Como Martinho Lutero e a “ideia perigosa do cristianismo” mudaram o mundo

O que não se pode negar é que ele e seus ‘companheiros de pensamento’ ainda estão moldando o mundo.


Martinho Lutero e a "ideia perigosa do cristianismo"

* Artigo de Barney Zwartz , publicado originalmente na revista eletrônica The Age, da Austrália

Quando Martinho Lutero pregou nas portas da Igreja do Castelo de Wittenberg suas 95 teses, há 500 anos, ele não tinha ideia dos acontecimentos importantes que estava prestes a desencadear: a Reforma, o nascimento das igrejas protestantes, as sangrentas guerras europeias, o Iluminismo, até mesmo a democracia moderna.

A semente que ele plantou, que o historiador Alister McGrath chama de “a ideia perigosa do cristianismo”, gerou mudanças profundas que influenciam o mundo até hoje em vários campos: educação, comunicação, trabalho, ciência, capitalismo, democracia, filosofia e secularismo.

Essa ideia revolucionária é que a Bíblia pode ser entendida por qualquer um e, portanto, os cristãos devem ser capazes de interpretá-la sozinhos, não precisando simplesmente aceitar o ensino da Igreja. Isso introduziu na mente ocidental a ideia central das democracias liberais modernas, a primazia do indivíduo.

O movimento que desencadeou o protestantismo, cresceu e diminuiu sua influência nos últimos cinco séculos de várias maneiras. Algo que, segundo McGrath, sempre foi impossível prever. Talvez a melhor comparação não seria com uma semente, que tem crescimento previsível. Seria mais como um vírus, capaz de mutação rápida e adaptação, que foge do controle.

Obviamente, o desafio de Lutero também ajudou a remodelar a Igreja Católica Romana, por meio de sua reação à Reforma, chegando até o Concílio Vaticano II – na década de 1960 – que incorporou algumas ideias dos reformadores.

Hoje, enquanto países ocidentais que já foram predominantemente cristãos, negam a fé, uma nova e vibrante forma de protestantismo está florescendo: os evangélicos. Eles crescem de modo especial na Ásia, África e América do Sul.

Muitas igrejas protestantes modernas fazem críticas à Reforma, reclamando que não deveria ser comemorada a divisão dos cristãos. Eu discordo totalmente: o custo foi alto, mas os benefícios são muito maiores. Sem a Reforma, o mundo moderno seria muito menor.

Semente ou vírus?

Quando Lutero estabeleceu suas 95 Teses (ou argumentos), o piedoso monge alemão usou instrumentos da época para abrir um debate até então proibido.

Suas ideias se espalharam rapidamente em toda a Europa: Lutero estava furioso com a prática corrupta de vender indulgências, documentos da igreja que reduziriam o tempo que as pessoas passam no purgatório depois de morrerem, “purgando” seus pecados em agonia antes de entrarem no céu. Seus argumentos contra o Papa e seu poder lhe renderiam anos depois a excomunhão.

Mas como o discurso de um monge desconhecido de uma pequena cidade acabou gerando a conflagração que consumiu grande parte da Europa? De acordo com a historiadora Diarmaid MacCulloch, o protesto de Lutero rapidamente se transformou em uma rebelião internacional porque “os poderosos clérigos deram uma resposta pesada”. Ele queria destacar a graça de Deus, mas para os seus adversários do Vaticano, era uma questão de debater-se a autoridade.

Convocado para se retratar diante do imperador Carlos V na Dieta (assembléia) de Worms, Lutero recusou-se, dizendo que não o faria a menos que pudesse ser persuadido pela Escritura ou pela razão. Foi então que pronunciou sua declaração mais famosa “aqui estou e não posso ser diferente. Que Deus me ajude”.

Lutero mostrou grande coragem em ir a Worms, tendo em vista que conhecia o destino de John Huss, que acabou condenado à morte um século antes por críticas similares. Huss, considerado um protoreformador foi a Roma e acabou sendo queimado na fogueira, soba a alegação que “o erro não tem direitos”.

Quando Lutero recebe o apoio de seu governante, o duque Frederico III, ofereceu a ele abrigo no Castelo de Wartburg, pôde então traduzir o Novo Testamento para o alemão, no processo que ajudou a estabelecer a forma unificada da língua alemã.

Claro, Lutero beneficiou-se de um solo fértil. Os movimentos que pregavam uma reforma na Igreja católica durante as décadas anteriores o ajudaram a estabelecer sua base. Assim, quando Lutero desenvolveu sua teologia, estabeleceu as “cinco solas” (termo latino para ‘somente’): só a graça, só as Escrituras, só a fé, somente Cristo e glória só para Deus, ele recuperou o que os teólogos consideravam como ensinamentos bíblicos claros que tinham se perdido ao longo dos séculos na teologia ensinada pela igreja católica.

