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Numa sociedade polarizada, o luto é só um detalhe

O ente se foi, mas a dor fica com muita gente.


Numa sociedade polarizada, o luto é só um detalhe
Numa sociedade polarizada, o luto é só um detalhe

Os noticiários estão tomados de informações sobre o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Pedro Gomes. Os usuários das redes sociais parecem não ter outro assunto para opinar. Estamos há dois dias falando e ouvindo sobre isso.

Me parece que o silêncio que o luto tanto carece está sendo sufocado por outras prioridades, como a necessidade de se conectar nas redes para se exibir sabedoria, a fim de ganhar uns ‘likes’ e ‘visualizações’, saciando assim uma sede furiosa do próprio ego.

Minha maior reflexão neste dia é: por que as pessoas não deixam um pouco de lado a pulsão de ter razão e apenas se compadecem com aqueles que perderam alguém importante para eles?

Veja bem: Marielle não me representava politicamente. Talvez na sua luta pelos direitos humanos, mas até nesta luta entra algumas questões em que divirjo de suas posições. Suas pautas em favor do aborto, da legalização das drogas e da não responsabilização do indivíduo que comete crimes sob a falsa premissa de que “os poderosos do sistema são os verdadeiros criminosos” simplesmente me doem os ouvidos.

Nunca votei num candidato de extrema esquerda e não pretendo fazê-lo; porém, estamos falando não de uma caixa impessoal que armazena ideologias e posicionamentos políticos, mas, sim, de uma pessoa que foi brutalmente assassinada – e não podemos nos esquecer que não foi a única pessoa a ser brutalmente assassinada naquela noite. Não nos esqueceremos do Anderson.

A questão maior a meu ver é que não podemos nem devemos negar o luto a ninguém. O ente se foi, mas a dor fica com muita gente.

Talvez eu não sinta a dor na mesma dimensão que um familiar da parlamentar ou do Anderson está sentindo neste exato momento, mas posso me compadecer (“padecer com”) e o mais importante: orar por eles.

É certo que tem muita coisa a se desenrolar no fato da morte de Marielle em específico uma vez que, dentre os citados, foi a pessoa que recebeu quatro tiros na cabeça, e isso num contexto em que ela acabara de ter sido escolhida como parte do grupo de quatro relatores de uma comissão criada em fevereiro para monitorar os trabalhos da intervenção federal na segurança pública do estado. Ou seja, não podemos negar que existem motivações e aspirações políticas e de interesses maiores em torno do caso.

No entanto, o que mais me assusta neste cenário montado principalmente nas redes é a força da polarização política que tem controlado as reações de grande parte dos brasileiros aos assassinatos supracitados. Creio que o momento atual exige de nós mais silêncio que opinião, mais oração que murmuração, mais disposição em amar que amargurar. Pode não parecer, mas nossa saúde mental está em jogo.

O momento de considerarmos as questões ideológicas em torno da figura política que foi morta vai chegar, contudo acredito que o momento exige um pouco mais de sabedoria por parte da população, em especial os cristãos. Não é hora de fomentar debates, comparar mortes, cobrar que todos sejam tratados iguais perante a Lei etc. – é hora de sofrer com!

Por favor, não pense que estou de um lado ou de outro, porque eu creio que existe vida para além daquilo que chamamos de ‘esquerda e direita’. Não faço questão de ser taxado ideologicamente nem mesmo de taxar alguém (ainda que eu possa fazê-lo sem perceber muitas vezes), o que gostaria era que os irmãos de Jesus tivessem um pouco mais de compaixão e sabedoria em dias de polarização, críticas, falas oportunistas que ignoram o luto para afirmar suas ideologias e outras insanidades mais.

Não seja um agente produtor do mal, lutando no dia do luto. Até na guerra entre gregos e troianos, tivemos o príncipe Heitor encerrando o dia de batalhas após ter descoberto que matou o sobrinho de Aquiles ao invés do próprio, quando este pegou escondido a armadura do tio e foi para o combate. Por que não podemos, por um momento, cessar as batalhas políticas em prol da vida que foi ceifada pelo poder paralelo, vida esta que estava engajada na minimização deste sistema hostil que tem mantido a média de 60 mil assassinatos/dia?

Encerro dizendo que nós precisamos proceder conforme o mandato do evangelho, e não segundo o curso do próprio coração, que é enganoso e muitas vezes clubista político. E o evangelho nos manda reagir desta forma:

“Alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração; comunicai com os santos nas suas necessidades, segui a hospitalidade; abençoai aos que vos perseguem, abençoai, e não amaldiçoeis.

Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram; sede unânimes entre vós; não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes; não sejais sábios em vós mesmos; a ninguém torneis mal por mal; procurai as coisas honestas, perante todos os homens. Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens. Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor. Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça.

Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.”

Romanos 12:12-21

Sem oportunismos e sem questionamentos fora da sensibilidade que respeita o luto. Quando o sol raiar outra vez, a gente volta à normalidade. E sim, que haja justiça no Brasil para que vereadoras, prefeitos, policiais, juízes, delegados e toda a sociedade civil (que é um alvo fácil da violência institucionalizada em solo nacional) sejam protegidos por Deus e suas autoridades constituídas.



Maycson Rodrigues

Maycson Rodrigues

32 anos, é casado com Ana Talita, bacharelando em Teologia pela Unigranrio e colunista no site Gospel Prime. É pregador do evangelho, palestrante para família e casais, compositor, escritor, músico, trabalha no ministério de adolescentes da Igreja Batista Betânia e no ministério paraeclesiástico e missionário chamado Entre Jovens. Recentemente publicou um livro intitulado “Aos maridos: princípios do casamento para quem deseja ouvir”.


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