O maior problema da igreja atual

Posso assegurar que neste caso estamos falando de algo que transcende quaisquer outros aspectos socioculturais, uma vez que enfatizamos aqui, prezado leitor, uma característica universal.


O maior problema da igreja atual

Há muitos problemas atuais na Igreja. Talvez possa soar pretensioso um texto que se proponha a falar sobre “o maior problema atual da Igreja”, uma vez que a Igreja é um organismo plural, multicultural, extenso, enfim, diverso. Contudo, é impossível não identificarmos algumas questões e posicionamentos das pessoas da igreja simplesmente por causa do aspecto humano, uma vez que a Igreja é composta de homens e mulheres. Assim, muitas das variações do comportamento humano, bem como algumas de suas características mais profundas, são justamente aquelas que encontramos na Igreja, e, posso assegurar que neste caso estamos falando de algo que transcende quaisquer outros aspectos sócio-culturais, uma vez que enfatizamos aqui, prezado leitor, uma característica universal.

Assim sendo, podemos também fazer outra inferência. Talvez, “o maior problema atual da Igreja” seja mais do que “atual”. Por que digo isto? Porque, pensando bem, se falamos sobre algo inerente ao comportamento humano, adâmico, natural, então referimo-nos a algo com o que o Homem convive desde sempre. Pode ter-se acentuado em momentos históricos diferentes, por vários motivos, mas nunca fora completamente aniquilado. E essa é a chave de nossa análise: situar a questão sobre a qual queremos abordar, dando-lhe a importância necessária, posto que precisamos fazer jus àquilo que dissemos no início do texto. Creio, que tal inferência, conforme argumentamos, não é sem propósito.

À esta altura, prezado leitor, você deve estar se perguntando que raios de “problema” é esse? Trata-se da hipocrisia. Um sentimento insidioso, difícil de ser identificado e facilmente confundido com outros, pois nós, todos potencialmente hipócritas, tendemos a, conscientemente ou não, amenizarmos o mesmo quando o encontramos em outros, posto que está mais ou menos cristalizado nas mentes das pessoas em nosso mundo moderno que os que se dispõem a denunciar problemas (principalmente os de caráter global) padecem do erro que denunciam. Ledo engano! E pretendo rapidamente e ao mesmo tempo em que apresento o porquê de elencar a hipocrisia como “o maior problema atual da Igreja”, defender-me a mim e em decorrência tantos outros que, como eu, têm repetidamente batido nesta tecla mundo afora.


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Jesus lidou com o problema da hipocrisia com os mestres e doutores da Lei, bem como com fariseus e escribas, chegando até o Sumo-Sacerdote de Israel (na verdade, os “Sumos”, pois a Bíblia revela-nos que, à época de Jesus, Anás juntamente com Caifás, seu genro, revezavam-se no comando religioso de Israel). A pior demonstração de hipocrisia religiosa nos dias de Jesus, ao meu ver, foi do próprio Caifás, que protagonizou a seguinte cena, registrada no Evangelho de Mateus, 26:63b-66:

“Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus. Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste; entretanto, eu vos declaro que, desde agora, vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu. Então, o sumo sacerdote rasgou as suas vestes, dizendo: Blasfemou! Que necessidade mais temos de testemunhas? Eis que ouvistes agora a blasfêmia! Que vos parece? Responderam eles: É réu de morte”.

Para aqueles que possam ter alguma dúvida de quem era Caifás, o Evangelho de João bem nos revela algo de sua natureza. Era frio, calculista e de forte poder persuasivo. Uma combinação malignamente explosiva, bem como atual. Em João 11:49-53, a Bíblia nos diz:

“Caifás, porém, um dentre eles, sumo sacerdote naquele ano, advertiu-os, dizendo: Vós nada sabeis, nem considerais que vos convém que morra um só homem pelo povo e que não venha a perecer toda a nação. Ora, ele não disse isto de si mesmo; mas, sendo sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus estava para morrer pela nação e não somente pela nação, mas também para reunir em um só corpo os filhos de Deus, que andam dispersos. Desde aquele dia, resolveram matá-lo”.

