Lição 8 – Salvação e Livre-Arbítrio

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 8 do trimestre sobre “A obra da salvação”


Salvação e Livre-Arbítrio

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No primeiro ponto do segundo tópico da Lição 8, intitulada Salvação e Livre-arbítrio (4 Trimestre 2017, CPAD), no meio do texto em que traz um brevíssimo apanhado histórico sobre Jacó Armínio, o comentarista da Lição diz o seguinte:

“Tendo sido envolvido numa disputa calvinista, desenvolveu uma tese bíblica a partir dos primeiros Pais da Igreja, que foi denominada de Arminianismo. Sua principal característica é a defesa do livre-arbítrio” (destaque meu).

No livro A obra da Salvação (CPAD), também da autoria do comentarista da Lição, e que serve como livro de apoio para o professor da Escola Dominical ter o mesmo conteúdo da Lição bem mais desenvolvido teologicamente, o autor informa na página 89:

Jacó Armínio (…) Sua principal defesa doutrinária é o livre-arbítrio humano” (destaque meu).

Com a publicação de As Obras de Armínio em 2015 e de Arminianismo: a mecânica da salvação (Silas Daniel) ainda no primeiro semestre desse ano, e ambas pela editora CPAD, causa-me surpresa que este reiterado equívoco tenha “passado em branco” tanto na revista da Escola Dominical como no livro de apoio do professor. E isso sem contar a excelente bibliografia de obras robustas sobre Teologia Arminiana, bem como livros biográficos dos maiores especialistas no mundo em Jacó Armínio, que vêm sendo publicados desde 2013 pela editora Reflexão. Não se pode mais escrever teologicamente sobre Armínio e Teologia Arminiana, sem consultar estas muitas obras, para que os mesmos velhos erros de que acusaram Armínio e sua teologia não permaneçam se perpetuando entre os estudantes da Bíblia, da teologia e da história da igreja, especialmente entre os próprios arminianos! “Persiste em ler” (1Tm 4.13).

Procederemos aqui a correção dessa informação, visto que ela pertence apenas ao imaginário popular, mas não condiz com a realidade dos fatos. O livre-arbítrio humano não foi a principal defesa doutrinária de Armínio, nem é a principal característica do Arminianismo (pelo menos não dos arminianos que sabem o que de fato é o Arminianismo, para além de vagas opiniões populares, sem sólida fundamentação literária). Aliás, seguimentos do protestantismo, como o calvinismo, já teceram muitas críticas ao Arminianismo justamente em razão dessa suposta centralização da vontade do homem em sua teologia, em detrimento da centralização do próprio Deus. Acusam-nos de “humanistas”, e taxam nossa teologia de “antropocêntrica”. De fato, a crítica seria procedente, se a defesa vontade livre do homem fosse nossa principal empreitada teológica e apologética. Mas não é! Portanto, tal acusação que – lamentavelmente! – encontra pálido respaldo em escritos de não-especialistas em teologia arminiana, é não só improcedente, como também ofensiva. Deus, não o homem, é o centro da teologia de Armínio e dos arminianos! A defesa do amor, da bondade, da justiça e da graça divina liberada sobre todos os pecadores em todo mundo é que foi o grande labor do jovem teólogo holandês Jacó Armínio e dos Remonstrantes que seguiram seus postulados, confiantes de que se respaldavam numa sólida teologia bíblica e histórica, tendo seus precedentes, de fato, entre os antigos Pais da Igreja. Apesar de leitores comuns (tanto professores da EBD quanto alunos) não fazerem muito caso desta correção, ela é necessária, visto que pretende estabelecer com justiça a verdade dos fatos. E não devemos ter todos nós amor pela verdade? Não devemos todos ter “fome e sede de justiça”?

PRIMEIRO: MAIS GRAÇA DE DEUS, MENOS ARBÍTRIO DO HOMEM

Fazendo uma pesquisa rápida nos três volumes de As Obras de Armínio (CPAD, 2015), pode-se notar uma singela, mas importante estatística: a palavra graça (referindo-se ao favor de Deus) ocorre aproximadamente 1.700 vezes em As Obras de Armínio; ao passo que o termo livre-arbítrio (referindo-se à vontade liberta do homem para escolher entre alternativas propostas diante dele) ocorre aproximadamente 140 vezes apenas! Ou seja, a graça de Deus aparece cerca de DOZE VEZES MAIS que o livre-arbítrio humano. Isso por si só deve chamar nossa atenção para o fato de que Armínio esteve mais ocupado em exaltar a graça de Deus, que é do alto, do que em confirmar o livre-arbítrio humano, que é de baixo.

