Voltando de Emaús

Da caminhada com Cristo à volta para Jerusalém.


Voltando de Emaús

“E na mesma hora, levantando-se, tornaram para Jerusalém, e acharam congregados os onze, e os que estavam com eles, Os quais diziam: Ressuscitou verdadeiramente o Senhor, e já apareceu a Simão. E eles lhes contaram o que lhes acontecera no caminho, e como deles fora conhecido no partir do pão.” Lucas 24:33-35

Há algum tempo, em um culto realizado pela manhã em minha igreja, meu pastor pregou sobre estes dois discípulos que iam pelo caminho de Emaús. Suas palavras foram voltadas para a questão da solidão, do abandono, e foi um sermão que muito nos consolou a alma.

São versículos conhecidos, e não foram poucas as vezes que já ouvi pregações sobre estes textos do evangelho de Lucas. Entretanto, conforme o sermão era desenvolvido no púlpito da igreja neste dia, o Senhor fez com que meu coração atentasse para alguns pontos acerca destes versos, e são estes detalhes que desejo partilhar neste artigo.


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Um Pouco de Contexto

Este capítulo 24, do evangelho de Lucas, é o último da “carta” que o médico, amigo de Paulo, escreve a um homem chamado Teófilo. O autor narra que pareceu-lhe bem expor, depois de uma acurada investigação, e em ordem, os fatos que aconteceram no decorrer do ministério de Cristo (Lc 1.1-4).

Como meu desejo neste artigo é de falar dos fatos que aconteceram após a morte de Jesus, creio ser necessário analisar de forma mais próxima o final deste livro, onde vemos que logo no capítulo 22 dá-se início às conspirações para matar a Cristo (22.1-6). Desde então, o Messias vai ao Getsêmani (22.39-53), Pedro nega sua fé (22.54-62), Cristo é julgado e, então crucificado (22.63 até 23.56). O capítulo 24, então, trata sobre a ressurreição do Mestre.

Sobre os Dois Discípulos

A Palavra nos narra, então, que no mesmo dia em que Pedro correu ao sepulcro e não viu seu Senhor- ele viu apenas os lençóis de linho- estes dois homens, discípulos de Cristo, seguidores do Caminho, dirigiam-se à aldeia de Emaús, que distava aproximadamente 11 quilômetros da cidade de Jerusalém.

Enquanto caminhavam, conversavam e discutiam sobre os acontecimentos recentes. Debatiam sobre a morte de Cristo, até que se lhes aparece um homem, aparentemente desinformado das notícias. Lucas nos narra ainda que este homem era o assunto da conversa destes dois, o próprio Mestre. Entretanto, o mesmo autor demonstra que “seus olhos estavam como que impedidos de o reconhecer”.

Cristo, então, interfere no diálogo e indaga aos caminhantes o que lhes preocupava, o que afligia seus corações. Entristecidos, ambos param e calam-se, até que Cleopas (o único que a Palavra faz menção do nome) responde ao até então “desconhecido”, perguntando-o se era o único que, vindo de Jerusalém, ignorava as ocorrências dos últimos dias. O Senhor, promovendo o diálogo, pergunta novamente “quais?”. E, na resposta dos dois discípulos é que desejo fazer meu primeiro comentário.

Estes dois homens respondem a Cristo contando toda a história do que aconteceu, porém, citam algo que muito me entristece o coração. Eles eram seguidores de Cristo, e não duvido que tinham um coração sincero batendo em seus peitos. Eram discípulos do Senhor, pois assim a Palavra nos narra, porém aparentemente não entenderam qual a missão principal de Jesus na terra. Quando, no versículo 24, lemos sua afirmação de que Cristo viria para “redimir a Israel”, podemos notar que as esperanças dos dois restavam no fato de serem livres de Roma, o império que afligia seu povo.

Entenda, com este parêntese que abro agora, que Cristo veio nos libertar do pecado, do jugo a que antes estávamos submetidos por sermos representados, diante de Deus, por Adão. Esta era a mensagem central da pregação de nosso Senhor. Quando vemos que Cristo, pelas diversas vezes que discursou, trouxe à tona a Lei de Moisés e o testemunho dos profetas, notamos que ele apontava para a incapacidade do homem de, pelos seus méritos, ser justo diante de Deus e salvar-se (pois para tornar isso claro que servia a Lei), e que a salvação viria pelo Messias, aquele único que teria o poder de cumprir a Lei do Senhor e oferecer a si mesmo como oferta pelo pecado do povo (que é precisamente a mensagem dos profetas, como vemos em Is 53).