A Reforma rapidamente fragmentou-se. McGrath diz que era “um movimento de movimentos” onde várias pessoas compartilhava as mesmas aspirações, mas discordavam sobre como deveriam ser executadas, embora as correntes protestantes fossem gradualmente se unindo por causa da perseguição católica.

Início da Idade Moderna

Na Suíça, onde os cantões já eram republicanos, o processo foi mais populista. Em Genebra, João Calvino promoveu um governo mais democrático, sem bispos, que estabeleceu uma nova ordem política – incluindo ideias que ajudariam a inspirar a separação de poderes comuns até hoje nas democracias. Na Inglaterra, Henrique VIII teve suas razões (conjugais e econômicas) para rejeitar o Papa, enquanto a Reforma Escocesa que ocorreu só mais tarde, foi mais abrangente.

Em todo lugar, as motivações religiosas se misturavam com ambições políticas, sociais e pessoais. O teólogo Michael Jensen chama a Reforma ‘o primeiro Brexit’, por ter gerado um rompimento com o controle espanhol e italiano da Europa.

Todas essas terríveis complexidades foram ampliadas durante a Guerra dos 30 Anos, de 1618 a 1648, um dos conflitos mais mortíferos e destrutivos da história, opondo exércitos católicos e protestantes. Historiadores dizem que foi esse conflito que estabeleceu a transição do feudalismo para a Idade Moderna.

Um dos frutos mais importantes desse período de terror foi a ‘Era do Razão’ ou Iluminismo, no século 18. Começou com o reconhecimento óbvio de que os dois lados, desgastados, precisariam coexistir, o que exigia encontrarem algum terreno comum. Como já não poderia ser as reivindicações da revelação divina ou da força da igreja, a filosofia, a razão e os interesses seculares vieram à tona.

Curiosamente, alguns dos grandes centros reformados tornaram-se centros do iluminismo, fazendo com que a Genebra de Calvino e a Edimburgo de John Knox cedessem o lugar à filosofia de Jean-Jacques Rousseau e David Hume.

Mas o Iluminismo não poderia ter acontecido sem a “perigosa  ideia do cristianismo”, sua ênfase no indivíduo e sua abordagem da razão. Enquanto a Igreja Católica Romana ensinava que a salvação vinha através da Igreja e dos seus sacramentos, os Reformadores enfatizavam que o indivíduo poderia se relacionar imediatamente com Deus através da fé, sem mediação dos sacerdotes. Sua própria consciência vinha em primeiro lugar.

A Reforma também viu que a alfabetização aumentava quando os indivíduos eram desafiados de descobrirem as Escrituras por si mesmos.

Floresce a Educação

A tradução da Bíblia de Lutero inspirou as traduções em inglês por Wycliffe e Tyndale (que acabou martirizado por isso), que tiveram resultados sísmicos similares. Os governantes autocráticos rapidamente perceberam que uma Bíblia na língua do povo era como dinamite, diz Jensen.

A Bíblia de Genebra, traduzida por exilados ingleses e escoceses que fugiam da perseguição da rainha Maria I, a sanguinária, tornou-se muito popular na Inglaterra. Traduzida por calvinistas, tinha notas inflamatórias antimonárquicas, enquanto a doutrina do sacerdócio de todos os crentes era também um grande problema para a igreja oficial.

Tyndale escreveu “A Obediência de um homem cristão”, estabelecendo que a obediência a Deus ultrapassa seus deveres para com o rei. O direito divino dos reis fora uma questão central na distribuição de poder até então. O maior exemplo do fim dessa era foi a decapitação de Charles I, rei da Inglaterra que desafiou a Igreja, 120 anos depois.

A educação foi um benefício óbvio e imediato da Reforma. As Bíblias disponibilizadas na língua falada pelo povo criaram um imperativo para os cristãos lerem as Escrituras. Mas para isso eles primeiro precisavam aprender a ler. Os níveis de alfabetização aumentaram drasticamente entre as pessoas comuns, especialmente as mulheres.

Os Reformadores criaram escolas, inclusive para meninas, juntamente com faculdades, universidades e seminários. Eles queriam evitar a mesma ignorância do monge inglês que, ao ser perguntado se ele havia lido o Novo Testamento, respondeu: “Não, e nem vou ler nenhum outro trabalho desse maldito herege Lutero”.

Pessoas que nunca tinham adquirido um livro na vida, agora lutavam para ter uma cópia da Bíblia de Genebra.

Os Reformadores também usaram a música como uma ferramenta de ensino. Anteriormente restrito a corais, o canto foi tão bem recebido pelas congregações que o Concílio de Trento (contra a  Reforma) copiou Lutero e Calvino e patrocinou a formação de um hinário.

