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João 15:16 trata realmente de eleição incondicional?

Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda.


João 15:16 trata realmente de eleição incondicional?

O título deste texto pode sugerir um ataque ou defesa a uma doutrina estabelecida em parte da Igreja cristã, mas tal suposição é enganosa. O intuito aqui é refletirmos sobre a forma como temos, usualmente, recortado textos da Escritura e usado de modo um tanto quanto indiscriminado.

Creio que, mais do que a concordância ou a discordância com determinado modo teológico de pensar, o que importa é sempre refletirmos sobre como estamos trabalhando nossos próprios métodos interpretativos.

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Por isso, a ideia de a aceitação ou rejeição a este ou àquele sistema doutrinário vem (como deve vir) por consequência, e não como causa da interpretação.

O contexto do texto em questão é o seguinte:

“Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo.
Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos.
Vós sois meus amigos, se fazeis o que vos mando.
não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai.
Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça. Eu assim vos constituí, a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vos conceda.
O que vos mando é que vos ameis uns aos outros.
Se o mundo vos odeia, sabei que me odiou a mim antes que a vós.
Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia.
Lembrai-vos da palavra que vos disse: O servo não é maior do que o seu senhor. Se me perseguiram, também vos hão de perseguir. Se guardaram a minha palavra, hão de guardar também a vossa. João 16:12-20.

De antemão, pelas passagens que estão em negrito, observa-se que o contexto gira em torno da relação – sempre lembrada por Jesus, nestas e em outras passagens -, entre servo e senhor. Ocasionalmente, Jesus lembrava os discípulos de sua condição de servos. Nesta passagem, não é diferente. Em linguística e na analítica, usualmente procura-se saber nas construções frasais os usos conotativos e denotativos que são usados nos discursos. O uso denotativo refere-se ao literal ou àquilo a que se quer referir objetivamente. O uso conotativo refere-se a uma figuração e se relaciona mais com o que se quer dizer subjetivamente.

Praticamente todos os discursos de Jesus são cheios de exemplos conotativos e denotativos. Contudo, como são discursos majoritariamente sapienciais, a questão conotativa é, de certa forma, preponderante. Assim, devemos entender que a sabedoria nos discursos de Jesus tem um papel preponderante por conta da forma discursiva. Portanto, é um pouco estranho o Senhor Jesus estar ratificando a relação senhor-servo, sob a base do amor, que os tornaria a todos amigos, inserindo de repente um ensino sobre “eleição e salvação”. Mas, é assim mesmo que alguns interpretam o texto de João 15:16: como um texto indicativo de eleição salvífica.

Ainda num sentido mais denotativo, Jesus condiciona a própria amizade, sugerida no contexto, à obediência a sua vontade. Isto é, sem dúvida, uma reafirmação de sua autoridade e é exatamente por que ele frisa: “O servo não é maior do que o seu senhor” (vs. 20a). Além de um alerta à perseguição que certamente viria sobre seus discípulos, os mesmos deveriam ser resilientes, perseverantes, pois se a perseguição viria ao senhor, quanto mais aos servos? Este lembrete, na perícope em questão, é o fundamento de todo o discurso de João 15, o qual não é outro senão a relação senhor-servo no Cristianismo, que a partir dos discípulos, passa necessariamente por uma condicional de obediência que, se satisfeita, nos eleva (a todos) à condição de amigos do Mestre.

Para que não esquecessem de que o mandamento de Jesus era que deveriam amar uns aos outros, Jesus enfatiza o chamado que tiveram, lembrando-os de que não foram eles que vieram até Jesus, mas fora Jesus que os chamou, ou, conotativamente, algo como “Lembrem-se de que sou eu, não vocês, quem é senhor! Fui eu quem os chamou! Sou eu, portanto, que vos envio para que deem fruto”! Deste modo, respeita-se o contexto com a coerência discursiva que o mesmo exige.

Observe que a ênfase textual precisa se coadunar àquilo que “costura” o discurso de Jesus, cuja tese é, repito, a relação senhor-servo com a base do amor mútuo, o que tornaria os discípulos mais do que servos, mas amigos, se obedecessem ao seu mandamento! Isto deveria nortear sua carreira discipular e, particularmente, não tenho dúvidas de que esse também foi um dos motivos de João perpetuar o mandamento em seu evangelho.



Graduado em Teologia e Filosofia. Pós graduado em Doc. do Ensino Superior, Teologia Bíblica e Psicopedagogia (FATIN). Mestre em Filosofia (Univ. Federal de Pernambuco). Doutorando em Filosofia (Univ. Federal de Pernambuco). Diretor do IALTH (Inst. Aliança de Linguística, Teologia e Humanidades). Pastor da IEVCA (Igreja Ev. Aliança). Casado com Patrícia, com quem tem uma filha, Daniella.

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