MENU

O que é transgressão?

Termo possui diferentes usos na Bíblia


O que é transgressão?
O que é transgressão?

A Bíblia tem muito a dizer sobre o quanto o comportamento dos seres humanos é complicado. A maneira como os homens usados por Deus em sua revelação explicaram isso merece atenção, especialmente por que alguns termos podem soar ‘estranhos’ para os nossos dias.

Palavras como “pecado”, “iniquidade” ou “transgressão” são usadas repetidas vezes nas Escrituras para falar sobre a condição humana. Através destas palavras, os autores bíblicos nos oferecem um diagnóstico profundo da natureza humana. Então vejamos:

Leia mais

“Iniquidade” refere-se a todo comportamento que é errado. “Pecado” é sinônimo de fracasso moral. Já “transgressão” é uma palavra com nuances que precisam ser melhores entendidas.

No hebraico do Antigo Testamento, o substantivo é “pesha” e o verbo é “pasha”, enquanto no Novo Testamento, a palavra grega é “paraptoma“. Esses termos geralmente são traduzidos como “transgressão” ou “rebelião”. Nas traduções mais antigas também se usava “crime”.

Em comum, vale ressaltar que tais palavras referem-se a maneiras como as pessoas violam a confiança dos outros. “Pesha” – usada 93 vezes no original – descreve a traição de um relacionamento. Como existem muitos tipos de relacionamentos, a ideia pode referir-se a coisas bem diferentes.

Por exemplo, se duas nações possuem um acordo, chamamos isso de “tratado”. Nesse caso, “pesha” descreveria a quebra desse acordo. É o que acontece no livro de 2 Reis 1, onde lemos: “Depois da morte do rei Acabe, Moabe pasha com Israel”. Isso geralmente é traduzido como “Moabe se rebelou contra Israel”. Mas no hebraico bíblico, você não pasha contra alguém, você pasha com eles. Ou seja, você rompe a confiança com tal pessoa.

Essa mesma ideia aparece em uma lei do Antigo Testamento sobre roubo. Se um israelita está viajado e alguém invade sua casa e pega algo sem você saber, isso é roubo. Mas, se o ladrão for o seu vizinho, é pesha, porque é alguém em quem você deveria confiar.

Também temos a parte da história em que Jacó foge de Labão, seu tio. Labão acusa Jacó de roubar algumas estátuas de ídolos. Em Gênesis 31 procura todos os pertences de Jacó e não encontra nada. Então Jacó grita: “Qual é o meu pesha? Como eu violei sua confiança?”  (vs. 36) A ironia é que as estátuas foram roubadas pela esposa de Jacó, a filha de Labão. Isso é que é quebrar a confiança!

Entenda, pesha envolve uma pessoa ou grupo que viola um relacionamento de confiança com outro. Esta é uma palavra muito comum na Bíblia porque é uma longa história sobre um relacionamento quebrado entre Deus e os israelitas.

No Monte Sinai, eles concordaram em adorar apenas o seu Deus e cuidar dos pobres que viviam entre eles. Mas não mantiveram a palavra. Então, Deus levantou profetas para confrontá-los.

É o caso de Miquéias, que disse: “eu estou cheio do poder do Espírito do Senhor, e de juízo e de força, para anunciar a Jacó a sua transgressão e a Israel o seu pesha” [Mq 3:8]. Ou então o profeta Amós, que acusou os israelitas de pesha.

Especificamente, os recriminou por idolatria e por vender os pobres por um par de sandálias [Am 8:6]. Ele também acusou outras nações, como Tiro, que lucrava capturando cidades inteiras para depois vendê-las como escravos [Am 1:9-10]. Ou os amonitas por assassinarem os inocentes para ampliar suas fronteiras [Am 1:13].

Para Amós, estes são todos atos de pesha. Eles violam a confiança universal existente entre todos os seres humanos, criados à imagem de Deus. O profeta denunciou que esses líderes ignorarem ou justificarem os maus tratos aos humanos em nome da segurança nacional ou de uma economia forte. Contudo, Amos via ali uma traição da humanidade. Faz todo sentido, pois esses profetas associam pesha a palavras como “traição” ou “falsidade”.

Já no grego do Novo Testamento, o apóstolo Paulo desenvolve esta descrição dos humanos como “quebradores de confiança” usando a palavra paraptoma.

Ele lembra a história em Gênesis sobre Adão, que significa “humanidade” em hebraico. O relato bíblico é que a humanidade quebrou a confiança de Deus e tomou pra si a autoridade para discernir o bem e o mal sozinhos. Paulo chama isso de “o paraptoma de Adão”, a violação da humanidade da confiança com Deus e uns com os outros. Isso leva a uma intricada rede de relacionamentos rompidos e traídos, que levam à violência e à morte.

Ainda assim, para Paulo, essa não é a última palavra. Ele diz em Romanos 5:15: ” Pois se muitos morreram por causa da paraptoma de um só, muito mais a graça de Deus, isto é, a dádiva pela graça de um só homem, Jesus Cristo, transbordou para muitos!”

Em vez de deixar a humanidade se destruir em traição, Deus levantou um homem, o qual permitiu que nossa pesha fizesse o pior para ele. Nesse caso, Paulo está usando o retrato do servo sofredor do profeta Isaías 53, aquele que não cometeria violência ou tivesse qualquer engano em seus lábios.

No entanto, seria contado entre aqueles que pasha, suportando seus fracassos e intercedendo em favor deles. Esta é a surpreendente história da Bíblia: a resposta de Deus à pesha e paraptoma da humanidade foi se tornar confiável por nós.

Os apóstolos afirmam que, em Jesus, Deus assumiu a responsabilidade por nossa traição para que pudesse nos dar um novo futuro e uma nova maneira de ser humano: o caminho da fidelidade, confiabilidade e integridade. Esse é o tipo de humano que Jesus foi e é. O tipo de seres humanos que ele quer gerar, enquanto guia fielmente nosso mundo para a nova criação. Traduzido e adaptado de The Bible Project

Assista:



Jarbas Aragão

Jarbas Aragão

Jarbas Aragão é pastor, professor de inglês e tradutor. Quando não está cuidado dos filhos lê, vê filme e séries. Formado em teologia, acredita que cristão precisa usar discernimento pra ver o mundo.


Deixe seu comentário!