A imprensa foi outro importante servo da Reforma, sem a qual os ideiais de Lutero não poderiam ter sobrevivido. Tratados e panfletos eram o equivalente do século 16 dos blogs e o Facebook de hoje. Eles espalhavam a mensagem rapidamente, de uma forma que as autoridades não conseguiam controlar. Levou um tempo até que s líderes católicos reconhecessem a eficácia dessa tecnologia relativamente nova e passassem a também  aproveitar essa oportunidades de espalhar ideias.

Uma mudança importante na autocompreensão da identidade surgiu com a refutação da ideia antiga de que apenas monges ou sacerdotes eram chamados por Deus. Recuperar a noção bíblica do sacerdócio de todos os crentes significava que todo o trabalho era para a glória de Deus. A ideia de vocação não era mais abandonar o mundo para viver uma vida de oração no mosteiro, mas servir a Deus no mundo. Lutero, por exemplo, fala que podia-se até mudar as fraldas para a glória de Deus.

Este novo entendimento, juntamente com a decisão de permitir a prática de emprestar dinheiro a juros, que fora banida pela Igreja, levou ao desenvolvimento do capitalismo e ao rápido avanço econômico dos centros protestantes.

McGrath dá o exemplo de Florença, despedaçada no século 16 pela revolta protestante e reconquista católica. “Durante a maior parte dos  200 anos posteriores a isso, a zona protestante tornou-se próspera, enquanto a área católica permaneceu improdutiva”. Mesmo em países fortemente católicos, os empresários eram, na sua maioria, calvinistas.

A ciência teve grandes avanços, pois os protestantes separavam o divino da ordem natural. Diziam que Deus falou à humanidade através de dois livros: a Bíblia e a Natureza. A Reforma permitiu a investigação de ambos. Os cientistas poderiam então prosseguir seus exames do mundo natural sem preocupações de condenação teológica, o que incentivou o amadurecimento do chamado método científico.

No entanto, essa perda do sentido do sagrado teve um custo, de acordo com o filósofo Charles Taylor: a secularização – enquanto eliminação de Deus do mundo natural. O teólogo americano Ed Simon diz que a insistência de Lutero de falar sobre a disposição interior do indivíduo e sua relação com Deus sem mediador inadvertidamente enfraqueceu a conexão entre o sentido da vida e este mundo. Citando os filósofos Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly, Simon argumenta que isso, por sua vez, “preparou acidentalmente o caminho para o niilismo ativo, associado à morte de Deus”.

Novo protestantismo

Com uma Europa vivendo uma fase ‘pós-cristã’, uma nova forma de protestantismo está crescendo e se multiplicando, proporcionando uma forte resposta à aridez teológica e as atitudes secularistas que resultam no declínio das denominações tradicionais. Os pentecostais, que hoje já superam em número todos os outros ramos protestantes combinados, de longe, são o maior grupo cristão não católico. Eles totalizam cerca de 500 milhões de pessoas, ultrapassando os ortodoxos, que são 300 milhões.

Sua história tem cerca de um século, tendo iniciado no avivamento na rua Azusa, em Los Angeles, em 1906. Porém, a ênfase dos pentecostais em um encontro imediato com Deus através do Espírito Santo e na renovação pessoal, minimizando as doutrinas, foi algo poderoso. A Igreja do Evangelho Pleno de Yoido, na Coreia do Sul, tem mais de um milhão de membros. Na Nigéria, a Igreja Cristã de Deus redimida tem 4.000 congregações pelo país.

Na América do Sul, o crescimento dos pentecostais é um grande desafio ao catolicismo. McGrath diz que o pentecostalismo atropelou tanto o marxismo como a teologia da libertação, mostrando que a fé cristã é libertadora e transformadora.

“Como pode-se duvidar da existência de Deus quando Deus é uma realidade tão poderosa na vida dessas pessoas? E como a relevância de Deus pode ser questionada quando Deus inspira pessoas a cuidarem dos pobres, curarem os doentes e trabalharem pelos que nada tem?”, escreveu ele.

O legado de Lutero ainda está se desenvolvendo. Ed Simon diz que a ele devemos “ou agradecer pela modernidade liberal, ou culpar pela forma doutrinária e literal de ver as coisas que a maior parte do cristianismo utiliza”.

O que não se pode negar é que ele e seus ‘companheiros de pensamento’ ainda estão moldando o mundo.



Jarbas Aragão

Jarbas Aragão

Jarbas Aragão é professor de inglês e tradutor. Quando não está cuidado dos filhos lê, vê filme e séries. Formado em teologia, acredita que cristão precisa usar discernimento pra ver o mundo.


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