No Jardim da Reforma

Um breve e simples estudo acerca dos cinco pontos do Calvinismo, a famosa "TULIP".


Este texto é para você, leitor, que tem dúvidas sobre algumas questões básicas da soteriologia (aquela parte da teologia que estuda a doutrina da salvação) Calvinista, também chamada de Reformada. Este texto não tem a intenção de soar apologético, ou de lutar com unhas e garras pela nossa corrente doutrinária. Ainda que isso possa soar estranho, principalmente a você que já está acostumado com essa tonalidade em artigos espalhados pela internet, pretendo apenas trazer informações básicas e claras do que cremos.



Serão tratados, então, os Cinco Pontos do Calvinismo, conhecidos também como as Doutrinas da Graça. Ao contrário do que se pensa, e que normalmente se deduz, esta doutrina não foi criada por Calvino, pelo contrário, “estes cinco pontos foram formulados pelo Sínodo de Dort, Sínodo este convocado pelos estados Gerais (da Holanda) e composto por um grupo de 84 Teólogos e 18 representantes seculares, entre esses estavam 27 delegados da Alemanha, Suíça, Inglaterra e outros países da Europa reunidos em 154 Sessões, desde 13 de novembro até maio de 1619”[1].

Os Cinco Pontos são: Depravação Total (Total Depravity), Eleição Incondicional (Unconditional Election), Expiação Limitada (Limited Atonement), Graça Irresistível (Irresistible Grace), Perseverança dos Santos (Perseverance of Saints). Se diz que a tulipa é a flor do Calvinismo porque, como se vê no inglês, o acróstico popular forma a palavra tulip, que é a flor em questão.


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Sobre a Depravação Total



Você já deve ter se perguntado “Por que acontecem coisas ruins com pessoas boas?”  Na verdade, não acontece, pois as Escrituras declaram que todos são maus, somente o Pai é bom (Lucas 18:19). Nós costumamos chamar isso de “Depravação total”.

Representada pelo “T” na Tulip, a “Flor Calvinista”, a doutrina da “Depravação Total” é normalmente a primeira a ser explicada quando a conversa é sobre as Doutrinas da Graça.



Essa doutrina afirma que o homem não é capaz de se salvar, ou seja, não importa quantas coisas boas ele faça para as outras pessoas, ele continuará sendo injusto e nada que fizer pode salvá-lo. Aliás, aos olhos de Deus, o homem natural, aquele que ainda não foi convertido pelo Senhor, que não tem o seu coração transformado pelo Espírito Santo, não pode praticar bem algum, porque está morto por conta do pecado, pois por causa de Adão, o pecado passou a fazer parte de cada ser humano desde o seu nascimento.

Paulo deixa isso bem claro em algumas passagens de suas cartas, como por exemplo quando escreve aos Romanos dizendo que não há ninguém que faça o bem, ninguém que busque a Deus (Rm 3.10-12), que todos os homens pecaram, e que por causa do pecado estão separados de Deus (Rm 3.23), ou quando escreve aos irmãos da cidade de Éfeso, dizendo que sem Deus o homem está morto espiritualmente (Ef 2.1-2).

Isso não quer dizer que o homem é “100% mau” e que só é capaz de fazer maldades, como matar ou mentir, mas sim que todas as áreas do ser humano, desde seu jeito de falar ao modo de viver, por exemplo, foram contaminadas pelo pecado, e que obra alguma realizada pelo homem é capaz de conquistar a bondade e o favor de Deus.

Quer um exemplo? Só olhar para uma criança. Ninguém precisa ensiná-la a fazer birra, gritar com os pais ou mentir. Essa maldade mora dentro dela, desde pequena, por culpa do pecado.

Porém, Deus respondeu ao pecado enviando Cristo Jesus, que nos libertou da escravidão, e por sua graça nos justificou. Como está escrito em Romanos 3.24, nós todos somos transformados em pessoas justas graças ao sacrifício de Jesus na cruz, por cada um de nós.

Sobre a Eleição Incondicional

Não tem como evitar: quando falamos de “Eleição”, acabamos pensando em “escolha”. Lembramos de quando vamos eleger um presidente, um vereador, algum outro político para assumir alguma função ou, quem sabe, até mesmo um time favorito ou aquele ator que se destaca pelo filme que fez.

O segundo ponto do Calvinismo, a segunda pétala da Tulipa que estamos estudando, chama-se “Eleição Incondicional”. Mas, o que é isso? Deus pode escolher algumas pessoas e rejeitar, reprovar, outras? Ele não seria injusto se fizesse isso?

Quando olhamos para a Bíblia, encontramos o apóstolo Paulo escrevendo o seguinte:

“Porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença. Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade, para o louvor da sua gloriosa graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado.” Ef 1.4-6

Aprendemos com o primeiro ponto da doutrina calvinista que nenhuma pessoa consegue ser boa o bastante para se salvar. Sabe o que isso quer dizer? Que infelizmente todos os seres humanos estavam condenados à morte e ao inferno por causa de seus pecados. Isso seria péssimo para nós!