Essa informação por si só já deve chamar nossa atenção para o que de fato era o principal labor do teólogo Jacó Armínio.

SEGUNDO: O ARBÍTRIO HUMANO É SECUNDÁRIO; A GRAÇA DIVINA É PRIMÁRIA

Os filhos de Armínio, após a morte de seu pai, escreveram uma carta em 13 de agosto de 1612, falando das muitas falsas acusações de que Armínio foi vítima já em seu tempo, de sua devoção e piedade, de seu labor teológico, e de seu espírito firme na defesa daquilo que acreditava estar em sintonia com as Escrituras. No meio desta carta, há uma expressão que muito me agrada, quando eles disseram:

“É melhor que os leitores prudentes ouçam as suas palavras proferidas por ele mesmo, e não por nós, que estamos apenas gaguejando sobre ele. É mais doce a água que bebemos na fonte, do que aquela que bebemos a alguma distância da nascente” (1).

Pois bem, vejamos em algumas citações pontuais, a relação que Armínio estabelece entre graça de Deus e arbítrio humano, colocando o arbítrio do homem como dependente da graça de Deus, e sem o qual ele nada pode fazer, estando destituído de poder e morto!

  • Pelo pecado, o homem perdeu o seu livre-arbítrio, que agora é “arbítrio-escravo”

“Devemos saber que o primeiro homem foi criado livre por Deus, mas, tendo abusado de sua liberdade, a perdeu, e foi feito escravo daquele a quem obedecia, isto é, o pecado, tanto com respeito à culpa da condenação como ao seu domínio, que é a verdadeira escravidão e desgraça total” (2)

  • O livre-arbítrio do homem em questões espirituais está destruído

“o livre-arbítrio do homem para o que é bom não somente está ferido, aleijado, enfermo, distorcido e enfraquecido; ele também está aprisionado, destruído e perdido. E seus poderes não estão somente debilitados e inúteis (a menos que seja assistido pela graça), mas está totalmente privado de poder (…) ficará evidente que nada pode ser dito mais verdadeiro sobre o homem nesse estado do que o fato de que ele já está morto em pecado (Rm 3.10-19)” (3)

  • Somente poderão usar o livre-arbítrio quando forem, antes, alcançados pela graça

“Nenhum homem crê em Cristo, exceto aquele que foi previamente disposto e preparado pela graça preventiva ou precedente para receber a vida eterna” (4)

  • A graça estabelece a liberdade do arbítrio e o auxilia para que tome decisões certas

“Porque a graça é branda e se mescla com a natureza do homem, para não destruir dentro dele a liberdade da sua vontade, mas para lhe dar uma direção correta, para corrigir a sua depravação, e para permitir que o homem possua as suas próprias noções adequadas” (5)

  • O livre-arbítrio estabelecido pela graça precisa a todo tempo colaborar (permitir-lhe livre curso) com a graça para que ela seja eficaz em seus efeitos

“assim como a graça preserva, o livre-arbítrio também é preservado, e o livre-arbítrio é o sujeito da graça. Logo, é necessário que o livre-arbítrio colabore com a graça, que é concedida para sua preservação, mas auxiliada por uma graça subsequente, e sempre permanece no poder do livre-arbítrio rejeitar a graça concedida, e recusar a graça subsequente; porque a graça não é a ação onipotente de Deus, à qual o livre-arbítrio não consiga resistir” (6).

