Seguindo a Multidão

Somos impelidos a seguir algo ou alguém. Entretanto, é necessário que saibamos a quem seguimos, e o porquê de assim fazermos.


“Uns, pois, clamavam de uma maneira, outros de outra, porque o ajuntamento era confuso; e os mais deles não sabiam por que causa se tinham ajuntado.” At 19.32

Ano passado tive a oportunidade de escrever um texto sobre quem é o alvo de nossa adoração e culto. Neste artigo, que pode ser acessado aqui, dissertei um pouco sobre a pobreza que encontramos em muitas pregações, canções e métodos evangelísticos de nossos dias, que são distantes e destoantes dos princípios bíblicos para tais.



Nesta mesma linha de raciocínio, desejo tecer algumas palavras sobre o versículo exposto acima. Temos uma noção de que nossos púlpitos estão com sérios problemas doutrinários, onde até mesmo o pelagianismo (ou semipelagianismo) tem sido pregado, e nossa nação está cada vez mais afundada em um lamaçal de corrupção e pecado sem igual, mas resta ainda uma questão que necessita de nossa atenção: e nós, seguimos a quem?

No contexto do capítulo 19 de Atos, vemos que a partir do versículo 23 Lucas descreve um grande alvoroço que houve em Éfeso acerca do Caminho, como era conhecido o Cristianismo. Um ourives, chamado Demétrio, que fazia moedas de prata do templo da deusa Diana (“versão” romana para Ártemis, dos gregos), reuniu outros homens, de ofícios semelhantes e, atiçando-lhes o coração escravizado pelo pecado, instigou-os contra a pregação de Paulo, levando-os a gritar, em plenos pulmões, “Grande é a Diana dos efésios!”.

Estes homens, apelando para o senso de religiosidade de seus ouvintes, lutavam por seu lucro e bens financeiros. Creio que aqui vale a pena abrir um pequeno parêntese no texto, para abordar este detalhe.



É necessário frisar que não é considerado pecado um empreendedor – cristão ou não – querer lucrar. É evidente que isso faz parte do mercado financeiro. Entretanto, este desejo torna-se pecaminoso se há, no coração deste empresário, o amor pelo dinheiro ou a intenção de aproveitar-se da fragilidade e vulnerabilidade dos consumidores e funcionários para elevar a margem de lucro, por exemplo.

Também, e agora dentro do contexto dos versículos 25 a 27, é extremamente pecaminosa a atitude de muitos pastores e líderes religiosos, ou até mesmo pessoas consideradas como “apenas membros” de suas igrejas locais, mas que exercem algum poder de influência, quando aproveitam-se dessa capacidade e “palavra de ordem” para, através da ignorância, inocência ou fé cega de seus fiéis, induzir o povo ao cometimento de atitudes equivocadas, porém geradoras de renda ou qualquer outro tipo de “benefício” pessoal.



Fechando este parêntese aberto, desejo voltar sua atenção a uma frase que me marcou de forma profunda quando li o versículo 32 deste capítulo 19 do livro de Atos dos Apóstolos. Transcrevo, abaixo, o referido texto:

“Lá dentro, em polvorosa, o povo todo gritava, e cada um dizia uma coisa. Na verdade, a maioria nem sabia por que estava ali.”¹

Que dura realidade! Novamente cito minha pergunta presente nos parágrafos iniciais: e nós, a quem temos seguido? E por favor, não limite este questionamento apenas ao âmbito eclesiástico. Não almejo saber se você é reformado ou pentecostal, se crê que os dons cessaram ou que continuam. Que este debate fique para outro momento, em outros textos. Aqui, quero que você aplique esta indagação ao seu cotidiano, seu emprego, estudo, dia a dia. Se alguém analisar sua cosmovisão, verá quem no centro dela?

Com um Brasil extremamente polarizado, onde o debate político, por exemplo, foi resumido à mísera dicotomia “pró-PT” e “contra PT”, uma multidão de cristãos navega em águas e mares do saber que lhes são desconhecidas, seguindo vozes que tentam gritar acima das ondas. Entretanto, sabem ao menos a quem estão seguindo? Conseguiriam apontar as diferenças entre estes dois extremos do jogo político, antes de tomar partido e defender, com unhas e dentes, ideais que na realidade não possuem?

A fé cristã é racional, e Paulo nos deixa isso muito bem claro nos versículos iniciais do capítulo 12 da carta que escreveu aos irmãos de Roma. Sendo uma fé racional, pressupõe-se que o “crer” esteja acompanhado do “pensar”. Como escreveu John Stott, “Crer é também pensar”. Ainda, a fé cristã é abrangente, alcançando todas as áreas da vida do ser humano. Seja no comportamento social, visão política, modo de vestir-se, palavras a serem utilizadas, para todas as áreas da vida a Palavra determina como um cristão autêntico deve procurar viver.

Ventrella certa feita escreveu:

“Proclamar como a religião afeta a vida pública é parte do processo da instrução do cidadão para viver com fidelidade – a estar no mundo, mas não ser do mundo. Todavia, para fazê-lo, as pessoas devem aprender como sua fé se aplica fora das portas da igreja, incluindo sua aplicação às questões de cultura e, sim, à política pública.”

Estamos no mundo, mas a ele não pertencemos. Estamos rodeados de trevas, mas com a missão de resplandecer a luz de Cristo em nossas vidas. Somos chamados para sermos servos fiéis do Cordeiro. Fomos criados para glória do Pai. Somos chamados para sermos criaturas pensantes, que usam este intelecto dado pelo Criador de maneira a glorificá-lo. Sim, você precisa saber em quem crê, a quem segue, que fé professa.

Não seja mais um que segue a multidão, mas que não faz a menor ideia do porquê está ali. Questione, indague, pergunte, coloque à prova, mas não siga às cegas. Bem sei que utilizei como exemplos a política e o púlpito para demonstrar meus pontos, mas espero ter deixado claro que este assunto não se limita a tais esferas, expandindo-se para o que já dito anteriormente: todas as áreas da vida humana.

No final do capítulo 19 de Atos, vemos que o escrivão da cidade, ao invocar a lei, dispersou a multidão, colocando-lhes senso na mente. Assim, que a Palavra do Senhor, que é a nossa Lei, seja aquela que lhe apaziguará os pensamentos, fazendo com que seus pés caminhem pelos trilhos das Escrituras. Que você saiba a quem está seguindo, em quem está crendo.

Este é meu clamor, amado leitor.

Sob a Graça,

Daniel Rodrigues Kinchescki

¹ Texto retirado da Bíblia Sagrada NVT: Nova Versão Transformadora.
² Jeffery J. Ventrella, em “Política e púlpito: o que Deus requer?”.



Daniel Rodrigues Kinchescki

Daniel Rodrigues Kinchescki

Membro da Igreja Presbiteriana de Florianópolis/SC, escritor e criador do blog "À cruz de Cristo: voltando aos marcos do Evangelho". Bacharelando em Direito, com experiência em liderança de grupos e em lecionar aulas de E.B.D. e palestras.


Deixe seu comentário!