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Por que o movimento evangélico cresce e o Brasil não melhora?

Esta pergunta me intriga há alguns anos.


Por que o movimento evangélico cresce e o Brasil não melhora?

Em 2020, provavelmente seremos numericamente a classe religiosa predominante no país. Todavia, o que vemos hoje, já com todo um avanço do movimento evangélico em décadas? Corrupção na política, a violência urbana, a desigualdade social nunca foram tão alarmantes. Jamais vivemos com tão baixa qualidade de vida, e jamais sofremos tanto com a ausência de representatividade na sociedade.

Quando a sociedade brasileira procura debater assuntos densos e vitais, pouquíssimos evangélicos são chamados à participar da conversa. Seria apenas uma perseguição velada ou de fato estamos destoando na relação “discurso x prática” do que cremos? Não seria o evangelho a solução para que o ser humano fosse redimido e vivesse num contexto de graça e não de impiedade? Por que então a nova vida em Cristo não promove na comunidade da fé uma práxis tão relevante entre os incrédulos que os atraiam a nos ouvir, mesmo que em assuntos não-religiosos?

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E mais: ainda somos um povo marcado por algumas expressões:

Dízimos: fora a polêmica em si sobre o conceito, usam essa prática como um meio de acusar os pastores de ladrões e vagabundos.

Fofoca: o pecado mais comum entre os arrais evangélicos, e ao mesmo tempo menos passivos de disciplina ou até exclusão do rol de membros, o que é bem diferente do pecado sexual no namoro.

Gula: “crente não bebe, mas come (…)”.

Hipocrisia: os que não frequentam uma igreja evangélica sempre pensam que os evangélicos devem se impor moralmente sobre os outros – um fardo que eles mesmos não poderiam carregar na vida.

Tais marcas são significativas; porém, em especial, o que mais nos marca nesta geração é o fato de que demonstramos algumas negligências na missão, na ação social, no testemunho de vida e na comunhão. Claro que não se pode generalizar, pois sempre existem os famosos sete mil que não se dobraram a “Baal”, mas “7.000” numa demanda milionária em termos nacionais e bilionária de gente em termos globais a se alcançar com o evangelho é muito pouco.

Uma série de constatações

Respondendo objetivamente à pergunta do título deste artigo, creio que duas palavras abririam espaço para uma compreensão desta resposta: engajamento cristão.

Se houvesse mais engajamento missionário, mais engajamento político, mais engajamento intelectual, mais engajamento profissional, ético, teológico e eclesiástico, com tudo isso visando a glória de Deus e a salvação dos homens, creio que o crescimento seria manifesto em transformação da sociedade como um todo.

A sociedade está sofrendo porque a Igreja (com algumas exceções), de forma geral, está enclausurada em programas, movimentos em quatro paredes, consumismo, materialismo, disputas templocêntricas, eventos com um fim no dinheiro ou no entretenimento etc. Pouco produzimos na sociedade, pouco se investe em “gente”.

Muitos são evangelistas ou profetas apenas no Facebook enquanto gente ao nosso lado morre de depressão.

Somos pouco reflexivos e muito sensitivos; somos barulhentos e não damos valor à meditação na Escritura conforme Salmo 1, além de não aceitarmos críticas, como se toda opinião contrária ou fosse do demônio ou fosse emitida pelo outro por pura birra ou inveja.

Muita superficialidade; pouca devoção. Muito show gospel; poucas reuniões de oração e busca do poder de Deus. Muito discurso gospel; pouca prática cristã.

Há quem tenha crise com o termo “evangélico”, o que ainda não é o meu caso, pois entendo que tal termo é historicamente marcado por muita influência nas maiores transformações sociais que o mundo moderno sofreu, com o advento da Reforma e a participação efetiva de tantos irmãos cheios do Espírito Santo e da graça de Deus que não só pregaram mas serviram suas nações com obras dignas de Cristo, construindo creches, universidades, hospitais e outras instituições que promovem a vida e a dignidade humanas. A democracia, tão exaltada nos dias de hoje, é uma conquista de muitos irmãos evangélicos, direta e indiretamente. O estado laico, tão reivindicado nos tempos atuais, é uma vitória política alcançada pela cosmovisão reformada. Ser evangélico, no sentido puro do termo, é ser uma pessoa do evangelho, que busca a redenção do ser humano por meio da graça multiforme que há em Cristo Jesus, o Deus-homem. No entanto, é de se reconhecer que há hoje em dia um rótulo negativo sobre esta expressão “evangélico”.

E há ainda uma questão maior: a mensagem é poderosa, mas os mensageiros talvez não saibam disso.

Sendo assim, o que fazer?

Precisamos, a meu ver, de pelo menos três ações graciosas que iniciam-se em Deus, alcançam o nosso coração e, após transformá-lo, culminam em transformações na sociedade.

Avivamento genuíno

Que começa por um retorno às Escrituras. No entanto, o povo de Deus somente se voltará para sua Palavra quando o Senhor soberanamente agir em nosso favor por meio dos cristãos verdadeiros que já entendem a urgência visceral desta demanda espiritual. Os que já se posicionaram frente ao evangelho e decidiram esmagar o próprio ego todos os dias precisam assumir os púlpitos das igrejas e todas plataformas de comunicação das verdades divinas possíveis para gerar influência no máximo dentre aqueles que dormitam na fé. Precisamos pregar a palavra com paixão, fidelidade aos textos inspirados e ousadia, para que os grandes frutos da verdadeira vida no Espírito sejam produzidos.

A terra está clamando não por grandes avivamentos espirituais que se fundamentam e se estabelecem na sensorialidade epidérmica, mas por um avivamento embasado nos dois maiores frutos do evangelho: ARREPENDIMENTO E FÉ.

Discipulado bíblico

A palavra que esmaga o ego é a palavra que exalta o Senhor Jesus nos corações que foram feridos por ela. E estes que encontram o Rei por meio da mensagem magnífica do evangelho e decidem se arrepender e crer para a vida eterna são compelidos a encontrar o valor de sua espiritualidade no outro, naquele que carece de ensino e vida praticada. O discipulado bíblico é feito para que o discípulo se torne discípulo verdadeiro de Jesus, não de homens. E quanto mais discípulos de Jesus, mais atuações reais nos dramas da sociedade caída, gerando assim mudanças no status quo e um aumento da qualidade de vida em todos os âmbitos.

Redenção cultural

Cristãos que vivem o evangelho podem redimir a cultura vigente, que está sofrendo impactos fortíssimos do pecado. Os valores morais, o modelos políticos e socioeconômicos e toda uma maneira de se viver em sociedade podem se ajustar aos desígnios de Cristo revelados em sua palavra. O povo do Crucificado/Ressuscitado/Glorificado é ainda a esperança de dias melhores na nação brasileira. Oro para que, em ano de eleições, a comunidade cristã que entende o que significa o reino de Deus cumpra de forma aplicada a obediência de 2 Crônicas 7.14.

Deus pode sarar o Brasil. E o processo de cura começa de dentro pra fora. Começa, portanto, na cura de muitos evangélicos.



32 anos, é casado com Ana Talita, bacharelando em Teologia pela Unigranrio e colunista no site Gospel Prime. É pregador do evangelho, palestrante para família e casais, compositor, escritor, músico, trabalha no ministério de adolescentes da Igreja Batista Betânia e no ministério paraeclesiástico e missionário chamado Entre Jovens. Recentemente publicou um livro intitulado “Aos maridos: princípios do casamento para quem deseja ouvir”.

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