Há relação entre ateísmo e pensamento de esquerda?

O próprio Karl Marx, em sua arrogância, rotulava a religião como o "ópio do povo".


Há relação entre ateísmo e pensamento de esquerda?

Um amigo meu me fez esta pergunta interessante recentemente e, após refletir, resolvi escrever este texto. Em primeiro lugar, o fato de alguém se identificar como de esquerda, a meu ver, não faz desta pessoa um descrente, um ateu. Até porque, a pessoa pode assim se identificar por “n” razões diferentes.

Por exemplo, na cabeça desta pessoa, ser de “esquerda” é ser solidário com os mais necessitados, estar atento aos anseios das minorias, mas, é óbvio que para alguém ser solidário e preocupado com tais questões, ela não necessariamente deve comungar de um pensamento político X ou Y. Penso que isso tem muito mais a ver com o caráter individual que cada um leva dentro de si.

Porém, para mim, o pensamento de esquerda é nitidamente um pensamento secular, ateu, em sua essência. O próprio Karl Marx, em sua arrogância, rotulava a religião como o “’ópio do povo”.

E por que eu vejo o pensamento de esquerda essencialmente ateu? Se formos analisar a literatura de pensadores de esquerda, veremos que eles buscam reduzir a compreensão da realidade humana ao longo dos séculos como uma luta de classes.

De um lado, teríamos os oprimidos, e do outro lado, os opressores. No contexto brasileiro, os oprimidos seriam, nesta linha de pensamento, os negros, as mulheres, os homoafetivos, índios, etc. E os opressores seriam os brancos, classe média/ricos, heterossexuais e religiosos, que buscam impor sua “normatividade” hegemônica contra estas minorias.

Ora, quando se tem um pensamento como este, praticamente não há espaço nenhum, para se acreditar em uma vida futura, em algo espiritual a ser buscado, já que toda a realidade humana ela se resume a este enfrentamento de classes, em um mundo desigual. Orar, ir a um templo, para esse tipo de pensamento, é um nada, é ser infantil, ao querer que algo caia dos céus.

Ademais, para o pensamento de esquerda, as instituições em geral (família tradicional, igreja, exército, polícia, etc.) são vistas como instrumentos dos opressores, ou seja, instância de poder burguês, devendo, portanto, serem atacadas sistematicamente, enfraquecidas ou destruídas.

Assim, alguém que comunga deste pensamento e é de uma igreja, passa muitas vezes a ser extremamente crítico a tudo da igreja, muitas vezes caindo em um cinismo que não se dá conta, pois ao mesmo tempo que critica tudo e todos na igreja, mesmo assim continua ali. E esquece que igreja são pessoas e pessoas sempre existem boas e más em qualquer lugar, em qualquer tempo.

Com efeito, a tendência desta pessoa é ir se afastando mais e mais da igreja e com isso a fé ir se enfraquecendo, quando não sumindo. Atente-se que eu não penso que alguém simplesmente por não ir a uma igreja, não tem fé. Conheço casos isolados que atestam tal possibilidade.

Ocorre que em um mundo extremamente vazio e secularizado como o nosso, onde tudo que vem da igreja, quando é noticiado na mídia, não presta, a tendência de uma pessoa que não congregue em uma comunidade de fé é cair neste mesmo “volksgeist” (espírito da época). Até porque a fé vem do ouvir da palavra. E como ouvir a palavra vindo de um mundo que rejeita a mensagem da cruz?



Leandro Bueno

Leandro Bueno

Procurador da Fazenda/Professor. Membro da Igreja Presbiteriana do Brasil



Deixe seu comentário!