Precisa-se de homens com moral

Admitamos que nesse tempo a palavra de ordem na política é a corrupção.


Precisa-se de homens com moral

É do conhecimento popular que é abismal, profunda e crônica a decepção com os chamados “políticos”. Um tsunami de descrédito com os políticos varre toda a nação.

Recentemente, na última eleição para eleger os vereadores, presenciamos um candidato de uma cidade do Espírito Santo tentar entregar um “santinho” a um transeunte, e o mesmo não quis receber, dizendo: “Não vou trocar um ladrão por outro!” O candidato, por sua vez, retrucou ao eleitor imediata e impensadamente: “Você também é ladrão!”.

Ninguém deve ser apolítico. Isso seria puro e total escapismo. Deus instituiu a família, a Igreja e o Estado para que haja ordem na terra e justiça entre os homens. A Bíblia tem princípios notórios acerca do papel do Estado e da responsabilidade dos cidadãos, com a meta de que exista ordem e progresso na sociedade.

Contudo, admitamos que nesse tempo a palavra de ordem na política é a corrupção.

Vale dizer que não temos o poder de deixar de comunicar, ainda que brevemente, sobre a insuficiência de éticas humanistas reducionistas, que analisam apenas aspectos sociológicos e antropológicos da corrupção na política, deixando de incluir a dimensão pessoal, como: egoísmo, maldade, crueldade, despotismo, avareza, inveja, más intenções, más motivações, cobiça etc.

Pregamos uma conversão interior dos governantes e dos governados a Deus, alimentando uma forte e viva esperança que se arrependam do mal e pratiquem obras de justiça, externalisando essa transformação.

O jurista, político, diplomata, escritor, filólogo, tradutor e orador brasileiro, Rui Barbosa, alertou para o perigo das ratazanas que mordiam sem piedade o erário público, perdendo a capacidade de se envergonhar com isso. Sobre o assunto, ele escreveu o famoso texto: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se os poderes nas mãos dos maus… o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Infelizmente a maioria dos políticos se capitulam a um esquema de corrupção, de vantagens fáceis, de fisiologismo (que é a conduta de certos servidores públicos que visa à satisfação de interesses ou vantagens pessoais ou partidários, em detrimento do bem comum), do nepotismo (que é o favoritismo para com parentes, especificamente no poder público), enriquecimento ilícito, drenando as riquezas da nação, assaltando os cofres públicos e deixando um rombo criminoso nas verbas destinadas a atender às necessidades sociais, desviando dinheiro da educação, da saúde, da segurança, do turismo etc. As campanhas políticas milionárias já acenam e pavimentam o caminho da corrupção.

É diante desse quadro, que muitos evangélicos, por exemplo, ficam desencantados com a política e cometem vários erros, como o crasso erro de acreditar e aceitar que:

– “Política é pecado!”.
– “Política é coisa do diabo”.
– “O cristão não deve participar de política”.
– “O cristão deve ser apolítico”.
– “Toda pessoa que se envolve com política é corrupta”.
– “Todo crente e pessoa séria que se envolve com política, acaba se corrompendo”.
– “A política é mundana e não serve para os crentes”.
– “Não adianta fazer coisa alguma; devemos pregar o evangelho e aguardar o retorno do Senhor” etc.

Por outro lado, e fazendo parte de outro grupo extremista, estão aqueles que cometem outros erros, como:

– “Irmão sempre vota em irmão”.
– “Crente vota em crente”.
– “Todo crente é um bom político”.
– “Político evangélico deve lutar apenas pelas causas evangélicas”.
– “Em época de campanha política, o púlpito das Igrejas transformam-se em palanque político”.
– “A igreja troca voto por favores” etc.

A esta altura precisamos brindar o texto com a lúcida fala de que não podemos correr o perigo de se posicionar contra a carreira de cristãos na política, generalizando todos os casos. Cada caso e um caso, já reza o adágio. Entendemos que a autoridade política deve ser exercida como uma delegação concedida por Deus ao povo e do povo aos governantes, e isso independe do credo pessoal de cada um.

