O lado obscuro do pseudo-acordo de reconciliação palestina

A lição que desponta da pabulagem das lideranças palestinas é “com o terror não cabe negociação”!


O lado obscuro da reconciliação palestina

Mais uma vez, o Hamas – grupo terrorista islâmico que controla a Faixa de Gaza como resultado de uma guerra civil em 2007 – e o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, celebraram um “acordo de reconciliação fajuto” intermediado pelo Egito, que teria por propósito encerrar a divisão existente entre as facções Fatah e Hamas[1]. Uma das partes envolvidas na negociação disse que o acordo possibilitaria à Autoridade Palestina assumir o controle da fronteira de Rafah, entre Gaza e Egito. Além disso, exatamente em 12 de outubro, foi anunciado que seria formado um “governo de unidade” em duas semanas.

Interessante que a falta de conhecimento dos jornalistas em geral acerca dos acontecimentos no Oriente Médio permite expressões que poderiam ser lidas como “piadas” por leitores de jornais árabes. Foi no mínimo “bizarro” ler no  jornal  Folha de São Paulo: “Um histórico acordo de reconciliação entre o partido Fatah e o grupo islâmico Hamas – ferrenhos rivais políticos – foi firmado nesta quinta-feira (12) no Cairo, Egito, e pode colocar um ponto final em uma década de rivalidade, violência e divisão interna na política palestina(…)”[2]. Alto lá! Como pode ser considerado “histórico” um acordo cheio de brechas e que já está fadado desde o início a ter o mesmo fim dos diversos “acordos” anteriores?

Em momento algum, as  questões cruciais da resolução acerca do braço armado do Hamas com seus 25 mil terroristas, e por conseguinte, o desarmamento e a renúncia ao terrorismo foram aventadas, e lá vem a “imprensa festiva” fazer alarde frente a mais uma “encenação” que não ensejará o término da rivalidade que resultou em centenas de mortos na guerra entre o Fatah e Hamas para controlar Gaza, em 2007.

Inadvertidamente, a imprensa ocidental não relatou o enredo que antecedeu o pseudo-acordo, que se deu “em bases não muito adequadas” aos ditames dos direitos humanos. A Autoridade Palestina conseguiu essa “façanha” de sentar-se à mesa de negociação com seus comparsas terroristas do Hamas após prolongado uso de medidas punitivas que trouxeram graves consequências humanitárias em Gaza. Isso sob a conivência da mídia ocidental, que não incentivou nem mesmo o uso de hashtag para criticar as violações de direitos humanos perpetradas pela Autoridade Palestina.

As medidas punitivas do ardiloso Abbas tiveram início em abril, mês em que houve redução dos salários de funcionários do governo e não foram transferidos os fundos financeiros para Ministérios importantes como o da Saúde e da Educação[3]. A Autoridade Palestina também efetivou corte da compra de combustível para a única usina de energia de Gaza. A suspensão das atividades da usina em abril provocou uma redução do fornecimento para quatro horas de eletricidade por dia, e em algumas semanas caiu para entre duas e três horas[4]. Porém, não assistimos comentaristas de TV criticando Abbas pela crise humanitária que gerou; as redes nem notaram a degradação causada pelas disputas internas palestinas. Se não for possível alocar Israel como “culpado” das desgraças, a opinião pública global perde o interesse em se compadecer pelos árabes que vivem em Gaza.

Cumpre, ainda, ressaltar que a Organização Árabe para os Direitos Humanos no Reino Unido (AOHR UK) responsabilizou o presidente Abbas pela morte de vários palestinos, incluindo bebês, por não ter autorizado a busca de tratamento fora de Gaza. Centenas de pacientes com câncer e outras enfermidades graves não obtiveram autorização para financiamento ou encaminhamento objetivando tratamento médico. A instituição humanitária afirma que “a decisão da Autoridade Palestina de proibir viagem para tratamento médico é um crime contra a humanidade” e insiste que o Tribunal Penal Internacional tem o dever de investigar a proibição[5].

Abbas nega o direito elementar a tratamento médico do seu povo, mas quando seus parentes precisam de socorro, escolhe hospitais em Israel como aconteceu com seu cunhado submetido a cirurgia no coração num hospital da rede privada em Tel Aviv[6], sem que os muitos defensores do movimento BDS[7] protestassem por ser utilizada a competente rede hospitalar do Estado judeu.

