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Lição 1 – Parábola: uma lição para a vida

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 1 do trimestre sobre "As Parábolas de Jesus"


Parábola: uma lição para a vida

Que trimestre maravilhoso nos está reservado para este último ciclo de estudos no ano 2018. Teremos o prazer de investigar os evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) para nos debruçar sobre o estudo das parábolas de Jesus: o que elas significam e quais as mensagens que elas trazem sobre o reino de Deus. Será um trimestre de muito aprendizado em termos de cultura e exegese bíblica. Mas não só isso: será um trimestre onde seremos desafiados a nos portar como integrantes deste reino de Deus, tão bem representados nas parábolas de Jesus!

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I. O que é parábola

Oferecer uma definição precisa do que é parábola não é empreendimento fácil. Nem sempre é possível distinguir com precisão a parábola de outras figuras de linguagens como símile (comparação) ou analogia. Como pontua Snodrass, “Nenhuma definição se mostrará completamente eficaz, pois qualquer uma ampla o suficiente para englobar todas as formas acaba se revelando tão imprecisa a ponto e se mostrar praticamente útil” [1].

Entretanto, como a compreensão adequada das parábolas de Jesus passa por um conceito adequado do que é parábola e da interpretação adequada dessa figura de linguagem, oferecemos ao leitor o conceito que julgamos razoável:

Parábola é uma “história simples e sucinta, destinada a comunicar uma verdade espiritual, princípios religiosos ou uma lição moral; figura de linguagem na qual ilustra-se determinada verdade comparando-a com experiências cotidianas (…) Um costume ou acontecimento bem conhecido é usado para ilustrar uma verdade com a qual os ouvintes não estão bem familiarizados” [2]

O conceito de Dodd realça um ponto importante da parábola, pois, segundo ele, em sua forma mais simples, a parábola é uma comparação tomada da natureza ou da vida diária, que atrai o ouvinte por seu brilho e singularidade e deixa a mente com certa dúvida sobre sua aplicação exata, de modo que estimula a uma reflexão ativa. [3].

O método característico dos ensinos de Jesus era o recorrente uso de parábolas. Nas palavras de Eleinai Cabral, Jesus “foi o Mestre por excelência na utilização das parábolas” [4]. Entretanto, vale salientar que as parábolas não foram criadas por Jesus, nem ele era o único a usá-las.

Há vários exemplos da aplicação eficiente desse recurso didático no Antigo Testamento. Talvez a parábola mais conhecida seja aquela elaborada por Natã a respeito do homem rico que tomou a cordeirinha de um pobre (2Sm 12.1-4, quando confrontou Davi após seu adultério com a mulher de Urias). A mulher sábia de Tecoa também usou uma parábola para convencer o rei Davi a permitir que seu filho retornasse a Jerusalém (2Sm 14.5-7). Portanto, vê-se nesses exemplos, dentre outros, que as parábolas foram um recurso de linguagem muito utilizado pelos hebreus.

Mas ninguém contou mais parábolas que Jesus em toda Bíblia! E toda parábola de Jesus tem duas características importantes:

  1. Um estímulo à reflexão – o que é o reino de Deus? Como ele se manifesta entre nós? Quais os valores e qual a ética desse reino? Quem é o verdadeiro rei e quem são os súditos deste reino?
  2. Um chamado à ação – O que esta parábola significa para mim? Que devo fazer em virtude dessa mensagem? Qual a minha resposta à Cristo e ao reino de Deus já manifestos?

II. Qual o propósito das parábolas

Costuma-se lidar com as parábolas como recursos didáticos usados para esclarecer uma verdade que se quer ensinar em relação ao reino (espiritual) de Deus. Ou seja, seriam recursos práticos para se fazer entender uma mensagem. Entretanto, isso é reduzir o propósito das parábolas, especialmente devido o uso que Jesus dá a elas em seu ministério.

  • Explicar ou complicar: ambas as coisas!

As parábolas são ao mesmo tempo histórias com estilo simples, mas com profundos significados; trazem assuntos do cotidiano, mas apresentam segredos do reino de Deus que nem sempre são compreendidos plenamente por quem ouve.

