O cristão e a ficção

A Cabana é um crivo. Se você assiste, chora, acha tudo lindo e nenhum erro doutrinário, é porque há enganos no seu cristianismo.


O cristão e a ficção

“Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo; porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade. ” Apóstolo Paulo, em Colossenses 2:6-9.

O verdadeiro cristão não deve temer livros, ou filmes que vá contra o evangelho de Cristo, antes devemos enfrenta-los nas suas aberrações exegéticas e apontar o erro.



Em A cabana o evangelho humanista está bem ressaltado por lá. Lá está o homem mais uma vez achando que Deus lhe deve alguma coisa. Lá está ele, de novo apontando seu dedo e ameaçando a Trindade Santa.

Lá está ele diminuindo os atributos soberanos de Deus e o colocando na parede. O autor desta obra dá dicas que é claramente um Universalista, ou seja, ele crê que, no final das contas, todos serão salvos, reforçando as palavras antigas da serpente no Éden, “Certamente não morrerás”. (Gn 3.4)

O autor diz que não é teólogo, mas tentou dar uma resposta final a questões que a Bíblia não se preocupa em responder, como a questão conflitante do mal. A impressão que tive também é que ele tenta a todo momento salvar Deus da sua suposta fama de deus cruel. Mas, então acabou por diminuir a glória do Deus infinito, santo e transcendente, numa confusão teológica total.



Se tem uma espécie de evangelho falso em particular que o diabo gosta é o humanista. Na ficção “O advogado do diabo” tem uma frase de Al Pacino que é bastante interessante, ele é o diabo na trama, lembram?

Ele diz:

“Por que não? Estou aqui com o meu nariz no chão desde que tudo começou! Eu nutri cada sensação que o homem foi inspirado a ter. Eu me preocupei com os seus desejos e nunca o julguei. Por quê? Por que eu jamais rejeitei o homem, apesar de suas imperfeições. Eu sou um fã do homem! Eu sou um humanista. Talvez o último humanista. Quem em sã consciência. Poderia negar. Que o século XXI foi inteiro meu? O século todo, Kevin! Todo. Meu! Estou no topo. É a minha vez agora. É a nossa vez”. (fala do filme O advogado do diabo)

Se você se interessar em achar no filme A cabana, a verdade de que o pecado humano ofende a santidade de um Deus santo, não achará. O livro deixa claro o tempo todo que o pecado não ofende a Deus, mas somente prejudica o “coitado” do homem. O homem é o protagonista, a vítima o tempo todo. Jesus é fraco e isento que diz ao homem ser ele mais uma maneira de se chegar ao papai, o Espírito é uma princesa que cuida do jardim, e Deus não tem soberania e apenas conserta o erro.

Me sinto mais tranquila lendo mitologia grega do que lendo livros e assistindo filmes que são chamados de cristãos, como A cabana. Quando lemos livros “mundanos” estamos certos de que ali só revelará o quanto estão longe da verdade. Enquanto que, quando lemos algumas das ficções cristãs ficamos o tempo todo crivando e comparando com aquilo que já sabemos ser verdade. O evangelho pop está impregnado na grande maioria dos filmes e livros de ficção evangélicos. E o pior, talvez muitos crentes aprendam mais com estes filmes do que pelo labutar diário nas Escrituras. Isto é o que preocupa, a dimensão que obras como esta assumem na vida pastoral dos crentes do século XXI.

Fiquei bastante pensativa sobre a questão da ficção e o cristianismo. Quando se trata da honra do nome de Deus não podemos relaxar em nenhum momento, nem em nome da tal ficção. O que é ficção? No dicionário quer dizer que é uma criação imaginária, fantasiosa ou fantástica, a fantasia com sentido amplo da palavra. E quem não gosta de ficção, seja ela científica ou de outra espécie? Quase todos nós gostamos. É relaxante, é interessante sair de nosso mundo para adentrar em outro por meio da invenção criativa de alguém. Cristãos em todos os tempos escreveram ficções. A melhor que já li foi “O peregrino”, que narra a caminhada do crente até aos céus. Outras existem que nos trazem alento e até um certo conhecimento das verdades bíblicas, elas meio que “ilustram” o que já está escrito lá.

Dias desses fui procurada por um escritor iniciante de literatura fantástica, pois fazemos parte de um mesmo grupo de apoio para escritores iniciantes. Ele estava escrevendo uma ficção cristã, mas estava sinceramente preocupado em não mexer nas verdades da Bíblia, como algo que é santo mesmo. Ele me apresentou um resumo do seu livro, li e dei minha opinião. Mas, o lembrei novamente quanto a questão de que, se quer escrever, escreva verdades, e se preocupe com isso o tempo todo.