A verdade é que a pessoa que troca voto por favores e vende o seu voto ao homem mau é moralmente condenável. Seja ela evangélica ou não. É preciso votar. Mas votar certo. Alguém disse que politicamente podemos classificar as pessoas em alienadas, conscientizadas e engajadas. Diante dessa inevitável, mas necessária classificação, é importante assumir a responsabilidade da pesquisa, da busca da informação, da fundamental diligência a fim de fazer do nosso clique na urna eletrônica o poder capaz de mudar um país.

Votar bem e votar certo só é possível quando se desenvolve uma visão crítica daqueles que se apresentam em busca de nosso voto, e não transferindo para outros a última palavra de nos falar em quem votar, ou mesmo não exercendo o direito de votar, anulando o voto.

Não podemos nos ausentar da responsabilidade de votar. Aristóteles afirma que o homem é um ser político. A atitude de omissão não corresponde aos princípios de Deus nem à expectativa de Deus quanto à política.

É necessário dizer aquilo que é óbvio nesse momento: “aqueles que recebem um mandato pelo voto popular, não ascendem ao poder para se servirem do povo, mas para servirem ao povo. Não chegam ao poder para se realizarem nem se completarem, mas para se doarem.” Dentro dessa linha de pensamento e realidade, a vogal que sobe ao poder pobre e desce dele cheio de grana, não merece nosso voto.

O político que usa seu mandato para roubar os cofres públicos e desviar os recursos que deveriam atender as necessidades do povo, para se enriquecer ilicitamente, deve ter nosso repúdio e não nosso apoio. Política e “politicalha”, que é o substantivo feminino de “politicagem”, não se confundem, não se parecem, não se relacionam com a outra.

Antes, se negam, se repulsam mutuamente. “A política é a higiene dos países moralmente sadios. Citando novamente Rui Barbosa, “a politicalha é a malária dos povos de moralidade estragada”.

Devemos escolher um candidato pela sua vocação, por seu preparo, por seu caráter, por seu compromisso com o povo e propostas: Há coisas básicas como: saúde, educação, emprego, segurança, moradia, progresso etc. Se temos pessoas evangélicas com esse perfil, demos a elas a prioridade em nosso voto. Mas seria irresponsabilidade votar numa pessoa apenas por ser evangélica se ela não tem essas credenciais.

Fazemos coro com aqueles que pensam que votar bem é tão importante para nossa nação quanto orar por ela. Saramos nossa terra das suas doenças sociais e mazelas exercendo de maneira plena e cidadã nosso legítimo direito de escolher os melhores representantes com critérios claros, princípios estabelecidos e responsabilidade social.

Existem princípios gerais que, se seguidos e aplicados, produzirão a ética na política. Segundo este conceito, Deus abençoa a humanidade em geral com virtudes e qualidades, independentemente das convicções religiosas e políticas das pessoas.

É por este motivo que encontramos quem se professa cristão e não tem ética, e encontramos a ética funcionando pelas mãos de quem não se declara cristão. É a graça comum de Deus agindo no homem comum.

Entendemos que o caminho para a ética na política não é necessariamente converter todos ao cristianismo e nem colocar em cargos políticos quem se professa cristão, mas contribuir para que os princípios acima mencionados sejam reconhecidos e exercidos por todos, independentemente da convicção religiosa.

Não custa sonhar que um dia, mediante a presença de homens e mulheres, sobretudo, tementes a Deus no sentido mais literal da palavra, possam influenciar positivamente a nação brasileira e moldar nossa cultura com uma cosmovisão bíblica, oferecendo as bases morais, espirituais e lógicas para a ética na política.

“Quando os justos governam, alegra-se o povo; mas quando o ímpio domina, o povo geme”. Provérbios 29.2 Assim, para nossa alegria e não para nossa dor e gemido, que Deus nos brinde com vogais que exerçam o poder público com moral, lisura, honradez e sabedoria, pois, como pode se perceber e sentir, estamos precisando de homens assim.



Sergio Andrade

Sergio Andrade

Kleberson Sergio de Andrade é casado com Clause Miranda, pai de um casal de filhos, pastor batista desde 2002, escritor e professor universitário.


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