Se, somente se, a principal característica da teologia de Armínio fosse o arbítrio humano, que com certeza não é, então não seria “o livre-arbítrio humano”, mas sim “o arbítrio humano destruído e necessitado da graça divinal”. Para Armínio (como para Calvino, Lutero, Agostinho e muitos Pais da Igreja), o arbítrio do homem só é feito livre mediante uma ação antecedente da graça de Deus. Ou seja, não é o homem que vem primeiro a Deus, mas Deus que vem primeiro ao homem. Armínio, claro, distingue-se destes grandes vultos do século 16 (e também de Agostinho de Hipona, séculos IV-V), e aproxima-se dos antigos patrísticos, aqueles que estiveram mais próximos dos apóstolos de Cristo, quando ensina efusivamente que a graça de Deus para salvação é ilimitada e irrestrita, mas resistível, sendo direcionada aos pecadores em todo mundo, para salvação de todos eles – desde que cada um dê em seu coração livre curso à graça, para que ela seja eficaz na conversão deles. Enquanto para os monergistas (que defendem que a salvação é operada por decisão exclusivamente divina, sobre aqueles que ele de fato quer salvar) a graça de Deus faz o homem crer irresistivelmente, para os sinergistas (que defendem que a salvação é operada por decisão divina condicional à livre aceitação do homem), entre os quais Armínio está, a graça de Deus possibilita o homem crer. Armínio é categórico quando discorre sobre o modus operandi (o modo de operação) da graça de Deus:

“uma massa inerte é impulsionada, natural e necessariamente, pela aplicação de forças, que excedem a força de sua gravidade; mas nós, como seres humanos, somos estimulados segundo o modo de liberdade, que Deus concedeu à vontade, e por isso é chamada de livre-arbítrio” (7)

TERCEIRO: O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS?

Se você está com seu filho pequeno doente, e diante de você está um historiador e um pediatra, ambos com vasto currículo, a qual deles você daria ouvidos sobre a avaliação das dores que seu filho está sentido? Creio que você confiaria no pediatra por ser ele um especialista da saúde da criança, certo? E se você estivesse com uma grande mancha na pele, irritando e avermelhando, quem você consultaria para tratar-se: um cardiologista ou um dermatologista? Ambos são médicos, todavia, para o cuidado de sua pele, é recomendável que você procure um especialista da saúde da pele, certo? Há muitos clínicos gerais, e louvamos a Deus por estes médicos polivalentes! Mas há casos que somente um especialista da área pode resolver. Assim também é na teologia.

Podemos até não descartar a opinião dos “clínicos gerais” da teologia, mas havendo divergência no diagnóstico, e a permanecerem os sintomas, um especialista deve ser consultado. Se quisermos ter uma opinião segura de quem foi Armínio, do que ele ensinou e do que de fato é o cerne da teologia arminiana, devemos recorrer àqueles que têm há muito se debruçado sobre essas matérias, que a conhecem profundamente e que têm compartilhado conosco através de seus escritos. Ouçamos o que disseram alguns destes especialistas:

  • “o livre-arbítrio é a principal característica do Arminianismo” – verdade ou mito?

Roger Olson, uma das principais referências atuais em teologia arminiana, ao lidar com a teoria popular de que “o livre-arbítrio é a principal característica do Arminianismo”, chama tal concepção deturpada de “mito”, pois não é o livre-arbítrio humano o cerne do Arminianismo. No quarto capítulo de seu livro Teologia Arminiana: mitos e realidades (Reflexão, 2013), Olson trabalha o verdadeiro cerne do Arminianismo, e aqui pode ser resumido: “o verdadeiro cerne da teologia arminiana é o caráter amoroso e justo de Deus; o princípio formal do Arminianismo é a vontade universal de Deus para a salvação” (8). Com perícia, Olson descreve a Hermenêutica arminiana nas seguintes palavras:

“Em primeiro lugar, o compromisso com a liberdade da vontade não é o maior valor ou o princípio da construção doutrinária arminiana. Este alto posto pertence à visão arminiana do caráter de Deus conforme discernido de uma leitura sinótica da Escritura, usando a revelação de Deus em Jesus Cristo como o controle hermenêutico” (9)

  • Jacó Armínio: um teólogo da graça de Deus

Além de Roger Olson, é digno de nota as palavras de outros especialistas na teologia de Armínio: Keith Stanglin e Thomas McCall, no livro Jacó Armínio: teólogo da graça (Reflexão, 2016). Leiamos:

“A teologia de Armínio não pode ser reduzida a uma interpretação de, digamos, Romanos 9:1-23 (…). Ela não pode ser entendida pelos intérpretes modernos que tentam conformá-la a categorias prontas de ‘soberania divina versus livre-arbítrio’. Pelo contrário, as posições de Armínio sobre as questões controversas de sua época podem ser entendidas somente dentro do contexto teológico de sua doutrina de Deus, a partir da qual fluía o restante de sua teologia. Mais particularmente, os intérpretes modernos de Armínio entenderão suas visões somente quando entenderem a centralidade e importância do entendimento de Armínio da simplicidade, onisciência e bondade infinita do Deus triúno” (10).

