Viver e morrer: há um modo bom de se fazer isso?

E aí, você está vivendo ou apenas existindo?


Viver e morrer: há um modo bom de se fazer isso?

“A morte própria é, pois, inimaginável, e quantas vezes o tentamos pudemos observar que, em rigor, permanecemos sempre como espectadores”. A frase em tela foi escrita pelo psicanalista Sigmund Freud em seu ensaio intitulado como “A Nossa Atitude Diante da Morte”. A frase retrata bem o modo excludente como decidimos tratar a questão da morte, que, para todos nós, será um fato, cedo ou tarde.

O poeta Fernando Pessoa disse, certa vez, que “o próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela”. Com está frase ele descreveu bem que a morte há de nos pegar um dia e fazer de nós um ex-vivente.

Pensar sobre a morte, quase todos os grandes filósofos pensaram. Inclusive Freud inventou a teoria da “Pulsão de Vida e Pulsão de Morte”, que busca traduzir essa nossa ânsia por continuar vivendo.


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Para Freud, nessa teoria, nossa “relação de amor/apego” com o mundo, as pessoas e até com nós mesmos (narcisismo) é que nos move na pulsão de vida, pois o ID (Idílico – elemento que busca a satisfação dentro do que entende a Teoria Psicanalítica de Freud) usa a satisfação dos desejos para promover a “pulsão de vida” – comemos para não morrer, temos filhos para poder perpetuar a vida, nos satisfazemos, de várias maneiras, para “nos sentirmos mais vivos’ etc. A “pulsão de morte”, para o pai da psicanálise, está ligada à “pulsão de vida”, porque, para viver, até mesmo matar nós matamos – animais para comer sua carne, e até outros humanos que ameaçam nossa vida e/ou estado de bem estar.

Já que nossa pulsão por vida depende do nosso prazer de viver, Freud acredita que talvez seja por isso que prestamos tantas continências a quem partiu. Isto, numa forma de “eternizar” quem se foi, e para não podermos deixar em voga, de maneira tão acentuada, o tema da morte.

Para o pensador Sogyal Rinpoche, “os efeitos desastrosos da negação da morte vão muito além da esfera individual: eles afetam o planeta inteiro. Crendo basicamente que esta vida é a única, as pessoas do mundo moderno não desenvolveram uma visão a longo prazo. Assim, nada as refreia de saquear o planeta em que vivem para atingir suas metas imediatas, e agem com um egoísmo que pode tornar-se fatal no futuro”. A nossa negação à morte, segundo essa premissa, nos desconectaria 50% do que nos faz semelhante aos demais seres humanos, pois além de sermos semelhante no ato de ter vida, o somos também no fato de que um dia haveremos de morrer.

Até mesmo o rei Salmão entendeu que não deveríamos viver com esse ranço de negação à morte, vide: “Melhor é ir à casa onde há luto do que ir a casa onde há banquete; porque naquela se vê o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração” (Ec 7.2). No ato de vivenciarmos o luto, ao invés de só as festas, nos reconectamos uns com os outros novamente, e somos constrangidos a voltar ao caminho da reflexão que envolve o outro e que não se atem à falsa eternidade deste plano da existência concernente ao fôlego de vida que há em nós.

Viver só pelo prazer que a satisfação de nossos desejos nos causa, é jogar a curta existência no lixo, pois não teremos vivido plenamente, mas teremos, ao final, sido servos de nós mesmos. “Quem não tem uma razão pela qual viver, ainda não está vivendo, de fato; está apenas existindo”, disse o já falecido conferencista norte-americano  Myles Monroe. Ele disse isto com base na declaração de Paulo aos Filipenses: “Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho” (Fp 1.21).

Quem vive para si, ao morrer, terá perdas, pois não deixará um legado de servo. Mas é uma perda que se resume ao morto, somente. Mas quando se tem pelo que viver (algo nobre), como disse Paulo, a morte pode ser considerada um ganho, pois a morte de quem morre fazendo alguma coisa boa, mobiliza forças pró à obra em andamento deixada por quem quer seja o bem feitor.

O sonho de liberdade que Tiradentes tinha para o Brasil, e pelo qual morreu se tornou realidade tempos depois de seu martírio. Milhões de cristãos foram martirizados por sua fé em Jesus nos primórdios da Igreja, mas o Cristianismo, ao invés de se acabar, foi vitaminado e fortalecido pelo sangue daqueles que eram mortos por se negarem a abandar sua fé no salvador, e hoje é a maior religião da terra com bilhões de seguidores.

Viver e lutar por verdades e princípios que transcendem nossa existência, nos fará grandes sem mesmo que empreguemos muito esforço. A grandeza da nossa existência consiste nos sacrifícios que fazemos pró ao próximo. Jesus já nos alertou para isso quando disse, em Mateus 12. 30 e 31: “Amarás ao Senhor teu Deus… E ao teu próximo como a ti mesmo (…)”.

E aí, você está vivendo ou apenas existindo?



Fernando Pereira

Fernando Pereira

Jornalista e acadêmico dos cursos de História e de Teologia.


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