Pode-se dizer que há um duplo propósito nas parábolas de Jesus: iluminar a mente dos que creem, confundir os que não creem (como uma forma de julgamento divino). Ou seja, ao mesmo tempo em que uma parábola trazia uma revelação de Deus para os discípulos de Cristo, esta revelação permanecia propositalmente um mistério para os que deliberadamente recusavam crer em Cristo (Conf. Mt 13.10-17; Mc 4.10-12; Lc 8.8-10).

Kunz disserta sobre esse duplo propósito das parábolas (aparentemente contraditórios), da seguinte maneira:

“Isso não significa que Jesus, que foi enviado por Deus para proclamar a redenção dos homens caídos e pecadores, escondeu esta mensagem através de parábolas incompreensíveis. É necessário entender o contexto um pouco mais amplo no qual se encontram esses versículos. No capítulo anterior, Marcos relata que Jesus encontrara descrença, blasfêmia e oposição direta. Foi acusado de estar possuído por Belzebu e de expelir demônios pelo príncipe dos demônios (Mc 3.22). O contraste que Jesus apresenta é entre os seguidores e os oponentes, entre os que aceitavam e os que rejeitavam a revelação de Deus. os que fazem a vontade de Deus recebem a mensagem das parábolas porque pertencem à família de Jesus (Mc 3.35). Os que tentam destruir Jesus (Mc 3.6) não conhecem a salvação por causa da dureza de seus corações” [5]

  • Sem fé, sem luz!

Assim, hoje aprendemos que o propósito das parábolas não é apenas “explicar”, pois às vezes pode ter o propósito de “complicar”; não só esclarecer; pois às vezes tende obscurecer; não apenas revelar, pois aos descrentes a parábola serve para ocultar. Assim sendo, compreender as parábolas de Jesus demanda, antes de conhecimentos gramaticais, linguísticos ou exegéticos, fé!

Sim, crer em Cristo é o primeiro passo para a correta compreensão da mensagem de Jesus (1Co 2.12-14). Por isso Jesus orava: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11.25). Os que não creem, permanecem sob as trevas da ignorância, e sobre eles paira nuves de confusão.

III. Como ler uma parábola

  • Não desenvolver obsessão pelos detalhes

Elienai Cabral adverte os pregadores de que “ao interpretar uma parábola, deve-se evitar a preocupação exagerada com as minúcias, porque isso pode desvirtuar o ensino principal da parábola”. [6]

Embora eminentes hermeneutas sejam da opinião de que todos os detalhes de uma parábola devem sim ser objeto de atenção do ouvinte/leitor, e que a parábola pode ter mais que um sentido fixo (conf. discussão sobre isso em Kunz, pp. 30-31), outros eminentes intérpretes das Escrituras estão de acordo que “sair à caça de sugnificados para cada detalhe de uma parábola equivale a transformá-la numa alegoria [para qual cada detalhe da narrativa há um equivalente real]. Neste caso, seria acrescentar ao texto o que não está lá – um caso de eisegese” [7].

De fato, é inegável que há detalhes nas parábolas, especialmente as mais extensas que estão lá para intensificar o propósito central da lição que se quer transmitir, mas não necessariamente deve ser objeto de uma inquietação do leitor, buscando um significado espiritual ou moral para tal detalhe. Cabral exemplifica: “na [parábola] do Filho Pródigo, o eixo central é o amor do pai que recebe e espera pela volta do filho rebelde. Há pregadores que ficam tão preocupados em interpretar ‘as bolotas que os porcos comiam’ que acabam esquecendo o ensino principal da parábola”. [8]

  • Contexto e fundo cultural

No estudo de qualquer passagem bíblica, e as parábolas não fogem à regra, o estudante deve atentar para o contexto imediato em que a parábola está inserida, bem como o pano de fundo cultural que investe a parábola de significado.

