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Ismael versus Isaque: Entendendo as raízes do conflito

“E ele será homem feroz, e a sua mão será contra todos, e a mão de todos contra ele; e habitará diante da face de todos os seus irmãos” Gênesis 16:12


Ismael versus Isaque: Entendendo as raízes do conflito
Ismael versus Isaque: Entendendo as raízes do conflito

 A relação entre Ismael e Isaque está registrada na Bíblia Sagrada. A impaciência na espera da promessa divina de que Abraão (já idoso) e Sara (além de idosa, estéril) teriam um filho levou os patriarcas a utilizarem de um expediente legal e cultural da época: em que Agar, a escrava de Sara, se tornaria uma espécie de mãe de aluguel; contudo, o filho dessa união, Ismael, seria considerado legalmente como filho de Abraão e Sara. O que de fato se consumou, porém, não sem criar uma grande rivalidade entre Sara e sua serva (Gn.16:2-4).

Deus envia seu anjo para salvar Agar e seu filho Ismael: “Disse-lhe também o anjo do Senhor: Eis que concebeste, e darás à luz um filho, e chamarás o seu nome Ismael; porquanto o Senhor ouviu a tua aflição” (Gn.16:11). Além da promessa de proteção e bênção há a profecia de que Ismael será homem de guerra e estará como uma afronta diante de seus irmãos: “E ele será homem feroz, e a sua mão será contra todos, e a mão de todos contra ele; e habitará diante da face de todos os seus irmãos” (Gn.16:12).

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Promessa de nações a Abraão: “E te farei frutificar grandissimamente, e de ti farei nações, e reis sairão de ti” (Gn.17:6). Dessa promessa temos os doze príncipes de Ismael (Gn.17:20), os descendentes de Ismael são os árabes (Gn.25:12-18).  Após a morte de Sara, o patriarca Abraão casou-se com Quetura e teve concubinas com quem teve outros filhos, porém nenhum deles se tornou herdeiro de Abraão, pois o mesmo os despediu ainda em vida, apenas com presentes (Gn.25:1-6).

O texto bíblico ainda cuida de dar a localização geográfica dos descendentes de Ismael e de Isaque, Ismael e seus descendentes foram: “E habitaram desde Havilá até Sur, que está em frente do Egito, como quem vai para a Assíria; e fez o seu assento diante da face de todos os seus irmãos” (Gn.25.18), enquanto a Isaque – como único herdeiro de Abraão – e à sua descendência, foi dado os limites da Terra Prometida: “Naquele mesmo dia fez o Senhor uma aliança com Abrão, dizendo: tua descendência tenho dado esta terra, desde o rio do Egito até ao grande rio Eufrates” (Gn.15:18; 26:3).

A relação histórica entre os descendentes de Ismael e Isaque

Os Árabes atacaram Judá durante o reinado de Jeorão (cf. 2Cr.21:16-17), o rei Uzias venceu os árabes (cf. 2Cr.26.1-7). Os árabes também se levantaram contra Judá durante o retorno do cativeiro pelo ministério de Neemias (Ne.2:19; 4:7; 6:1-2). Esses registros históricos tendem a confirmar a postura de hostilidade entre os descendentes de Ismael e seus irmãos “e habitará diante da face de todos os seus irmãos” (Gn.16:12).

A relação atual entre árabes e judeus é de rivalidade e disputa, não só no plano físico (terra), mas também, e sobre tudo, no plano espiritual (religioso). Com a ascensão islâmica liderada por Maomé a partir do século VII d.C. e a rejeição dos judeus de Medina ao pretenso ministério profético de Maomé, a sentença de inimizade entre muçulmanos e judeus foi proclamada. Os judeus, com o tempo, passaram a ser cidadãos de segunda classe nos países islâmicos, assim como os cristãos, sujeitos a tributos e impostos (jizia) para permanecerem em seus territórios.