Indubitavelmente, não é o homem, mas o próprio Deus triúno o centro da teologia arminiana, e isto pode ser devidamente investigado nos próprios escritos daquele teólogo holandês. Não é o arbítrio humano, mas o amor, a graça, a justiça, a bondade de Deus que ocupam o lugar mais elevado na teologia arminiana, que é a nossa teologia – a teologia das igrejas Assembleias de Deus no Brasil e da maioria absoluta das igrejas pentecostais no mundo! Não é antropocêntrica a teologia arminiana, mas teocêntrica! Deus e seus maravilhosos atributos ocupam o centro das nossas convicções doutrinárias.

QUARTO: QUAL A DISTINÇÃO ENTRE A CONCEPÇÃO ARMINIANA E A CALVINISTA?

No estudo desta Lição sobre Salvação e Livre-arbítrio, um fator que é imprescindível no estabelecimento do livre-arbítrio e que não podemos esquecer no estudo e exposição desta lição é a graça de Deus, pois, como vimos acima, a livre decisão do homem por Cristo só é possível em consequência de uma antecedente ação da graça divina no coração do pecador. Falar de livre-arbítrio sem falar da graça de Deus é expor um ensino deficiente. O apóstolo Paulo é claro como a luz do sol: “Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus” (Rm 3.10,11). Jesus nos diz que “ninguém há bom, senão um, que é Deus” (Lc 18.19). Sobre nós, diz o Senhor: “vós, sendo maus…” (Mt 7.1). Não foi Adão quem buscou a Deus depois do pecado, mas Deus quem, por entre as árvores do Éden, buscou Adão perguntando-o: “Onde estás?” (Gn 3.8,9). Aliás, religião, que é re-ligare (ligar de novo), não é o homem buscando Deus, mas Deus buscando o homem. É a graça vindo primeiro, capacitando-nos a crer em Cristo, reconhecendo-o como nosso Salvador e Senhor. Como disse Jesus na casa de Zaquel, “o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19.10). O primeiro passo é de Deus, não nosso: “É, porém, por iniciativa dele que vocês estão em Cristo Jesus, o qual se tornou sabedoria de Deus para nós, isto é, justiça, santidade e redenção” (1Co 1.30, NVI)

Sem uma ação preveniente (primeira, vindo anteriormente) da graça de Deus, o homem está totalmente alienado de Deus e só pode escolher uma coisa: pecar. Sem uma ação divina espiritual no coração do homem, o arbítrio do homem não é livre, mas cativo do pecado. Jesus diz que ele é “escravo do pecado”. Como cito em meu livro A Mensagem da Cruz: o amor que nos redimiu da ira, bem diz o hino antigo de Jair Pires:

“É uma folha seca caída no chão, Que vai para onde o vento levar,

Assim é a vida do homem sem Deus, Pobre miserável SÓ PENSA EM PECAR”

Nisso, arminianos e calvinistas estão de acordo. A diferença, que é crucial, pode ser resumida da seguinte forma:

  • CALVINISTAS: graça salvífica para alguns – os eleitos – e irresistível

A graça que liberta o arbítrio para o homem crer em Deus é enviada apenas aos que foram previamente determinados por Deus para serem salvos. A estes, quando a graça salvífica vem, ela age irresistivelmente, e com certeza absoluta esses predeterminados farão a escolha por Deus e serão inevitavelmente salvos. Eles podem até resistir por um tempo, mas final e certamente cederão a ela, já que antes de tomarem a decisão de aceitar a graça, pelo uso do arbítrio, Deus mudará seus corações, regenerando-os para que creiam (no calvinismo, a regeneração acontece antes da fé). Noutras palavras: a graça é apenas para os eleitos (eleitos incondicionalmente por Deus para receberem a fé e serem salvos). O resto do mundo continuará impossibilitado de aceitar a Cristo simplesmente porque não lhes foi dado esta graça salvífica, capacitadora (e irresistível). Aqueles que tiveram seu arbítrio liberto pela graça têm apenas uma opção: crer.