Porém, como Deus é extremamente bondoso e cheio de graça, Ele resolveu eleger, escolher, do meio dessa gente toda, um povo para ser chamado de “povo de Deus”. Sabe quem? A Igreja! É por isso que Deus não pode ser chamado de “injusto” pela escolha dEle. É exatamente o contrário! Essa escolha é um ato de misericórdia!

O mesmo apóstolo Paulo escreveu dizendo que o oleiro, aquela pessoa que faz um vaso, pode escolher fazer o que quiser com o barro que tem nas mãos, e transformá-lo em qualquer coisa (Rm 9.14-24).

Essa escolha é chamada de incondicional porque nada em nós poderia ter provocado isso. Não existem condições para que a eleição do Pai tenha sido feita. Não existe um “tipo favorito de pessoas”. Deus não escolheu seus filhos porque eles são ricos ou pobres, feios ou bonitos. Como diz a Palavra, “portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus” (Rm 9.16)

O que aprendemos com este ponto? Que a eleição de Deus, o fato de o Pai escolher seus filhos é, acima de tudo, um ato de misericórdia. Só somos salvos porque antes de haver mundo, o Senhor já tinha nos escolhido.

Sobre a Expiação Limitada

Sabemos que o ser humano é mau e que por conta própria ele não consegue alcançar a salvação. Também, que o coração do homem, que é de onde saem todos os desejos e vontades, não pode querer alguma coisa boa aos olhos de Deus. “Não há um justo sequer”, lembra?

Deus, então, para demonstrar sua misericórdia e graça, seu amor e bondade, decide escolher alguns homens para salvá-los. O Senhor os elegeu para “louvor de sua glória”. Mas, e aí? Como isso funciona? Porque temos um problema aqui: todos merecem o inferno e o Pai escolhe alguns para salvar, mas como Ele faz isso?

É exatamente sobre isto que se trata o terceiro ponto do calvinismo: a Expiação Limitada.

Primeiro, precisamos entender o que é “expiação”. Segundo o dicionário, essa palavra significa sofrer a culpa ou pena por algum pecado ou crime cometido. No nosso caso, pecamos contra Deus, e nada que façamos pode apagar esta dívida. É aí que surge Jesus, o nosso Salvador. Ele vem à terra, sofre, morre e ressuscita pelos nossos pecados, fazendo assim com que nós possamos nos apresentar sem medo diante de Deus. A isso damos o nome de “expiação substitutiva” – Jesus sofre a ira do Pai por nós para que possamos desfrutar do Seu amor como filhos adotados.

Jesus morreu para o Pai provar seu amor por nós (Rm 5.8), e para satisfazer a ira Divina contra o pecado. O Justo morreu pelos criminosos.

Tá, então Jesus morreu por todos os seres humanos?

Não, e esse é o segundo ponto que precisamos entender. Quando falamos assim, em expiação “limitada”, não queremos dizer que o poder ou o valor do sangue de Jesus sejam pequenos. Longe disso! Uma maneira mais fácil de entender essa doutrina é chamando-a de “particular”.

Mas, por que “particular”? Porque Jesus morreu pelo seu povo (Is 53.8; Mt 1.21), suas ovelhas (Jo 10.14, 15, 26-28) e sua Igreja (At 20.28). Quando a Bíblia fala que Jesus morreu por “todos” ou “pelo mundo”, precisamos entender que os benefícios da morte de Cristo não eram limitados apenas ao povo de Israel, mas sim a todos os povos, tribos e nações.

Um exemplo de algo parecido é encontrado em uma das orações de Cristo. Ele diz ao Pai “…não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus…” (Jo 17.9). Neste trecho o Senhor Jesus deixa bem claro que existe um povo que a Ele foi dado pelo Pai, e outro que não. Da mesma forma que Ele orou apenas pelos seus, também a salvação por meio de seu sacrifício foi aplicada apenas a esses.

Jesus morreu por todos sem acepção, mas não por todos sem exceção. Ele morreu por todo aquele que nEle crê, sendo que a Fé é um presente de Deus a seus filhos. A morte de Cristo é suficiente para todos, mas eficiente apenas para os eleitos.

Sobre a Graça Irresistível

Já entendemos que o homem é mau, e que nada que ele faça pode ou consegue atrair o favor de Deus. Sabemos também que por toda sua maldade e pecado, o ser humano corre a passos largos para o inferno, e que apenas a mão forte do Senhor tem poder para impedir isto. Assim, para sua glória e em um ato de misericórdia, o Todo Poderoso escolheu alguns destes homens para salvar e adotar, santificando-os e levando-os ao céu, para sua eterna morada.

Este ato de misericórdia foi confirmado na cruz, quando Jesus desce a terra e morre por todos aqueles que são seus. Ele troca de lugar conosco: o Justo morre pelos pecadores, para que esses consigam viver como justos aos olhos do Pai.