Não acho que escritores cristãos estão absolvidos de seguir a verdade bíblica, mesmo que seja no gênero literário em ficção. A cultura mundana é quem faz isso. A literatura, desde a anterior à babilônica, passando pelos gregos e até aos nossos dias, escreveu tentando explicar o deus deles para os homens. A fonte sempre foi a própria especulação e seus achismos.

Se um escritor que se diz cristão pode ir além do que está escrito nas Escrituras, pode imaginar seu Deus, seu Cristo e considerar isto como parte descompromissada, e isso acabar por “Des-ensinar” os pequeninos, os incautos, os novos na fé, ele está se enquadrando nos últimos versículos da Bíblia que diz:  “Se alguém acrescentar qualquer coisa ao que está escrito aqui, Deus acrescentará a ele as pragas descritas neste livro. E se alguém tirar qualquer parte destas profecias, Deus tirará a sua participação na árvore da vida e na cidade santa que são descritas neste livro”. (Ap 22.18-19)

Acho que cabe aqui um alerta para os que gostaram do filme A cabana e agora andam aí recomendando aos outros para que assistam. Cuidado, antes de fazer isso observe antes os pontos cegos do filme, estude a respeito e depois recomende com moderação, ou não recomende.

Voltando ao humanismo tão forte na obra A cabana, não é de hoje que o homem deseja livrar a cara do homem diante de Deus. Até Moisés quis fazer isto. Em êxodo ele se queixou com Deus quanto ao destino dos rebeldes de israel. E o que Deus respondeu?

Moisés voltou ao SENHOR e disse: “O povo cometeu grande pecado, fazendo deuses de ouro. Mas agora, lhe imploro, perdoe o pecado deles. Senão, peço que me risque do livro que o SENHOR escreveu”. O SENHOR respondeu a Moisés: “Riscarei do meu livro todo aquele que pecar contra mim. Agora vá e conduza o povo ao lugar de que lhe falei; esteja certo de que o meu anjo irá à sua frente. Porém, no dia da minha visitação, eu os punirei pelos seus pecados”. Ex. 32.33,34

E ainda: “Farei passar toda a minha bondade, e diante de você farei saber o meu nome: Eu sou o SENHOR. Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia, e me compadecerei de quem eu quiser me compadecer”. Ex 33.19,20.

O gênero parábola é uma das vertentes da ficção e é encontrada em toda a Escritura, mas sempre como forma de ensino das verdades eternas. Cristo contou muitas parábolas, mas em todas elas ele permaneceu fiel ao todo das Escrituras. Tudo combinou o tempo todo. Deus é um juiz e sentencia o ímpio, Deus é um pai amoroso que perdoa e recebe o arrependido, o evangelho é a joia de maior valor. Em todas as parábolas Jesus considerou como ponto de partida as verdades que já tinham sido reveladas na essência da divindade.

  1. S. Lewis foi um ícone nesse gênero seus livros ainda estão entre nós, mas recebeu duras críticas de ter exagerado no quesito magia, esquecendo de reafirmar que a Palavra de Deus é a única autoridade. No desejo de ir além quando o assunto foi magia e realidade bíblica ele desenvolveu o invencionismo mais do deveria.

O teste da serpente no jardim consistiu basicamente em ir além das palavras do criador, negou o absoluto e plantou em Eva o desejo pelo mito, quando afirma “Foi isto mesmo que Deus disse? ”. A vigilância dos cristãos deve ser redobrada nestes tempos e nem a ficção pode nos afastar do que está escrito. Vivemos uma época de escassez de uma verdade final, ou do “qualquer coisa serve e pode ser a verdade”.  Não esqueçamos que A verdade do Evangelho é irreconciliável com a cultura do mundo. Ser cristão, inclusive é ser um “rebelde” à estas formas do mundo. Não há ponte, não há atalhos viáveis.

“Filho do homem, estes homens levantaram os seus ídolos nos seus corações, e o tropeço da sua maldade puseram diante da sua face; devo eu de alguma maneira ser interrogado por eles? ” (Ezequiel 14:3)

“Pela lei da justa compensação, o coração dos que brincam com assuntos religiosos será destruído pelo brilho excessivo da verdade em que tocarem. Os olhos serão cegados pela luz que contemplam”. A.W.Tozer (1897 – 1963), pastor americano.



Sady Santana

Sady Santana

Jornalista pelo Mackenzie, estudou teologia no IBEL onde descobriu o seu amor por missões e pela noiva de Cristo. Atualmente está ajudando seu esposo, pastor Nelson Ferreira, na implantação de uma igreja no Grajaú, SP. Mestranda em Teologia filosófica no Centro Presbiteriano de Pós-graduação Andrew Jumper.


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