosamente e sermos mais conformados à sua imagem”.[3]

A ação do Espírito em favor de cada cristão vai transformando este de glória em glória de valor em valor, fazendo com que cada cristão se torne mais parecido com Jesus.

[1] ROMEIRO, Paulo. Evangélicos em crise. Editora Mundo Cristão: São Paulo, 1995.
[2] LIMA, Paulo Cesar. O que está por trás do G 12?: Edições CPAD: Rio de Janeiro, 2004.
[3] MACARTHUR, John. A Nossa suficiência em Cristo. Editora Cultura Cristã: São Paulo, 2011.



Orlando Martins

Orlando Martins

Vice-presidente da AD Mais de Cristo em Florianópolis, Pastor-Auxiliar, Bacharel em Teologia e Jornalismo. Especialista em Educação, Mestrando em Teologia na EST. Escritor, Diretor da Faculdade Mais de Cristo. Professor universitário e de matérias teológicas em seminários e faculdades no estado de Santa Catarina. Casado com Cleusa de Oliveira Martins. Pai de Larissa Eduarda de Oliveira Martins.


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