A vida em uma fanpage

Em tempos de posts, twitter, púlpitos e visualizações, nossas palavras são lindas, mas as atitudes são fracas.


A vida em uma fanpage

Há pouco tempo atrás as conversas entre as pessoas também eram exageradas, todos se expressavam e botavam pra fora sua opinião. Meu avô, por exemplo, às vezes em alguns acentos pela vizinhança ou na frente do portão de sua casa com alguns poucos senhores, falava sobre o que pensava de política, sobre qual o erro do técnico do Santos após uma derrota ou o porque da alta criminalidade em São Paulo.

Já minha mãe, sempre tinha um tempo para conversar com a vizinha, aquele momento para comentar a novela e principalmente se atualizar das notícias do bairro, mas que fique claro, esse papo só acontecia entre elas, nó máximo entre três pessoas, porque os demais vizinhos possivelmente eram o assunto. Mas eu também falava bastante com os colegas da rua.



Eu era um grande comentarista de futebol, meus amigos também. Falávamos sobre tudo e não sabíamos de nada, mas sempre opinávamos: carro, mulher, emprego, escola, igreja, roupa, linha de pipa, rabiola, chuteira, música, batata frita e todo o resto que existe na face da terra a gente falava. Comentávamos de tudo, mas assim, em nossa rodinha de amigos ou pequeno grupo de escola, eram 3, 4, estourando 5 pessoas.

Algo mudou? Bom, talvez o que citei acima ainda aconteça nos dias de hoje, mas com uma diferença importantíssima! Meu avô, no caso, não poderá ser referência, pois já se foi e nem imaginaria que as pessoas de hoje se conversam por chats e não nas praças ou enfrente ao portão. Mas, minha mãe, por exemplo, não comenta mais da novela com a vizinha, ela posta sobre isso no Facebook.

Claro que aquelas “notícias atuais da vizinhança” não dá para postar lá, mas dá para fazer um grupo no whats app com as amigas próximas e se manter informado. Os adolescentes de hoje continuam falando de tudo, e continuam a falar de tudo que não sabem. Mas agora, postam na fan page sobre carro, mulher e batata frita. Gravam vídeos soltando pipa (ou baixam o app de soltar pipa e gravam um vídeo que estão jogando o jogo de soltar pipa. Na verdade, gravam videos jogando jogos com gráficos legais, nada de soltar pipa!). Postam fotos da chuteira, roupa nova ou de novo da batata frita nas outras redes sociais, e assim por diante.



Tá, e tem algum problema nisso tudo? Neste texto não vamos analisar se as mudanças foram boas ou ruins, afinal, os tempos mudaram. O que podemos notar de interessante é que nos dias de hoje as opiniões não são restritas a uma roda de amigos, vizinhos ou familiares, o que se fala em uma fan page pode chegar a centenas de pessoas através das redes sociais!

As pessoas falavam de forma exagerada antes, e continuam a falar, mas agora até pessoas que você nunca viu podem te ouvir! Sua opinião e vida estão expostas para centenas de pessoas atingindo uma proporção bem maior de pessoas do que no passado. Ou seja, as pessoas todos os dias comentam sobre as atualidades, política, teologia, religião, vizinhos, roupa, batata frita e a todo momento para um grupo enorme de pessoas! Isso é impressionavelmente um fenômeno maior do que no passado.

Por isso, já que os tempos mudaram, o alerta é simples: sua vida não é uma fan page, nem qualquer outra rede social. Iludir-se com uma vida resumida a curtidas, seguidores e comentários é longe do real.

E porque longe do real? Ora, se antigamente as pessoas falavam de forma exagerada suas maldades, preconceitos, mostravam seu desejo de aparecer, enganar e seduzir a um grupo pequeno de pessoas. Quiça hoje, que agem da mesma maneira atingindo centenas de pessoas.

Ao olhar uma fan page vemos um poço de hipocrisia, um mundo de palavras bonitas e representação do que queremos mostrar que somos, e neste mundo de redes sociais as palavras são lindas, mas as atitudes não são vistas.



Victor Santos

Victor Santos

Victor dos Santos, mora em Santo André-SP. Blogueiro (Vida ao Inverso). Bacharel em Teologia pela Universidade da Bíblia, graduado em Logística pela Uniban e estudante da PUC SP.


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