Entretanto, ainda existe um problema. Como estes seres mortos conseguirão se aproximar do Salvador? Eles não tem vida, não tem vontade, não tem desejos bons em sua natureza.

É exatamente sobre isso que trata o quarto ponto do Calvinismo: da Graça Irresistível.

Como “Graça Irresistível” nós precisamos entender, basicamente, que Deus é Soberano e que Ele pode vencer facilmente toda rebeldia do coração humano, atraindo seus filhos para seus braços de amor. É isso que vemos no livro do profeta Daniel, por exemplo.

“Todos os povos da terra são como nada diante dele. Ele age como lhe agrada com os exércitos dos céus e com os habitantes da terra. Ninguém é capaz de resistir à sua mão nem de dizer-lhe: “O que fizeste?” Dn 4.35

Outro texto bíblico que nos ajuda a entender com mais facilidade a soberania de Deus no processo de conversão é uma declaração do Todo Poderoso em Os 11.4, quando ele fala que atraiu – e continua atraindo – seu povo com “laços de amor”.

Esta doutrina não ensina que o homem não resiste a Deus. É exatamente o contrário. A natureza caída do homem é contra o Senhor, e se não fosse por Sua graça nós sempre resistiríamos à vontade do Pai. Entretanto, com este ponto do Calvinismo aprendemos que nenhuma vontade pode ser mais forte que a de nosso Senhor. Aqueles que pertencem a Cristo são e serão eficazmente chamados. Aliás, este é outro nome do que aprendemos hoje: Chamado (ou Vocação) Eficaz.

Deus, através da pregação fiel da Palavra e da operação do seu Santo Espírito, dá vida ao homem pecador e o convence de que há salvação e esperança apenas nos braços do Pai.

Sobre a Perseverança dos Santos

Este é um dos pontos mais mal compreendidos do Calvinismo, a doutrina da “Perseverança dos Santos”. Vocẽ talvez já ouviu aquela frase, provavelmente dita com tom de zombaria, “uma vez salvo, salvo para sempre”. Neste último ponto do Calvinismo, entenderemos o porquê de ser impossível que um eleito do Senhor perca sua salvação e pereça na eternidade.

A doutrina da Perseverança dos Santos (ou Preservação dos Santos) é uma conclusão de todos os outros pontos do Calvinismo. Entendemos que os decretos de Deus são eternos e perfeitos. Se assim cremos, é natural ver que como o Senhor decretou alguns homens para a salvação em Cristo, também assegurará que estas pessoas perseverem até o fim. Afinal de contas, se os eleitos não perseverassem, a salvação em Cristo seria falha e Deus, imperfeito. E isso é simplesmente um absurdo só de se imaginar!

Esta doutrina nos ensina que o eleito continuará no caminho da salvação, seguro de que não será afastado das mãos de Cristo. É exatamente isso que nosso mestre nos fala quando lemos o evangelho de João.

“Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia.” Jo 6.37-39

Esta maravilhosa doutrina nos traz a segurança de estarmos guardados por Cristo, mas também nos lembra de que devemos perseverar. Aquele ditado zombeteiro que falam, do “uma vez salvo, salvo para sempre”, é apenas um dos lados da moeda. Sim, cremos que a salvação não pode ser perdida, mas aprendemos com o Calvinismo que uma vida carnal e ímpia são opostas ao chamado do Pai, que nos elegeu para sermos santos e irrepreensíveis.

Nossa eterna eleição no Pai e a segurança que tanto desfrutamos são confirmadas por uma vida de santidade na presença de nosso Criador. Sim, um verdadeiro cristão acaba pecando. Um verdadeiro cristão pode até, por um curto período de tempo, viver distante dos caminhos do Senhor, mas ele voltará para casa, tal como fez o filho pródigo.

E, assim como na parábola do filho pródigo, o Pai o receberá de braços abertos, pois estamos seguros de que nada, absolutamente nada nos separa do amor de Deus, que está em Cristo Jesus.

Que este texto, amado leitor, sirva para trazer um pouco mais de luz a toda e qualquer dúvida que faça morada em seu coração. Que a Graça do Pai esteja a lhe iluminar sempre, e que a boa mão do Senhor lhe guie por este jardim tão maravilhoso que são as doutrinas bíblicas.

Sob a Graça,

Daniel Rodrigues Kinchescki

[1] Tradução livre e adaptada do livro The Five Points of Calvinism, www.unifil.br/teologia/arquivos/ cincopontoscalvinoesboco.pdf

 



Daniel Rodrigues Kinchescki

Daniel Rodrigues Kinchescki

Membro da Igreja Presbiteriana de Florianópolis/SC, escritor e criador do blog "À cruz de Cristo: voltando aos marcos do Evangelho". Bacharelando em Direito, com experiência em liderança de grupos e em lecionar aulas de E.B.D. e palestras.


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