Após as duas Guerras Mundiais houve uma atenção aos povos árabes. Os olhos do Ocidente se voltaram para o Oriente-Médio, em especial para o ouro negro (petróleo), que começou a jorrar na terra dos sheiks árabes. Também nessa época, com a presença de ocidentais, especialmente ingleses e franceses, os árabes começaram a deixar de serem predominantemente nômades, beduínos e passaram a construir novas cidades, grandes e modernas, com os dividendos do lucro do petróleo.

O conflito entre árabes e judeus intensifica-se com as ondas de imigração organizadas de judeus para a terra de Israel, a ascensão do ideal sionista e a vitória dos aliados na Primeira Guerra Mundial. No século XIX (1850 em diante), judeus perseguidos nos territórios nos quais estavam refugiados, começaram a voltar para a terra de Israel, juntando-se aos judeus que lá estavam, dando surgimento a novas cidades. Com o ideal sionista moderno liderado por Theodor Herzl foi convocado o Primeiro Congresso Sionista, na Basiléia, Suíça, em 29 agosto de 1897. Esse congresso foi a primeira reunião mundial de judeus em bases nacionais e seculares, onde os delegados elaboraram o programa do Movimento Sionista e declararam que o sionismo é: “um movimento que procura estabelecer na Palestina, um Lar Nacional para o povo judeu.” Na abertura do congresso Theodor Herzl declarou: “Na Basiléia foi fundado o Estado Judeu… Talvez daqui a cinco anos, com certeza em cinquenta, todos se darão conta disso.”

Durante a Primeira Guerra Mundial, o Império Turco-Otomano que apoiava a Alemanha é derrotado e expulso do Oriente-Médio pelos povos árabes e pelas tropas aliadas – em especial o Reino Unido e a França – o que teria garantido aos judeus o direito internacional para a reconstituição de um estado judaico totalmente independente da Turquia, garantido por uma “promessa” de ajuda dos Aliados, conforme a declaração Balfour. Com o fim da Primeira Guerra Mundial (1917), os britânicos ficaram com o território da chamada Palestina e a França com o Líbano e a Síria.

Em 1923, a Grã-Bretanha divide a sua zona em dois distritos administrativos, separados pelo rio Jordão, sendo que os judeus apenas seriam permitidos na zona costeira a oeste do rio (cerca de 25% da parte britânica). Os árabes rejeitam a divisão, receando de tornarem-se uma minoria e encorajados por um crescente nacionalismo árabe no Oriente-Médio. Diante da grande rejeição da Grã-Bretanha na região, o governo britânico entrega a resolução do problema às Nações Unidas, recém criada em 1947.

A Assembleia Geral das Nações Unidas determina a partilha da parte ocidental da Palestina (os 25% em disputa) entre um Estado Judeu e outro Estado Árabe, com base na concentração das populações, através da resolução 181. O que prontamente foi aceito pelo governo judaico provisório, apesar da grande diminuição da área prometida no fim da Primeira Guerra Mundial aos habitantes e sobreviventes do Holocausto. No dia 14 de Maio desse ano (1948) os israelenses declaram sua independência, já os árabes que haviam formado um estado em 75% do território (a Jordânia), recusam esta partilha. De lá para cá temos acompanhado as guerras que Israel tem travado para manter sua existência como nação.

Quando me perguntam sobre a solução do conflito, busco chamar a atenção de que foi na morte de Abraão que os seus filhos se encontraram em paz: “E Abraão expirou, morrendo em boa velhice, velho e farto de dias; e foi congregado ao seu povo; E Isaque e Ismael, seus filhos, sepultaram-no na cova de Macpela” (Gn.25:8-9a). Na morte do Messias há salvação e reconciliação entre os inimigos (Rm.5:10).

Não podemos esquecer da grande profecia de Isaías sobre a paz que haverá entre Israel, o Egito e a Assíria (atual Iraque): “Naquele dia Israel será o terceiro com os egípcios e os assírios, uma bênção no meio da terra. Porque o Senhor dos Exércitos os abençoará, dizendo: Bendito seja o Egito, meu povo, e a Assíria, obra de minhas mãos, e Israel, minha herança (Is.19:22-25).



Alexandre Dutra

Alexandre Dutra

Pastor Batista, Diretor dos Amigos de Sião, Mestrando Estudos Judaicos (USP)


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