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O processo nos prepara para o chamado

O processo nos prepara para exercer o chamado, mas só se permitirmos que ele nos prepare


O processo nos prepara para o chamado
O processo nos prepara para o chamado

O apóstolo Pedro não passava de um pescador quando Jesus o chamou para ser seu discípulo e tornar-se, mais tarde, um dos ícones do Novo Testamento e do Cristianismo. Jesus o chamou não com base no que ele era no presente, mas com base no potencial que tinha para se tornar o que se tornou no futuro.

Pedro, após quase se afogar ao tentar andar por sobre as águas com seu mestre, poderia ter “se tocado” de que, embora estivesse com Jesus diariamente, não possuía fé suficiente. Ali poderia ter deixado o processo, voltado a pescar e levar uma vida comum como os demais concidadãos de sua época.

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Mais tarde, após ter negado Jesus, –– tempo depois de ter dito que se permitiria ir preso e até morto com seu mestre –– refletiu e chegou à conclusão de que deveria, de uma vez por todas, abandonar aquele chamado e voltar para o ramo da pesca, pois, embora houvesse riscos no mar, as variáveis eram mais fáceis de serem previstas e de se precaver para enfrentá-las. E foi o que ele fez.

Aquela circunstância do processo o frustrou e o fez desanimar. Só que Jesus sabia que aquela circunstância do processo era ideal para que Pedro perdesse sua falsa noção do que era militar no e para o Reino de Deus.

Jesus sabia que aquele momento acordara Pedro para a realidade, pois até aquela circunstância Pedro havia comido pão multiplicado, visto cegos enxergarem, aleijados serem curados, demônios serem expulsos e etc., mas não tinha sentido a realidade de uma perseguição por ser agente provocador dessas coisas.

Quando vivemos usufruindo milagres e os vendo acontecer em benefícios de outros também, acabamos por construir dentro de nós uma realidade a parte do que de fato é real (milagres são exceções). Foi por isso que os judeus –– que viveram os maiores milagres no deserto –– negavam a Deus por pouca coisa, pois a realidade que experimentavam a partir das bênçãos os fazia entrar numa espécie de zona de conforto, os tornando intolerantes aos mínimos desconfortos. Aquela geração que saiu do Egito, exceto Josué, Calebe e o sacerdote Eleazar, morreu no deserto por se negar a viver a parte real à parte da realidade dos milagres ––enfrentar os moradores da terra prometida e os vencer em batalhas.

Os milagres excessivos vistos por Pedro não lhe fixavam na fé, pois o que era uma exceção para as outras pessoas, para ele era a “regra”, pois via acontecer diariamente. Jesus foi atrás de Pedro à beira mar porque sabia que aquela circunstância o tinha feito se atentar para o outro lado da realidade.

No dia em que foi preso, Jesus sabia que Pedro iria negá-lo, e isso é tanto verdade que ele mesmo disse ao discípulo que antes que o galo cantasse, ele o negaria por três vezes. Ao anunciar a Pedro que isso iria acontecer, Jesus “armou” um gatilho que o deflagraria para a realidade necessária no momento em que ele negasse o mestre.

Jesus, quando foi ter com os discípulos no Mar de Tiberíades, onde Pedro também estava pescando, já chegou operando um milagre. Quando Pedro se aproximou do mestre, depois de terem comido, Jesus perguntou a eles por três vezes se o discípulo o amava. Pedro, na terceira Vez responde dizendo que amava e que Jesus sabia que sim. O mestre, também, pela terceira vez lhe diz: “apascentas as minhas ovelhas”.

Jesus diz ainda para ele que ele era um moço, até então, que tinha dificuldades de lidar com a contrariedade, mas que o processo fez dele alguém tão submisso à missão do chamado, que, no futuro, iriam levar ele para onde não queria ir e ele iria sem resistir (João 21. 15 a 22).

Pedro, quando viu a João seguindo o mestre, inquiriu Jesus o porquê ele o seguia, pois ele é quem havia perguntado a Jesus, na Santa Ceia, quem o haveria de trair. Talvez Pedro tivesse pensado que João, ao fazer a pergunta, queria constranger a Jesus, por isso quis censurar a João (Versículos 20 a 22). Mas o Senhor o repreendeu dizendo: “Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu”, ou seja, Jesus quis dizer a Pedro que, quanto a seguir a Jesus, sua maior preocupação deveria ser consigo mesmo.

Jesus tem coisas grandes para realizar por intermédio do chamado que nos deu, mas, ao invés de sermos centrados nos outros, nas distrações, devemos nos centrar em perceber nossa própria situação diante do mestre e de nosso chamado, e nos livrarmos de nossas intransigências. O processo nos prepara para exercer o chamado, mas só se permitirmos que ele nos prepare.



Fernando Pereira

Fernando Pereira

Jornalista e acadêmico dos cursos de História e de Teologia.


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