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Marielle Franco, a mídia militante e uma lição para a Igreja

Os milhares que foram às ruas pedir justiça e homenagear a vereadora morta mostram que a capacidade de mobilização por uma causa ainda move muita gente.


Marielle Franco, a mídia militante e uma lição para a Igreja
Marielle Franco, a mídia militante e uma lição para a Igreja

A vereadora Marielle Franco, do PSOL, e seu motorista, Anderson Pedro Gomes, morreram assassinados. A polícia acredita que foi execução. Trata-se de mortes bárbaras e desnecessárias, como todas as mortes resultantes da violência urbana no país.

Não se sabe os motivos, mas as especulações abundam. A tragédia causou comoção no Rio, no Brasil e até no mundo. A cobertura da mídia foi desproporcional em um país onde pessoas morrem em situação similar todos os dias.

A palavra “Marielle” e a hashtag #MariellePresente ficaram no trending topics (assuntos mais comentados) mundial do Twitter. No Facebook, o assunto parecia ser onipresente. O Google a homenageou, dizendo que se tratava de “Uma grande mulher na história do Brasil”.

Então vieram as manifestações. De políticos, intelectuais, artistas e de gente comum. Embora ela fosse uma vereadora na cidade do Rio de Janeiro, foram feitas homenagens em diversas capitais do país e até em cidades como Nova York e Lisboa, atraindo centenas de pessoas.

Todos os meios de comunicação do país falaram do assunto exaustivamente, com o Jornal Nacional dedicando praticamente a edição inteira a ela. A maioria dos jornais e sites, seja em matérias ou artigos de opinião, mostrou-se claramente militante, comprovando que não há neutralidade alguma. Alguns atacavam frontalmente a polícia, a “direita branca”, sugerindo uma responsabilidade pelas mortes que não fazem sentido sem a apuração dos fatos.

No campo político, a reação chegou ao extremo quando mais de 50 deputados do Parlamento Europeu pediram a suspensão “imediata” das negociações para um acordo comercial entre União Europeia e Mercosul por conta do assassinato da vereadora.

Independentemente do fato de ela ser uma política de esquerda, homossexual, ligada à defesa do aborto e das causas LGBT, há uma grande lição para a igreja brasileira em meio a tudo que se viu nos últimos dois dias.

A capacidade de mobilização dos movimentos sociais e partidos de esquerda é impressionante. O que alimentou, em grande parte, a cobertura do caso – que deverá se estender possivelmente até depois de o crime ser esclarecido – foi a reação das pessoas.

Os milhares que foram às ruas pedir justiça e homenagear a vereadora morta mostram que a capacidade de mobilização por uma causa ainda move muita gente.

Mas o que isso tem a ver com a igreja brasileira?

Se considerarmos que os evangélicos são cerca de um terço da população e outros 60% são católicos, e levarmos em conta a situação do país, fica claro que a disposição de se lutar por justiça e protestar contra o que “está errado” não está na pauta da maioria das denominações.

Cristãos estão sendo perseguidos e mortos em números cada vez maiores na última década. Organizações como Portas Abertas e Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) publicam relatórios frequentes sobre a situação da perseguição religiosa no mundo.

Fundada por evangélicos, a Portas Abertas mostrou logo no início do ano que o número de cristãos assassinados por sua fé cresceu mais de 150% em 2017.

A AIS, ligada ao Vaticano, mostrou um levantamento indicando que a perseguição entre 2015 e 2017 é a “pior da história”.

Quantas igrejas reuniram pessoas para ir às ruas e chamar a atenção para isso? Quantos deputados fizeram pronunciamentos enfáticos ou mobilizaram seus pares para que o Brasil se manifestasse contrário a isso nas organizações que faz parte, como a ONU, por exemplo?

A bem da verdade houve exceções, como o deputado federal Marco Feliciano (Pode/SP), que se manifestou várias vezes sobre o tema em suas redes sociais e chegou a pedir que o Brasil fechasse a embaixada na Coreia do Norte.

Mesmo assim, a exposição do problema foi pífia. E como a igreja não se manifestou, não atraiu o interesse da mídia. Já nos Estados Unidos, o Congress,o por outro lado, o Congresso americano aprovou por 393 a 0 o reconhecimento que o genocídio de cristãos no Oriente Médio. Decisão similar foi feita pelo Parlamento Europeu.

Obviamente o genocídio de cristãos não é a única questão premente em nossos dias.

Em vários países, como Peru e Panamá, milhares foram às ruas marchar contra a imposição da ideologia de gênero sobre a sociedade. No Brasil, a última coisa parecida com isso foram os movimentos de rua pelo impeachment onde alguns pastores se envolveram de forma mais clara.

Os motivos para a igreja protestante protestar são muitos. Os movimentos de esquerda “sequestraram” algumas pautas que deveriam interessar a todo cidadão de bem. Ainda que distorçam o sentido de “direitos humanos”, historicamente esse é um termo que também diz respeito à “liberdade de pensamento, de consciência e de religião” (Artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU).

O Brasil está afundado em corrupção, a violência grassa em todas as regiões do país, o desemprego e a crise deixam milhões de famílias em situação de pobreza. No Congresso, se multiplicam as pautas que seguem a cartilha do marxismo cultural, que viram projetos de lei e eventualmente serão leis.

Porém, via de regra, não há manifestações de massa, não há hashtag #IgrejaPresente nas redes sociais, não há pressão política de peso que mude efetivamente os rumos do país.

Sem dúvidas, a morte de Marielle Franco e do seu motorista foi uma tragédia. Mas o silêncio da Igreja brasileira sobre a situação do mundo é uma tragédia maior ainda.



Jarbas Aragão

Jarbas Aragão

Jarbas Aragão é pastor, professor de inglês e tradutor. Quando não está cuidado dos filhos lê, vê filme e séries. Formado em teologia, acredita que cristão precisa usar discernimento pra ver o mundo.


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