Jesus, portanto, já estava “morto” antes da cruz, nas mentes dos líderes espirituais de Israel, que já haviam decidido mata-lo bem antes do julgamento de Pilatos. Esta história, muito conhecida de todos nós, eterniza-se na história da Igreja, que por sua vez se confunde com a própria História da civilização ocidental nos últimos dois mil anos, tendo os judeus fariseus, doutores da Lei e escribas paulatinamente tornado-se os próprios arquétipos da falsa espiritualidade, do sentimento insidioso, enganoso, maligno, enfim, hipócrita. A Igreja, onde quer que existisse, passaria a chamar os homens de seu seio, que fossem identificados com o veneno da hipocrisia, de “fariseus”, nome que, atualmente, é absoluto sinônimo de hipocrisia e legalismo. Contudo, arrisco dizer que a hipocrisia ainda lhe é mais associada do que o legalismo.

Como a Bíblia revela, pelo que vimos, que o julgamento de Jesus fora um teatro armado, uma vez que ele já estava condenado pelos fariseus e doutores da Lei muito antes de ser julgado, assim podemos afirmar que nosso conceito de hipocrisia, preconizada na pessoa e terminologia “fariseu”, caracteriza-se na Igreja por uma falsa espiritualidade/piedade, com característica latente de produzir “teatros” armados em nome da fé, tenham esses as caras que tiverem: a do sentimentalismo em detrimento da racionalidade; a da sagacidade e leviandade escondidas sob um viés “acadêmico”; a da soberba e inveja que se ocultam sob o manto da “crítica construtiva” que na verdade é absolutamente destrutiva; ou mesmo o politicamente correto sorriso, que geralmente vem acompanhado das também politicamente corretas palavras lisonjeiras, as quais, por sua vez, escondem sentimentos escusos, sombrios, malignos, demoníacos.

Isto está tão alastrado em nosso meio e faz parte tão intrinsecamente do mundo em que vivemos, que seria impossível versarmos, como pretendemos, um pouco mais detalhadamente sobre esse desvio espiritual e moral, uma vez que é antididático tratarmos sobre o mesmo em um texto-coluna neste espaço. Por isso, decidimos trabalhar algumas nuances explicativas deste problema em partes, pois pretendo elencar algumas de suas principais causas e abrangência, seus desdobramentos teóricos (bíblicos) e práticos (morais), nos quais exporemos mais a fundo suas implicações, haja vista termos intitulado esta breve série de ensaios como “O maior problema atual da Igreja”.

Se você foi mais perspicaz, prezado leitor, percebeu que intitulamos propositalmente daquela forma esta série, mesmo sabendo que, quando chamamos de “problema atual”, não queremos dizer que “só é atual”, mas destacamos sua inerência ao próprio gênero humano, pecador, auto-indulgente e conivente com o mal. Esperamos poder elucidar ao menos algumas daquelas implicações, munindo a Igreja de ferramentas, principalmente bíblicas, afim de que sejamos mais humildes e que possamos ter um discernimento melhor trabalhado. Eis, talvez, algo como “a maior necessidade atual da Igreja”.

(CONTINUA….)



Artur Eduardo

Artur Eduardo

Graduado em Teologia e Filosofia. Pós graduado em Doc. do Ensino Superior, Teologia Bíblica e Psicopedagogia (FATIN). Mestre em Filosofia (Univ. Federal de Pernambuco). Doutorando em Filosofia (Univ. Federal de Pernambuco). Diretor do IALTH (Inst. Aliança de Linguística, Teologia e Humanidades). Pastor da IEVCA (Igreja Ev. Aliança). Casado com Patrícia, com quem tem uma filha, Daniella.


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