Digo que o versículo 24 me dói no peito, pois, quando olhamos para a realidade atual da igreja evangélica brasileira, podemos notar que muitas pessoas afirmam seguir um Cristo que elas não conhecem. De forma irracional, obedecem aos mandamentos que não foram impostos pelo Senhor, mas falham no tocante ao amor a Deus e ao próximo, por exemplo, que segundo Cristo são o resumo da Lei. Tal como os discípulos que iam no caminho de Emaús, alguns de nossos irmãos não entendem a mensagem central do evangelho.

Prosseguimos, então, com a análise destes trechos e nos deparamos com a resposta de Cristo. Ah, e que resposta! No versículo 27 Lucas nos afirma o seguinte:

“E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras.” Lucas 24:27

A resposta do Mestre para toda a falta de conhecimento, toda a incredulidade, medo e dúvida que estavam alojados nos corações dos dois discípulos é “está escrito”. Cristo, passo a passo, ensina aos discípulos toda a trajetória do “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Desde a Lei (Moisés) até ao que dito pelos profetas, a respeito do Messias, foi tratado naquela caminhada. E, daqui, vejo ser necessário apontar alguns fatos:

1) Em primeiro lugar, e creio que mais importante, toda pregação da Palavra deve culminar em apenas um único alvo: Cristo. Vemos, na passagem acima exposta, que o próprio Senhor Jesus falava daquilo que “dele se achava em todas as Escrituras”. Bênçãos materiais, uma vida estável e conselhos sobre o que fazer ou não fazer não podem ser o ápice de nossas pregações. Tudo começa em Cristo, e deve terminar em Cristo. Devemos pregar para glória de Deus, demonstrando Cristo em cada Palavra, cada passagem. É evidente que assuntos do cotidiano podem – e devem – ser tratados no seio da Igreja, mas lembrando sempre que nada pode eclipsar o nome de nosso Senhor.

2) Em segundo lugar, a certeza da nossa fé não deve estar firmada nas coisas passageiras que vemos, nos boatos que ouvimos ou nos feitos das pessoas que nos cercam. Nossa fé precisa estar firmada na Palavra. É apenas com os pés cravados na Rocha Eterna que poderemos sobreviver aos constantes açoites do vento e das ondas, que tentam nos desviar do Santo Caminho.

3) Em terceiro lugar, vemos o resultado da pregação fiel das Escrituras – elas dão vida ao coração. Observando o versículo 32, notamos que o coração dos discípulos era esquentado quando Cristo com eles conversava. Como disse o apóstolo Paulo, a “fé vem pelo ouvir, e o ouvir vem pela palavra de Cristo” (Rm 10.17).

Assim, para concluir este texto, visto que não desejo alongá-lo ainda mais, creio ser necessário tecer uma pequena consideração sobre os versículos iniciais. Lá, notamos que os discípulos levantam-se, saem da casa onde estavam reunidos e voltam de Emaús a caminho de Jerusalém. Lembra de quando o Senhor Jesus os abordou? Cristo encontrou-os enquanto caminhavam para longe daquilo que lhes trazia sofrimento, a cruz e morte do Mestre, e agora eles percorrem este mesmo caminho, mas em sentido contrário, à Jerusalém, ao túmulo de Cristo, para levar as boas novas do Evangelho aos demais discípulos.

Aqui, termino com as palavras do Reverendo Edson Martins, meu pastor, quando afirma que “quem foge da realidade da cruz, não é capaz de ver o túmulo vazio”.

Sob a Graça



Daniel Rodrigues Kinchescki

Daniel Rodrigues Kinchescki

Membro da Igreja Presbiteriana de Florianópolis/SC, escritor e criador do blog "À cruz de Cristo: voltando aos marcos do Evangelho". Bacharelando em Direito, com experiência em liderança de grupos e em lecionar aulas de E.B.D. e palestras.


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