Legando a fé

Se a fé é, de fato, boa, viva-a, para que sua intenção de transmiti-la seja ao menos considerada


Legando a fé

Em um mundo tão eivado por relativismo, onde a verdade é considerada apenas como um ponto de vista diferente, legar a fé tem sido cada vez mais difícil, sobretudo para os pais, pois a relativização das coisas está presente na Internet, em programas televisivos, nos noticiários e, claro, nos conteúdos aprendidos nas escolas e faculdades. O relativismo apregoa que qualquer tipo de cerceamento, seja para comportamentos ou absorção de certos conteúdos e padrões impostos por pais e/ou a própria igreja, é considerado como uma espécie de “crime contra a liberdade”, onde o direito de “livre” agência nos é tirado, impedindo-nos, conforme se crê, de usufruirmos o direito de termos uma vida.

Quando há o império do relativismo, nós desenvolvemos nossa capacidade de racionalizar as coisas. O profeta Isaias disse, no capítulo 5 e versículo 20, que é passível de dó, aqueles que relativizam as coisas, sobretudo aquilo que é relacionado ao sagrado, pois o castigo, cedo ou tarde, se revelará. O povo de Israel, à época, racionalizava tanto as coisas, que acabam por mudar o modo como se via o que, na essência era mal, pois o modo como se comentava e o aumento de sua prática, o fazia se passar por coisa boa. O povo de Israel sofreu suas penalidades.

Excesso de regras gera revolta

Mas nesse período hodierno, da dispensação da Graça, no qual existe muita, digamos, tolerância da parte de Deus, como é que fazemos para que nossa fé no Eterno possa ser transferida, sobretudo aos filhos? Até certa idade eu vivia indignado com Deus, pois as regras de minha denominação não me permitiam jogar bola, usar calção e fazer uma série de outras cosias que são típicas de crianças e adolescentes. Meus pais e os irmãos da igreja faziam marcação cerrada. Toda e qualquer falha, nesse sentido, me custava sermões, e rebaixamentos morais. Eu pensava que Deus era um ser tirano que ficava alegre com minha tristeza. Por muitas vezes eu me pegava nutrindo pensamento de dissidência, eu queria “sair fora” dos meus pais, de Deus e da igreja, pois eu não suportava o fato de não poder me divertir.

Com o passar do tempo, meus pais foram estudando mais e passaram a ter uma visão mais coerente do que é ser crente e servir a Deus, e passaram a mudar o modo de agir para comigo frente à questão de me legar a fé. Graças a isso, toda aquela revolta que eu tinha de Deus, da igreja e também dos irmãos de fé, foi retirada de mim.

O teólogo português, Tiago Kavaco, disse, na introdução de uma de suas mensagens, que “os pais têm falhado ao tentar legar a fé aos filhos através das regras, pois a fé só pode ser transmitida através do exemplo que se dá” quando a vivemos. E era nisto que meus pais erravam.

Estimulado a uma experiência de fé

Certa vez, assim que nos mudamos do sítio para a cidade, eu pedi para minha mãe para que ela me comprasse um picolé Sander. Como ela não tinha dinheiro, me pediu para que entrasse no quarto e pedisse a Deus, pois naquela circunstância, somente Ele poderia atender  meu pedido. Como eu já presenciara Deus atender as orações do meu pai para que Ele nos provesse alimentos e outras coisas, não tive dúvidas, me ajoelhei e fiz uma oração e, em seguida, fiquei na frente de casa esperando meu picolé.

Eu morava em uma esquina, no final de um quarteirão. Na outra extremidade, eu pude ver, ao longe, um homem, que usava um boné vermelho e uma camiseta branca, parar um “picolezeiro” (como chamamos os vendedores de picolés aqui na Região Norte do País), e comprar algo. Jamais me passou pela cabeça que minha benção poderia vir dali. Eu pensava que passaria alguém conhecido ou que meu pai chegaria e, do nada, me trouxesse um picolé. Aquele homem, depois de comprar um picolé, seguiu em minha direção. Na medida em que ele ia se aproximando, eu percebi que ele portava um Sander. Mas eu evitei ficar olhando, pois minha mãe havia me dito que fazer isso era “feio”. O homem passou por mim e, antes de virar a esquina do meu lado do quarteirão, olhou para mim e se aproximou e disse que tinha perdido a vontade usufruir do picolé e perguntou se eu queria.

Depois de pegar o picolé e agradecer o homem, sai correndo portão adentro para mostrar a minha mãe que eu havia ganhado o picolé. Enquanto eu o saboreava, o aproximava do nariz e sentia se cheiro doce e sua temperatura gélida, e me admirava do fato de que Deus havia me ouvido. Esse e muitos outros fatos marcaram minha vida.

Conexão com a Palavra

Pensando em como meus pais passaram a agir comigo, evitando dizer que as proibições da denominação tinham haver com Deus e me estimulando a ter experiências de fé e me fazendo vivenciar suas experiências de fé, não me admiro do fato de que Isaque não tenha visto o pai como um louco quando este disse para que ele se deitasse e se entregasse em sacrifício a Deus.

A fé é uma semente que só nasce no terreno que é arado pelos exemplos do “semeador”, pois em um terreno/coração cheio com os pedregulhos da religião, a semente não consegue acessar o solo e, por ficar exposta, é levada pelas aves de rapina (parafraseando Jesus em Mateus 13). Se a fé é, de fato, boa, viva-a, para que sua intenção de transmiti-la seja ao menos considerada.



Fernando Pereira

Fernando Pereira

Jornalista e acadêmico dos cursos de História e de Teologia.


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