  • ARMINIANISMO: graça salvífica para todos

A graça salvadora é estendida a todos os homens, persuadindo-os com sinceridade ao arrependimento (Is 45.22; At 17.30), já que Deus quer salvar de fato a todos os homens (1Tm 2.4,6), pois Ele amou o mundo (Jo 3.16), deu Cristo em resgate por todos (Is 53.6; 2Co 5.14,15; 1Tm 2.6; Hb 2.9) e a graça se há manifestado salvadora a todos os homens (Tt 2.11). A hermenêutica arminiana não aceita que tantas vezes a expressão bíblica “todos os homens” seja interpretado como “alguns homens” ou “todos os tipos de homens”, nem que o termo “mundo” (especialmente em João 3.16 e 1Jo 4.14) seja interpretado como apenas “os eleitos incondicionalmente”. Nem tolera também que Deus esteja com sinceridade oferecendo a salvação a todos os pecadores em todo mundo, e ordenando a tosos eles que se arrependam, sem ter de fato um interesse na salvação de todos eles, já que escolheu incondicionalmente aqueles que irão irresistivelmente crer. Nas palavras do teólogo Armínio: “Quem quer que Deus chame, ele o faz com sinceridade,   com uma vontade desejosa de seu arrependimento e salvação”; e ainda: “Se a promessa [da salvação] não se refere a todos a quem a ordem de crer é dada, nesse caso a ordem é injusta, vã, e inútil” (11). No entendimento arminiano, quando esta graça age na mente e no coração do pecador (por diversos meios: pregação, louvor, oração, literatura bíblica, sonho, etc.), ela capacita o pecador a tomar uma decisão por Cristo, que até então lhe era impossível. Todavia, esta graça não é uma força onipotente contra a qual o homem não possa resistir. Ela é uma ação bondosa do Espírito Santo, ela é mansa e suave. Como diz o belíssimo hino de Will Lamartine Thompson: “Manso e suave é Cristo chamando, chama por ti e por mim. Eis que ele às portas espera velando, vela por ti e por mim”. A graça preveniente age com brandura, não consumando a salvação até que o pecador, agora capacitado, tome livremente a decisão em seu coração, dando o consentimento de sua vontade, por Cristo Jesus. Todavia, como Adão cujo arbítrio era livre, o pecador com seu arbítrio liberto poderá escolher a Cristo ou poderá escolher pecar (na verdade, continuar no pecado). É aí que entra a livre decisão humana, ou, como chamamos popularmente, o livre-arbítrio. Um vívido exemplo do livre-arbítrio (ou do arbítrio liberto) está na declaração de Jesus sobre Jerusalém: “Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram” (Mt 23.37). Como bem disse John Wesley, Jesus não estava chorando lágrimas de crocodilo aqui! (12) Ele de fato queria salvar o seu povo, pois “ele veio para o que era seu” Todavia, “os seus não o receberam” (Jo 1.11). Jesus de fato quis, e para isso deu a sua graça: encarnou, pregou, curou, perdoou, suportou a incredulidade dos judeus… Mas “vocês não quiseram”!

  • A SALVAÇÃO É DA GRAÇA, MAS EXIGE A FÉ

As palavras de Irineu, teólogo do segundo século, são propícias aqui:

“‘Quantas vezes quis reunir os teus filhos e não quiseste’ [Mateus 23.37], ilustram bem a antiga lei da liberdade do homem, porque Deus o fez livre desde o início, com a sua vontade e a sua alma para consentir aos desejos de Deus sem ser coagido por ele. Deus não faz violência, e o bom conselho o assiste sempre, e por isso dá o bom conselho a todos, mas também dá ao homem o poder de escolha, como o dera aos anjos, que são seres racionais, para que os que obedecem recebam justamente o bem, dado por Deus e guardado para eles, enquanto os desobedientes serão justamente frustrados neste bem e sofrerão o castigo merecido. Pois Deus, na sua bondade, lhes dera o bem, mas eles não o guardaram com diligência e não o julgaram precioso e até desprezaram a excelência da sua bondade. Abandonando e recusando o bem incorrerão no justo juízo de Deus, como o testemunha o apóstolo Paulo na carta aos Romanos, quando diz: ‘Será que desprezas a riqueza de sua bondade, da paciência e da generosidade, desconhecendo que a bondade de Deus te convida à conversão? Pela teimosia e dureza de coração amontoas ira contra ti mesmo para o dia da ira e da revelação do julgamento de Deus’