E apesar da AOHR UK asseverar que a punição coletiva contra a população de Gaza e sua privação de serviços de saúde, alimentos e energia, constituírem “crime contra a humanidade” e violação das convenções e acordos internacionais, tais como o Estatuto de Roma, as redes e grande mídia não se pronunciaram, uma vez que não poderiam “acusar” Israel pelas violações de direitos humanos impostas por Abbas contra o seu próprio povo num mesquinho “jogo de poder” com o Hamas.

Por outro lado, o grupo terrorista Hamas não escapa de críticas contundentes advindas de seus funcionários, que denunciam isolamento regional do movimento, declínio da economia e segurança, e eliminação da liberdade de expressão. Outrossim, lideranças palestinas acusam o Hamas de “contribuir para a divisão interna e assim, evita qualquer progresso político, diplomático, econômico e social na arena palestina”[8]. Pois é, em sites e redes palestinas, o principal funcionário do movimento terrorista, Ghazi Hamad, conclamou “um auto-escrutínio no Hamas, uma reavaliação das suas relações com o Fatah e formulação de uma estratégia nacional que ofereça uma chance de progresso no processo de paz em relação a Israel”, mas a mídia global não “enxerga” os “óbices árabes” que impedem as negociações de paz e atribui a Israel o rótulo de “culpado”, até porque o vulgo não vai se preocupar em acessar meios de comunicação árabes para buscar a verdade dos fatos.

Assim, no dia 1º de dezembro, os grupos islâmicos sediados em Gaza devem entregar o controle do território ao governo internacionalmente reconhecido com sede em Ramallah, na Cisjordânia, mas o Hamas já avisou que não cumprirá uma das condições fundamentais do “acordo”. Ao invés de promover o necessário “desarmamento”, prometeu atacar Israel a partir da Cisjordânia, confrontando a manifestação de Abbas ao assegurar que “haverá apenas uma força de segurança nos territórios palestinos”[9].

Do mesmo modo, os Estados Unidos e Israel rejeitarão o “governo de unidade”, fruto de um acordo entre as facções sem que se estabeleça não somente o indispensável desarmamento, mas também, a renúncia ao terrorismo e o reconhecimento do Estado de Israel. Logo, não há dificuldade alguma para se antever o “blefe islâmico”, pois o intuito das lideranças palestinas nunca foi construir um Estado de direito, e sim, desruir um Estado legitimamente constituído cujas origens remontam há mais de 3 mil anos.

Novamente, é debalde o sofrimento dos habitantes de Gaza… de nada adiantaram as punições desumanas impostas pelo presidente Abbas para “forçar” a facção rival a negociar um “acordo de reconciliação”. O legado das “disputas regadas a sangue” a partir da ascensão do primeiro califado islâmico impede lideranças palestinas de renunciarem suas ambições pessoais para promover esse valor exclusivamente ocidental chamado de “bem comum”.

A lição que desponta da pabulagem das lideranças palestinas é “com o terror não cabe negociação”!

[1] https://www.timesofisrael.com/abbas-hails-final-agreement-with-hamas-to-end-palestinian-split/
[2] http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/10/1926550-grupos-rivais-palestinos-fatah-e-hamas-fazem-acordo-de-reconciliacao.shtml
[3] https://www.al-monitor.com/pulse/originals/2017/09/palestine-abbas-sanctions-gaza-international-pressure.html
[4] https://www.efe.com/efe/brasil/economia/egito-envia-combustivel-a-gaza-para-aliviar-crise-energetica/50000240-3304020
[5]http://aohr.org.uk/index.php/en/all-releases/item/7207-president-mahmoud-abbas-imposes-collective-punishment-on-the-gaza-strip.html
[6] https://www.timesofisrael.com/abbass-brother-in-law-gets-life-saving-heart-surgery-in-israel/
[7] http://www.beth-shalom.com.br/v%C3%ADdeos/bds.html
[8]https://www.memri.org/reports/after-decade-hamas-rule-gaza-movement-officials-and-former-officials-call-self-scrutiny
[9]https://www.timesofisrael.com/rather-than-disarm-hamas-vows-to-attack-israel/?utm_source=dlvr.it&utm_medium=twitter



Andréa Fernandes

Andréa Fernandes

Advogada, Internacionalista, Jornalista, Colunista no Gospel Prime, Raciocínio Cristão, e Blog Ecoando a Voz dos Mártires, Fundadora e Porta-Voz do Movimento Nacional pelo Reconhecimento do Genocídio de Cristãos e Minorias no Oriente Médio e Diretora-Presidente da ONG Ecoando a Voz dos Mártires, que milita denunciando violações dos direitos humanos no mundo muçulmano objetivando fomentar conscientização humanitária para socorrer as vítimas da intolerância religiosa.


Deixe seu comentário!