Por exemplo: o leitor moderno precisa investigar o que é era a “dracma” da parábola de Lucas (15.8-10), para então compreender como Deus trata com tamanha alegria a salvação de um pecador que aos olhos dos falsos religiosos não tem qualquer valor. Aliás, é inusitado pensar numa mulher fazendo festa com as vizinhas somente pelo fato de ter encontrado uma moeda que não valia mais que o trabalho braçal de um dia. Não é maravilhoso que haja festa no céu por um pecador que se arrepende?

Conhecer os usos e costumes dos tempos bíblicos, conhecer os dramas e as necessidades do povo de Israel nos dias de Jesus, conhecer o funcionamento da política, da economia, do trabalho, das relações familiares, etc. são próprios para um adequado entendimento das parábolas. Outro exemplo: por que na parábola das dez virgens, apenas as virgens e o noivo são citados? Onde estava a noiva e por que ela não aparece na cena? Significa que o noivo iria casar com as dez virgens? Absolutamente não! As dez virgens não são “as dez noivas”. Conhecer as celebrações de casamento nos dias de Jesus pode, portanto, ajudar o intérprete na compreensão adequada da parábola.

  • Exegese bíblica

Kunz ressalta: “Não se pode ignorar o texto original. Na verdade, é do texto original que devem surgir as afirmações a respeito do texto. (…) Jesus falou o aramaico da Galileia, e no processo de tradução para o grego (ou de elaboração dos textos em grego), era inevitável que não só o vocabulário e as declarações de Jesus, mas também o fundo palestino encarnado neles, deveria ser traduzido em condições do ambiente helenístico [isto é, da cultura grega]. O exegeta deve ter tal conceito em mente ao fazer a exegese” [9]

  • O sentido atribuído por Cristo ou entendido pelos discípulos

A primeira coisa que o leitor das parábolas de Jesus deve perguntar é: o que Cristo quis dizer aos seus ouvintes com esta determinada parábola? Muitas vezes, o próprio contexto já traz a interpretação, dispensando do leitor que ele atribua significados espetaculares àquilo que Jesus já falou e explicou (como, por exemplo, o significado da parábola do semeador em Mateus 13).

E quanto os ouvintes de Jesus, como eles entendiam as parábolas de Jesus? Pois não raro eles mesmos se confundiam no significado delas, necessitando que Jesus os corrigisse e dissesse o real sentido de suas parábolas ou sentenças parabólicas, como quando ele falava do “fermento dos fariseus” (Mc 8.15-21; 16.6-12; Lc 12.1), para se referir ao ensino distorcido e à conduta reprovável dos falsos religiosos, que ele, Jesus, esperava que seus discípulos não se deixassem contaminar ou enveredar pelo mesmo caminho.

Conclusão

Teremos três meses pela frente onde estudaremos as parábolas de Jesus, refletindo sobre o significado delas e o nosso dever para com Deus em relação a este conhecimento que obtemos. Pois, como pontuamos neste estudo, as parábolas tendem a despertar uma reflexão e, ao mesmo tempo, levar-nos a uma ação. Que não sejamos apenas ouvintes (ou estudantes) das parábolas de Jesus, mas que sejamos praticantes!

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Referências
[1] Klyne Snodrass. Compreendendo todas as parábolas de Jesus, CPAD, p. 32
[2] Ronald Youngblood (ed. geral). Dicionário Bíblico Ilustrado, Vida Nova, p. 1076
[3] C. H. Dodd. Las parábolas del Reino. Cristiandad, p. 25
[4] Elienai Cabral. Parábolas de Jesus: advertências para os dias de hoje, CPAD, p. 8
[5] Claiton Kunz. As parábolas de Jesus e o seu ensino sobre o reino de Deus, A.D. Santos Editora, pp. 14,5
[6] Elienai Cabral. Op. cit., p. 11
[7] Claiton Kunz citando Zuck. Op. cit., p. 30
[8] Elienai Cabral. Op. cit., p. 10
[9]  Claiton Kunz. Op. cit., p. 29



Presbítero da Assembleia de Deus em Campina Grande-PB. Coordenador de Escola Bíblica Dominical. Autor do livro A Mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira.

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