Onde vai parar a “geração Nutella”?

Nossa geração tem sido ensinada a viver no mundo ideal, e não no real.


Onde vai parar a "geração Nutella"?

Delicadeza, busca pela unanimidade e frouxidão são aplicações adjetivas que podem descrever bem essa nova geração de crianças, adolescentes e jovens brasileiros, que tomam como ofensa pessoal toda e qualquer contrariedade que sofrem, seja de ideias ou de opiniões.

Eles querem estar certos não por uma questão de lógica, mas de gosto. O certo não são os fatos, mas suas vontades. Para eles, dois mais dois só resulta em quatro quando lhes for conveniente.



Outro dia li a notícia de que uma jovem ficou descontente com o modo como o espaço onde ela tocaria um negócio ficou disposto, depois da intervenção de uma empresa, e que, por isso, se matou.

Isso mostra que nossa geração tem sido ensinada a viver no mundo ideal, e não no real.

É somente no mundo ideal é que conseguimos “soluções” fáceis para os problemas difíceis, como por fim a existência de algo ou alguém que nos cause desconforto. Como no mundo real não é tão fácil eliminar o problema e/ou o outro, elimina-se a si mesmo.



Por ser ensinada a viver com o ego tão em voga, nossa geração, ao enfrentar um revés, prefere não ter de lidar com o sentimento, em princípio, ruim, que eles trazem, como medo, tristeza, decepção e outros. A vida real é composta pela alegria e pela tristeza, pelo nascer e pelo morrer, pela dor e pelo prazer. Sem um o outro não faz sentido. Sem o medo (da perda, da dor e etc.) e/ou a vontade de conseguir o outro (a alegria, o sucesso e etc.), deixa-se de usar a energia vital.

Nossa “geração Nutella” não é “Nutella” no que tange a ser palatável, mas no sentido de que de estar se permitindo ser construída em série e com a mesma essência, deixando de ser e exercer a riqueza do ser individuo (único).



O que o mundo do ideal (o mimimi do mundo bom) pregar quanto as alterações na cor, sabor e modelo do recipiente, os “Nutellas”, que apenas se sujeitam ao bom ou mau uso que a realidade faz de si, continuaram sujeitos e não indivíduos.

Se um prego perfurar seu pé, você não terá como decidir se vai ou não sentir dor. Ou seja, a realidade se impõe. Se não nos preparamos para ela, a vida deixa de ser vivida para ser apenas pretendida.



Fernando Pereira

Fernando Pereira

Jornalista e acadêmico dos cursos de História e de Teologia.


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