O terrível mal do abandono

“Ao aflito deve o amigo mostrar compaixão, ainda que tivesse deixado o temor do Todo-Poderoso”, Jó 6:14.


O terrível mal do abandono

De todas as atitudes humanas reprováveis, uma das mais danosas é o abandono. Tenho visto e, também por experiência própria, que o abandono é não apenas o sinal da covardia humana, mas expressa, pecaminosamente, o que podemos produzir de mais desumano. O abandono pode acontecer de inúmeras formas, até presencialmente! Um exemplo clássico de abandono presencial se deu com Jó e seus “amigos”.

Após o infortúnio da perda de todos os bens e, também, de seus filhos, Jó precisaria passar por uma sabatina inescrupulosa preconceituosa de seus amigos, Elifaz, Bildade e Zofar. Todos sob o mesmo escrutínio: fazer Jó “confessar” seu suposto pecado, pois, em sua mentes espiritualmente turvas, “não era possível que um justo sofresse o que Jó estava sofrendo, salvo se houvesse cometido pecado”. Eles estavam com Jó, mas não para consolá-lo ou ajuda-lo, ainda que tivesse errado: seu único objetivo presencial era o de mostrar o quanto estavam dispostos a julgar, a condenar e a “executar” o amigo. Diante deste abandono presencial, Jó lamenta profundamente e diz uma das mais profundas passagens da Bíblia acerca da amizade:



Ao aflito deve o amigo mostrar compaixão, ainda que tivesse deixado o temor do Todo-Poderoso”, Jó 6:14.

Em dias nos quais a religiosidade está em alta, temos visto como nosso religiosismo pode ser danoso. A religiosidade em si é algo que, a despeito de toda a defesa por parte dos religiosos, é algo que pode produzir o pior entre os homens – e inda mais grave: em nome de Deus! Foram religiosos os homens que, na famosa parábola de Jesus, deixaram à míngua o judeu que havia sido atacado por salteadores (Lc. 10:30-37).

Foram religiosos que perseguiram e mataram os profetas. Foi a nata religiosa que instigou varões religiosos de Jerusalém a abandonarem e matarem o Autor da Vida, conforme denuncia Pedro em Atos 2. São religiosos que, atualmente, perpetram as mais hediondas cenas de terror, em nome de um senso distorcido de justiça, o qual funciona apenas em suas cabeças. São religiosos que, nas igrejas, diariamente protagonizam cenas dantescas “em nome da fé”, criam ou acentuam inimizades, abandonando uns aos outros e, com toda a força de uma mente corrompida, aviltam-se em praticarem exatamente o que condenam, tornando-se aquilo que execram.



Não é de admirar que, concomitantemente, vê-se uma animosidade crescente com o fervor religioso, o qual ascende indiscriminadamente em todos os círculos sociais. O contraponto, o antirreligiosismo vigente nas elites ocidentais, nada mais é do que o ponto oposto do mesmo espectro: na verdade e no fim das contas, abandonamos o amor, o “cimento” divino que se nos foi outorgado como o melhor que pode unir os homens.

Esta é a chave do sentimento desumano do abandono: a absoluta falta de amor! O que impede os homens, até os mais doutos e versados nas Escrituras Sagradas, a agirem em oposição ao que se nos ensinam as próprias Escrituras. Sem o amor, as palavras de Jó, apesar de certas, tornam-se sons vazios a ouvidos insensíveis e a tendência é que os religiosos continuem dentro e fora dos templos, batendo em seus peitos, com tapinhas mútuas em suas costas, vangloriando-se perante Deus e os homens do quão bons, misericordiosos e justos são….. Só que não.



Artur Eduardo

Artur Eduardo

Graduado em Teologia e Filosofia. Pós graduado em Doc. do Ensino Superior, Teologia Bíblica e Psicopedagogia (FATIN). Mestre em Filosofia (Univ. Federal de Pernambuco). Doutorando em Filosofia (Univ. Federal de Pernambuco). Diretor do IALTH (Inst. Aliança de Linguística, Teologia e Humanidades). Pastor da IEVCA (Igreja Ev. Aliança). Casado com Patrícia, com quem tem uma filha, Daniella.


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