Redes sociais: a terra dos loucos e dos abutres

"... aprendem também a ser ociosos, andando de casa em casa; e não somente ociosos, mas também 'faladeiros' e intrigantes, falando o que não convém". (1 Timóteo 5.13)


Redes sociais: a terra dos loucos e dos abutres

Estava nesta semana numa viagem missionária pelo Sertão de Pernambuco, na cidade de Manari, quando ouço de minha esposa que mais uma polêmica gospel se espalhou pela internet – e como não devia ser diferente, a polêmica é sempre sobre a vida de alguém que não se chama “eu”.

Fiquei meio perplexo, não com a situação ou a pessoa envolvida, mas com o estado de minha alma quando recebi esta notícia. Porque para mim não estava fazendo o menor sentido trabalhar no discipulado e na promoção da dignidade humana em terras de muita dor e sofrimento e, simultaneamente, me ocupar com uma história no mínimo estranha e porque não desgastante. Simplesmente não me vi motivado a escrever um artigo para tratar disso.

Pois bem, estou agora num momento de descanso e resolvi escrever – mas ainda não será sobre a cantora ou o seu ex-namorado. Será sobre algo mais preocupante, mais triste e mais assustador: a capacidade de ditos servos de Deus se tornarem loucos e abutres através de um smartphone ou de um notebook.

Mais uma polêmica é mais uma prova de que o ambiente virtual da rede social comprova o que há de mais degradante no ser humano que se diz nascido de novo – tal ser se alimenta de futilidade e se locupleta do pecado alheio, de modo que nada mais (nada mais mesmo) pode lhe dar um sentido ou torna-lo pleno.

E é sempre o mesmo processo. A cada escândalo e a cada polêmica, sempre vemos a figura do louco e desequilibrado que se acha digno de tecer comentários sobre o outro como se acima deste estivesse, como se o seu pecado (que permanece oculto, ainda) não fosse tão escandaloso e hostil quanto, como se não praticasse coisa semelhante ou até pior na vida e ainda persistindo com a hipocrisia gospel que lhe conduz a alma a “agradecer por não ser como estes pecadores depravados…”.

Este louco é o religioso, o apontador de dedos, o hipócrita de marca maior, que não consegue retirar a trave sob o próprio olho, mas deliberadamente gasta tempo e vida preocupado com o cisco no olho do seu próximo.

Não distante deste supracitado está o abutre, que geralmente é um desigrejado ou um ser sem vida alguma no Corpo e que, como um legítimo animal selvagem que se alimenta de cadáveres, se lança nas mesmas redes para criticar a hipocrisia daquilo e daqueles que ele compreende por ser-instituição, ser sistema religioso, ser caixinha teológica e etc.

É o famoso mais santo que Jesus, o “bonzão”, que não carece de pastoreio e muito menos de ser/estar com a congregação, mesmo com a Escritura do início ao fim enfatizando a essencialidade de não se abandonar a comunidade da fé.

Este ser, na minha opinião, é a figura mais perigosa e perversa do cenário que enxergo e denuncio, pois este nunca pode ser exortado (uma vez que não está no Corpo visível de Cristo), nunca pode ser contrariado (pois odeia se submeter a toda e qualquer liderança) e nunca pode ser um discípulo de Cristo (considerando que o ensino de Cristo está sob a responsabilidade governamental da Igreja, instituída por ele mesmo no Evangelho e nos registros apostólicos).

Ou seja, tal figura se oculta do cotidiano e das relações diminutas do cristianismo, mas quando algo polêmico surge, esta incoerência humana emerge para condenar tudo e todos como se fosse a autoridade máxima do Reino de Deus.

Trata-se do tipo mais repugnante de gente e que somente a graça divina é apta para curá-la de tal engodo satânico.

O grande problema das redes sociais é dar voz aos idiotas. No entanto, precisamos entender que, a despeito deles, as redes sociais são uma ferramenta útil na propagação das verdades bíblicas e cristãs. Gostaria de encerrar elencando duas problemáticas que devem ser observadas para que não sejamos consumidos pelo espírito vazio de um ambiente que muitas vezes nos proporciona voz e poder, quando na verdade nem carecemos tanto dessas coisas:

1 – Ociosidade

  “… aprendem também a ser ociosos, andando de casa em casa; e não somente ociosos, mas também ‘faladeiros’ e intrigantes, falando o que não convém”. (1 Timóteo 5.13)

Existem pessoas que não sabem administrar a própria vida e querem dizer sobre o problema dos outros. Falham no cumprimento de suas tarefas profissionais (quando se esforçam por um emprego ou trabalho) para se dedicarem ao nada cibernético. Ficam de publicação em publicação, de Fuxico Gospel em Fuxico Gospel, de debate infrutífero em debate infrutífero alimentando o pecado da ociosidade. Falam o que não convém porque não estão priorizando o que tem que priorizar, no momento devido.

Se você não busca o Reino de Deus acima de tudo, se não se ocupa em cuidar e agradar o seu cônjuge e posteriormente filhos, se você não está se dedicando em servir a sua igreja local, se não está trabalhando em sua empresa ou em sua ocupação profissional “como ao Senhor” e ainda assim está 100% ativo nas polêmicas das redes, isso demonstra que o seu cristianismo é ralo e que a sua espiritualidade é tosca.

2 – Egocentrismo

“E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! Esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus”. (Lucas 12.19-21)

O maior o inimigo do evangelho é o egocentrismo. É quando a fé é sufocada e, o amor, vilipendiado. Muitos caem neste mal porque estão se ocupando demais em receber os famosos e desejados “likes”. Estão se expondo demais, opinando demais, criticando demais, discutindo demais… e tudo isso para nada. Pessoas que poderiam estar vivendo uma vida relevante, de serviço ao próximo, de amor materializado ou uma vida que revela o caráter gracioso de Deus sobre tantos que perecem neste mundo, mas que estão se reduzindo a um produto que precisa ser consumido na internet, caso contrário, apodrece na estante existencial.

A sua alma planeja conforto e satisfação própria, mas Deus lhe repreende dizendo que isso é loucura, pois esta noite te pedirão a tua alma. O que tu tens produzido nesta vida, o que tu tens preparado, para quem será?

Seja livre desta condição perversa. Não seja um louco muito menos um abutre, que se alimenta da queda dos outros ou da polêmica da próxima semana. Seja alguém que manifesta a graça e a misericórdia em tempos de multiplicação da iniquidade e, consequentemente, esfriamento do amor.



Maycson Rodrigues

Maycson Rodrigues

32 anos, é casado com Ana Talita, bacharelando em Teologia pela Unigranrio e colunista no site Gospel Prime. É pregador do evangelho, palestrante para família e casais, compositor, escritor, músico, trabalha no ministério de adolescentes da Igreja Batista Betânia e no ministério paraeclesiástico e missionário chamado Entre Jovens. Recentemente publicou um livro intitulado “Aos maridos: princípios do casamento para quem deseja ouvir”.


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