(…)

E todas as outras coisas que mostram o livre-arbítrio do homem e que Deus o instrui com o seu conselho, exortando-nos à submissão a ele, precavendo-nos da incredulidade, mas sem nos obrigar com a violência. É possível também não seguir o Evangelho, se alguém assim quiser, contudo não é conveniente. A desobediência a Deus e a recusa do bem estão em poder do homem, mas comportam prejuízo e castigo não indiferentes. Por isso Paulo diz: ‘Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém’, indicando a liberdade do homem pela qual tudo lhe é lícito, pois Deus não o obriga e mostrando ‘o que não convém’ para que não abusemos da liberdade a fim de encobrir a malícia: isto não convém.

(…)

Se não dependesse de nós o fazer e o não fazer, por qual motivo o Apóstolo, e bem antes dele o Senhor, nos aconselhariam a fazer algumas coisas e a nos abster de outras? Sendo, porém, o homem livre na sua vontade, desde o princípio, e livre é Deus, à semelhança do qual foi feito, foi-lhe dado, desde sempre, o conselho de se ater ao bem, o que se realiza pela obediência a Deus” (13)

Finalizo nas palavras de Orígenes, um dos Pais gregos, no século III, que assim resumiu a crença geral da igreja em seus dias: “Está definido na pregação da Igreja que toda alma racional possui vontade e livre-arbítrio” (14). Como vimos porém, desde o início, este arbítrio é “o sujeito da graça” (Armínio).

Pela graça somos salvos! Mas, “por meio da fé” (Ef 2.8). Cremos no Sola Gratia, tanto quanto no Sola Fide. A salvação da graça que se concretiza por meio da fé, não é uma elaboração humana – “isto não vem de vós” – mas de Deus. Deus é quem determinou salvar gratuitamente com a condição da fé. É Deus quem diz: “quem crê, será salvo; quem não crê, já está condenado” (Jo 3.16,17). Ou o homem consente com a graça e lhe dá livre-curso, para ser salvo; ou o homem resiste à graça, negando-lhe livre-curso, para ser condenado.

Ao final desse estudo (foi longo pra você? [risos]), convido você a ler ainda outro artigo que lhe será de grande valor para o estudo desta Lição, e está disponível aqui no Gospel Prime: Assembleianos creem em Predestinação?

E convido você também a curtir e acompanhar as publicações da página Teologia Arminiana e Pentecostal no Facebook, onde este e outros assuntos são tratados periodicamente.

No mais, “seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Ef 4.15)

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REFERÊNCIAS

(1) Jacó Armínio. As Obras de Armínio, vol. 2, CPAD, p. 178
(2) Jacó Armínio. Op. cit., vol. 1, p. 537
(3) Jacó Armínio. op. cit., vol. 1, pp. 473,5
(4) Jacó Armínio. Op. cit., vol. 2, p. 432
(5) Jacó Armínio. Op. cit., vol. 1, p. 209
(6) Jacó Armínio. Op. cit.,, vol. 3, p. 473
(7) Jacó Armínio. Op. cit., vol. 3, pp. 475-6
(8) Roger Olson. Teologia Arminiana – mitos e realidades, Reflexão, p. 125
(9) Roger Olson. Op. cit., p. 126
(10) Keith Stanglin e Thomas McCall. Jacó Armínio: teólogo da graça, Reflexão, p. 72
(11) Jacó Armínio. Op. cit., vol. 3, pp. 312,3
(12) John Wesley. Sermão Graça Livre. Impresso em Bristol, 1740.
(13) Irineu, Contra as Heresias, pp. 499,501,502, Paulos
(14) Orígenes. De Principiis, livro IV



Tiago Rosas

Tiago Rosas

Presbítero da Assembleia de Deus em Campina Grande-PB. Coordenador de Escola Bíblica Dominical. Autor do livro A Mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira.


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